domingo, 23 de novembro de 2008

Grão-de-areia

Como um segredo, Grão-de-areia, dentro de uma concha adormece a sua dor.
Querem saber seu nome.
A pergunta ecoa no fundo do mar, mas seu nome é palavra que ninguém pronuncia.
Em seu gesto contido penso que apenas um vento forte lhe moveria.
No entanto, quando vejo as palavras que se formam atrás de seu olhar, sei que foi uma brisa que o levou para longe.
Como um segredo, você me diz quem você é, entretanto nada se ouve e o silêncio é uma ferida aberta, selada na concha.
Grão-de-areia, quando o mistério por trás de seus olhos escorrer em sua face, talvez eu não me surpreenda tanto, mas quando a brisa soprar ao meu lado, segurarei a Pérola, bem forte, e, em segredo, a lançarei ao mar.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Leste

Onde é escuro, leve todas as histórias que você me contaria, leve o medo que eu sentiria diante de você. Envolva sua nudez incógnita com a brisa que me escapa pelas mãos e esconda onde eu não mais a veja. Roube-me as suplicas e as leve consigo para algum beco que eu não conheça, esconda-me as palavras reescritas e se arraste no sussurro que faço de conta não escutar. Caminhe para o oeste, fuja! Porém, antes silencie minha boca e não me deixe dizer o que está escrito em todos os lugares. Leve no bolso meus devaneios e despeje-os no cais da noite, quando lá chegar. Onde é escuro, finja se lembrar de alguém que você desconhece.

sábado, 11 de outubro de 2008

Mais Um

Quando frio você aperta o passo. Feito aquela Julieta que você não viu, eu estou no centro do palco, eu murmuro seu nome e lhe procuro na platéia, mas como você no frio, todos os rostos são desconhecidos e súbito eu estou sozinho. Feito aquela Julieta, no centro de nada, no canto do palco, eu choro pela boca. Quando passo, aperta o frio.

Quarto Escuro

Ninguém diz seu nome e
Ninguém escuta quem sou.
Próximo a você pode ser
Qualquer lugar e tudo
Que temos são os olhos fechados.
“O sol nasce em seus lábios”
Pela primeira vez ouço a sua voz.

Não quero saber seu nome, não
Quero dizer quem sou.
Os olhos fechados me
Aproximam de ti e escapo
Indefeso, por todos os lugares,
“O sol se põe em sua boca”
Eu quase lhe revelo meu nome.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Outro Sujeito

O silêncio é meu ópio. Olho para trás e lá estou eu lhe dizendo milhões de coisas, não lhe dizendo nada, querendo dizer-lhe tudo. Talvez eu não devesse ser dos seus e seja a ferida no orgulho dos meus. Você ameaça se repetir num outro sujeito, numa outra oração, a beleza cristalizada sobre o mesmo solo árido. As páginas brancas do livro que se fecha bruscamente. Que página estaria rabiscado seu nome? Por um breve momento eu deixo a venda costurar minha visão e enrolar-se em meu pescoço. Mas é tarde demais para outra sinfonia de um Orfeu desconhecido. Rasgo o pano, lhe ofereço meu ópio e exalto outros que são nem dos seus, nem dos meus.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Desacerto

Escorro por seu corpo me alimentando de seu suor. Seu gosto amargo me invade a boca e dançamos como estivéssemos diante de um espelho, com a porta trancada no quarto dos fundos. Você pinta lágrimas brancas em meu rosto, tece sua teia e me chama para ti. Beijo-lhe a nuca e digo-lhe um poema. "De tudo, ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento". As palavras lhe penetram a mente e dentro de ti eu procuro me diluir entre tantas coisas que eu teria dito e nunca consegui. Dentro de ti encontro coisas que eu teria ocultado, querendo revelar. Num desacerto seu cheiro se mistura com outro rosto e por um momento cegamos um ao outro, sós. A unha risca a carne e cicio, infecundo, as lágrimas brancas dentro de ti. "Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure". Seu sorriso triste é um adeus prematuro. Permitimo-nos uma última intimidade, uma mão dentro da outra, lentamente, como carregasse um bilhetinho adolescente, mas seu rosto não me é passado nem futuro. Vou embora, como nunca estivesse estado e caminho, pois já é manhã (meio e fim).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Instante

