quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Carta

Horizonte claro, marcado com uma poesia escura. Versos oblíquos no seu corpo pálido. De repente escorregou o tempo, e aquele amanhã nebuloso foge de minhas mãos num ontem sólido.

A noite que começou tarde acabou no meio do dia. E eu sonhei com você nessa noite. No meu sonho, enquanto eu te acariciava, seu coração se acalmava. 

Existe um absurdo prestes a ser derramado no espaço que existe entre nós. Suas mãos são como as minhas, entretanto onde correm seus olhos em índigo, repousam os meus feito turmalina. 

Você não entende? A poesia é clara. "Mas o horizonte é escuro", você diria. O sonho se perde, então, em tempo, névoa e dia.

domingo, 29 de setembro de 2013

Reescrever

Você é um verso existencialista que eu não sei escrever. Existe uma dor em viver porque a vida é circunscrita. O que a limita é o absurdo, pois não existe sentido a ser encarado no mundo senão o que nós damos a ele. E eu não ouço o seu mundo. Ele é mudo. Em preto-e-branco.

Eu insisto sobre o papel, como quem nasce e chora. O leite escorre e pinga das minhas mãos. Existe fome entre os homens: alimentai-vos. E nesse início no meio de alguma coisa que eu não entendo, tudo o que se cria é fadado ao fim. Antes de eu ser, já era e vai continuar sendo depois que eu não for mais nada. "Já era!", eu lhe digo.

O andar de cima é sempre mais escuro. Então eu desço a escada com passos pesados. As janelas da sala estão abertas, aos poucos a luz vai subindo pelo meu corpo até estremecer minhas pupilas. Que horas são? Corro até a porta e abro com exasperação. Choveu. A grama está molhada. Chego até o portão e antes de partir olho pra janela lá no alto: ele fita o infinito através do vidro da janela até cerrar os olhos e se virar para o breu do aposento. 


A maçaneta girou lentamente às minhas costas. Abaixei os olhos sobre o papel. A escrita estava incompleta, no entanto, àquela hora, quem se importaria? Eu não podia ouvir seus passos, eu a senti se aproximar conforme arrepiavam-se os pelos do meu corpo. Eu vi seu reflexo na janela: vestia vermelho, como nos filmes encaixotados no porão. Ela pousou as mãos no meu pescoço e eu fechei meu olhos enquanto virava minha cabeça em sua direção. Ela me beijou.

sábado, 23 de março de 2013

Sobressalto


Eu te procuro nos meandros das histórias que vertem de minhas mãos. Eu te vejo correr para o meio da noite enquanto o desenho da tarde vai se apagando no horizonte. E o seu nome está sempre na página seguinte.

Existe uma sombra sem voz que me sufoca. Eu tenho medo que você esteja sob ela, me esperando com alguma música lenta que eu ainda não conheço. Pelas ruas, você é todos os rostos da multidão que passa por mim.

Cada palavra que se perde entre os meus dedos, é uma nova despedida que eu faço. Você sempre está de partida, como se a poesia fosse ser interrompida antes do fim. Eu acordo de sobressalto, mas você já foi.

Numa forte batida, a porta se fecha. Silêncio, não tem mais ninguém aqui. Então você sussurra no meu ouvido: é acaso. Breve. Assombro e fulminação. Estamos no chão e olhamos para o teto, como olhássemos as estrelas.

Vê aquela constelação? Vejo. E meus olhos se fixam no forro de madeira, enquanto você descreve minúcias do que não está lá. As histórias secam de minhas mãos e, feito vento, elas saem em ciranda dos seus lábios.

Percorro seus olhos, ombro, mão. Um passo, volta, dança. Desço seu pescoço, suas costas. Apague a luz. O tempo inexiste, então. O dia e a noite adormecem no meu colo. Mas você acorda lentamente, eu já fui.

sábado, 24 de novembro de 2012

Latente


A respiração é lenta. Como a falsa timidez de uma criança prestes a correr na direção de um balanço.

Porém cada pausa é como se você não fosse respirar outra vez. Então eu me contenho: eu não digo nada.

Eu me debruço na janela pra ver o pianista passar. Suave, morno e latente, como fosse uma dor nos Elísios.

A música se repete incessantemente pois a sua beleza pertence a um universo sem pausa. Universo sem tempo.

Quando acordar, eu terei saído. Eu não tenho pressa. Os meus passos estão no acorde e não na melodia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rimas Difíceis


Ficou esquecido num canto alguém que eu conhecia.
No trem oposto, n'outra linha, eu disse adeus.
Era inverno num outro lugar quando em mim amanhecia.

Ninguém se lembra de quando sabíamos muito pouco.
Os dedos trêmulos sobre o papel são meus.
Ninguém se lembra dos versos breves, tampouco.

Eu não queria que você guardasse aquilo que sobrou.
Solte o que resta, como a fé fina dos ateus.
Do outro lado na estação diga a mim que se lembrou.

Cada um corre no vale que se ergue no meu peito.
Cena de um filme de alguém que temia a Deus.
Eu repito cada nome, quando escurece e eu me deito.

Fim. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Maria


Você não pode me dizer sobre todas as cores que eu vejo pela janela da cozinha, no fundo de casa. Porém me conta sobre histórias sobre cada tom de verde que você segura em suas mãos. Muito antes de eu repousar em seu colo, você já piscava seus olhos claros, que parecem sempre cheios de lágrimas. Elas são tristes quando eu me lembro de todas as histórias que me contou, de um tempo que não me pertence. No entanto elas são alegres quando você me fala, com orgulho, de cada um de nós que estamos ao seu lado.

Sempre que eu te vejo frente a frente, é como me inundasse um mar calmo e morno. E eu ouço a sua voz lenta fazendo uma prece tímida. A folha de oliva pousa na imensidão azul. Não existe tempo. Você está nos meus cabelos, que dançam. E a música sai de sua boca, num assovio de apenas duas notas, mas que é a calma do meu coração.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Morte Súbita de Um Poema

Despiu-se. Deitou no chão da sala e pôs-se a declamar: 

Uma árvore antiga, de folhas escuras. Uma praia noturna. Uma flor improvável no meio do caminho. Ou um rio suave à sombra. É na natureza que eu te procuro, querendo te encontrar em todos os lugares. No entanto você não vem. 

Eu te vejo correndo antes da tempestade. Você some na esquina seguinte enquanto as janelas se fecham e as roupas são tiradas do varal. Um vento úmido e vasto varre a cidade e então você desaparece. Como pupilas que dilatam.

Você feriu o tempo. Fazendo do amanhã um ontem amargo e sem prece. Escondeu-se num lugar ordinário. Só porque não lhe vejo. E me deixou esquecido a me lembrar de você. Não existe o tempo, só a lembrança.  

Calou-se. Alcançou o telefone e esboçou uma mensagem:

Há momentos em que eu me questiono: será que eu vi o seu rosto, um dia, diante de mim, ou será que é uma lembrança inventada?

Riu-se. Virou-se de lado e murmurou:

A poesia é a doença e não a cura.