quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Manhã Triste.

"Manhã triste", ele diz.

Mas nem sei que ventos batem a sua porta. Da varanda imaginária, da casa inexistente, observo-o caminhando próximo à estrada. De novo, não sei que caminhos percorre. As árvores são secas e silenciosas vistas daqui e é bonito como ele desaparece na curva e no ar fica seu corpo desenhado a pó, feito tatuagem no vento.
"Deixa. Ele sabe o que está fazendo", me diz uma senhora que me observa enquanto poda a roseira.

Assustado, eu a encaro, porém não pergunto nada. Quando volto a olhar para estrada só vejo a curva sem final.

E de repente é um tempo sem tempo. Estamos em um apartamento antigo, na rua Augusta, aos poucos o som da cidade vai nos acordando. A janela sem cortina nos joga o sol quase que com vulgaridade. Cara a cara, abrimos os olhos e nos encaramos.

Quando procuro sua expressão doce e espírito livre, me recordo da senhora e da roseira que ela impedia de crescer. Penso em ajeitar o seu cabelo bagunçado, mas a única coisa que faço é dizer:

Manhã triste.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Não-soneto

O tempo parou.
O silêncio que ecoa de outros versos ainda tremula em minha boca.
Parados no tempo, ainda perseguimos nossas fantasias como crianças que somos nesse mundo que nos assusta.
Por um breve momento meu espírito voou e eu achei que você estaria próximo a mim.
Eu disse o que sentia, e percebi que o silêncio não era em minha boca, e sim em seu ouvido.
Tão docemente você confidenciou suas dúvidas nas palavras que não disse, eu sorri.

O tempo parou.
Os sonhos foram deixados de lado e a poesia interrompida.
Distante de tudo, os desejos escorregam de minha mão e me pergunto: por que devemos esperar tanto?
Vejo em seu olhar escuro as dúvidas se denunciarem, mas as respostas em sua boca hesitante são tristes.
Cansado, eu te chamo pelos versos disformes que deixo aqui ao acaso.

O tempo parou.
As possibilidades vão se desconstruindo.
Você não teme olhar para trás e ver as cinzas do que nem chegou a existir?

O tempo parou.
Sempre um sonhador eu lhe vejo partir.
Aceno sem resposta, mas uma parte de mim ainda vai contigo. Por que me tomas?

O tempo parou.
Mas eu sei que voltarei a evocar seu nome.

(o que temos de parecido é o que mais me assusta)

sábado, 30 de maio de 2009

Outro.

Seu nome eu escrevo e apago repetidas vezes.
Tento descrever o que seus olhos vêem e sua boca não diz.
Em alguns momentos eu sinto que sou cada instante desse silêncio que seus olhos denunciam.
Porém, depois eu não sei de nada.
Com a sutileza mais escancarada, eu lhe digo que acredito em todos os seus sonhos e seu semblante mudo me faz todo o sentido.
Mas as palavras que conheço não são o suficiente.
Absorto, num desvario premeditado, assim eu lhe busco.
(E crio você a me buscar)
Eu escrevo e apago, quando duas palavras bastariam...
Seu nome é um segredo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arder-te.

Onde arde,
Arde breve (e para sempre).
E doar-te é tão impensável.
E, para sempre, arder-te é tão impossível.
Onde é árduo,
Breve e impensável,
Doar-te é para sempre.
Arder-te, imprescindível.
É árduo não arder-te.
Onde arde,
Arde breve (e não se sente).

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Campo Sem Flores

Uma planta no campo sem flores. O sol a pino, a planta sem sombra. Poucas raízes, pois o seu verde ainda é novo. Seu verde ainda é virgem. Mas as raízes são profundas e a planta não se move quando o vento passa pelo campo sem flores.

No horizonte o sol escorre. O escuro esfria o campo sem verde. A planta é só sombra. E a noite profunda brinca de macular a planta. Porém seu verde ainda é verde. As raízes ainda doem sob o campo sem flores.

Novamente o vento uiva. E com ele vem a chuva breve sobre a terra seca. O verde da planta se ilumina e a terra é úmida. O uivo e a água vão embora. As raízes da planta tremulam e há música no campo sem flores.

Uma borboleta se aproxima da planta, trazendo mais dança que o vento. Pétalas sem cor se abrem e a borboleta toma de sua seiva. Elas se vão, fazendo mais vento que a chuva. Vão embora do campo sem flores.

sábado, 14 de março de 2009

Amanhã

“Parece incrível...”.
O lençol branco não está sobre a cama. Talvez esteja lá fora, balançando no varal, ainda úmido. Você dorme. É um sono sem roupa que contemplo imóvel, como não quisesse quebrar o encanto. Imagino com o que será que você está sonhando, o que pode ser tão diferente do que eu desenho quando me escapa a realidade. Você se move bruscamente e sorrio ao pensar o quanto isso é seu, no entanto é um sorriso breve pois n’outro instante você vira-se e eu não vejo mais seu rosto.

“Eu não amo ninguém”.
Quase toco sua nuca, porém recuo. (Às vezes penso que eu sempre recuo ou que você sempre foge). Imagino que você está acordado, fitando o nada daquele quarto, em busca de uma forma de me dizer aquilo que você não quer, entretanto que aos poucos vai te levando para longe. Você faz alguns movimentos leves como sentisse meus olhos pelo seu corpo. Deitado ao meu lado você é maior que eu, mas quando estamos frente a frente, sua fragilidade quase me assusta.

“É só amor que eu respiro”.
A manhã vai se arrastando, todo o tempo a minha mente está ao redor da sua e eu percebo que não sei nada a seu respeito além do que você deixou escapar, por caridade, por provocação ou sem perceber. Você se vira, abre os olhos lentamente e encara o teto. Volta-se para mim, sorri, suave, e fecha os olhos de novo, escondendo o rosto e revirando-se na cama, preguiçosamente. Eu rio. Você me penetra os olhos e eu não volto a sorrir. Seu olhar é amanhã.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Nu

Um anjo pousa ao meu lado. Tira sua veste branca de anjo e, nu, ele caminha. Mas não se mostra a ninguém. Ele permite-se tocar de leve as outras pessoas, no entanto é como se elas não sentissem, pois o anjo não olha para elas, não as vê, belas, pois é como que seus passos na terra crua lhe cegassem e o medo lhe faz crer que todos são feios. E a feiúra ele não toca. Na sua ingenuidade de anjo ele se aproxima, mas na aspereza humana (que ele desconhece) ele afasta todos ao seu redor e é como se ele se perdesse numa lágrima perpétua, num choro seco que nunca cessa, pois ele ainda não descobriu as suas asas. O sol vai mergulhando na linha do horizonte e é como se a figura do anjo encolhesse e eu vejo uma flor desprotegida secando lentamente. Uma flor que teme sugar a água que há na terra. E eu viro na próxima esquina, pois para mim seria tarde demais seguir aquele caminho. “Uma garoa fina poderia cair agora”, penso, como se tudo aquilo pudesse ser cena de um filme. E aquela criatura some às minhas costas, temendo nunca postar seus pés no chão em que pisamos e não sabendo que também seria tarde demais para ela aquele caminho, afinal, anjos não existem.