Tomo a rosa em minhas mãos e a beijo. Como sendo absorvido, meus segredos se desfazem dentro da flor que me esconde os espinhos. Confidencio dentro da planta meu nome e num instante é aurora. Adentro a flor, como penetrasse minha própria carne. Os espinhos se revelam e fazem brotar sangue de minhas mãos. O instante acaba e é crepúsculo. Uma breve chuva vermelha fecunda o jardim estéril da rosa. Ao redor da planta sei que sou eu a sangria que chora sobre a terra. Enquanto o breu toma conta da garoa que desprende de mim, a morte sussurra ao meu lado e adormece em meus olhos.

domingo, 17 de agosto de 2008

Medo

O corredor é longo. Frio. Do outro lado há um espelho, onde estou eu. Não é escuro. "Por que o medo?", as paredes perguntam. Eu dou um passo para frente. O espelho recua. Foi uma ilusão, penso. Avanço um, dois, três passos e o corredor fica mais longo. Eu fico mais longe. Começo a correr e o reflexo vai indo embora. Eu paro. Tudo para. As paredes não dizem nada. O frio é longo. Escuro. E o corredor vai se dissolvendo. Eu, lá na outra ponta, aceno, me chamando para fugir. “Eu não posso me mover”, tento dizer. Mas aquele eu nada entende e corre. Aos poucos as coisas vão sumindo. “Por que o medo?”, a pergunta ricocheteia por todos os lados. As paredes parecem agonizar. Não posso me mover. “Por que o medo?”. Já não me vejo mais. E nada parece me ver. O escuro é frio. Longo. “Por que o medo?”. No último instante de fim percebo que eu era o espelho sobre o aparador.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Perigo

Ela era uma mulher abnegada e virgem. Fazia suas orações diariamente e sentia-se realizada assim. Vestia-se como quem se cobre, amedrontada. Um dia uma colega do trabalho disse que faria aniversário num “barzinho família” e a convidou. Receosa, ela foi. Chegando lá, logo procurou se sentar de maneira que não olhasse para todo o local. De onde estava via a porta do banheiro. Mas aqui só tem um banheiro? Perguntou para a colega ao seu lado. É unissex, meu bem. Abriu os olhos, assustada, mas fingiu normalidade. Ah... Eu não entro nesse banheiro! Deu-se essa ordem. Observou uma mulher muito grande entrando no banheiro, com um vestido roxo, curtinho, e com nádegas grandes. Teve orgulho de sua roupa discreta e comportada. Pediu uma água à garçonete. As colegas do trabalho conversavam sobre os mais variados absurdos. Falavam de posições eróticas. Achou estar louca ao ouvir a colega aniversariante dizer que gostava de “uma xota peluda”. A moça forte vinha saindo do banheiro. Ela não tinha seios grandes. Observou um volume entre as pernas daquela curiosa mulher. Mas, mas... Abriu os lábios delicadamente e tocou-lhes. Sentiu algo que nunca sentira. Tocou o seio. A garçonete chega com sua água. Ela se levanta e diz que não queria mais nada. Eu vou embora, EMBORA! Sai correndo, sentindo-se violada. Chegou em seu modesto apartamento e se despiu diante do espelho. Olhou-se com pena. Eu estou enlouquecendo. Foi até o criado mudo, pegou seu terço e começou a orar, nua. Pensava no volume da mulher de vestido roxo. Levou o dedo indicador e o médio até o meio de suas pernas. Aquela mulher de ombros largos. Orava com fervor. Aquele rosto que parecia feito à machadada. Gritava suas preces. Aquela, aquela... Virilidade! Ah, ah! AMÉM! Caiu, exausta, ao lado da cama. De alguma forma ela conhecia o paraíso

domingo, 3 de agosto de 2008

Murmúrio

O sol se põe, distante e enferrujado. Uma nuvem negra se posta sobre mim. De longe você ri. Um som grave brota da terra e invade o céu. "Trovões", sua boca articula. Uma chuva rala começa a cair. Estendo os braços. Lentamente vou me molhando. Agora é água, onde você fora fogo. Por alguns segundos seu sorriso ameaça desaparecer. O horizonte se torna lilás. "Purifique-se", alguém diz lá atrás. Percebo que existem outras pessoas a minha volta. Olho para você, interrogativo, que me responde assentindo, misterioso. Todos olham para a nuvem negra. Como quisessem desvendar o segredo daquela chuva. Tantas pessoas à minha volta, fecho os olhos e me ajoelho. "Não há ninguém aqui". Você fica sério. Não existe mais horizonte. Percebo que esfriou. As pessoas começam a ir embora. As gotas vão rareando. Penso em caminhar até você. Minhas roupas pesam. Você percebe minha intenção e me encara assustado. Tenho medo. Medo do seu medo. "Mostra-me o mundo dos confins dos seus segredos", murmuro. Você vira as costas e vai embora. A chuva cessa.

terça-feira, 15 de julho de 2008

De Longe

Em algum lugar um estranho nos observa. Ele parece esperar uma atitude errada, mal calculada. Ele parece procurar em mim e em você algo diferente. Ele parece querer dizer que ele está entre nós. Em lugar nenhum, nos observando. E lentamente, oculto, flagrado, eu estendo a minha mão. Você não sabe, mas eu não lhe faria mal algum.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Volta No Quarteirão

Um dia eu me cansei de algumas dessas coisas que cansam todo mundo, mas ninguém diz. Aí eu resolvi que sairia nu pela rua. Nu. Me despi diante do espelho, como quem põe uma roupa recém passada, com todo o cuidado. Um vento que não era frio, que não era poesia, tocou meu corpo. Meu corpo denso. Dei um passo e me aproximei de mim mesmo. Encarei o espelho. "Eu sempre me vejo ao contrário do que as pessoas me vêem". uma ruga aqui. Outra ali. Toquei meu pescoço. A barba por fazer, pinicava. Toquei meu pênis. Tímido. Fiquei de lado e me sorri. Caminhei até a porta da sala, com as coisas balançando. Saí. As pessoas olhavam. Algumas riam. Outras, de longe, provocavam maliciosamente. Senhoras viravam os olhos e moviam a cabeça. "Tsc, tsc, tsc". Dei uma volta no quarteirão. Ouvia ofensas. Encorajamentos. Um homem que tinha lá seus 50 anos me parou e disse: "Você não tem vergonha, rapaz?". Disse-lhe que não. Oras, eu não tinha mesmo. "Pouca vergonha", ele disse, achei que fosse me agredir. "O senhor nunca ficou nu", lhe disse. Ele não me respondeu, mas acho que o tocou de alguma maneira. Terminei a minha volta. Entrei em casa e pensei em chorar. Li em algum lugar que homem chorar comove. Mas não consegui. O telefone toca, "Alô?", digo. Uma foz feminina e idosa me diz:
- O senhor é um perfeito cavalheiro.
E desliga.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ferida

Hehehe, você lembra? Eu tinha 13 anos e você 12, talvez 11, seu rosto era redondinho, mas suas intenções eram piores que as minhas, hehehehe. Você falava comigo fazendo graça, sorrindo como quem se entrega, eu estava arisco. Agora eu lhe digo: E-U-N-Ã-O-Q-U-E-R-I-A. Eu subi na árvore, com o fôlego de criança que ainda restava em minha pré-adolescência e você nada entendia. Subimos a rua, buscando um lugar que não tivesse uma árvore para me distrair, aí eu seria seu definitivamente. Sentamos na grama. Olhamo-nos e uma sombra do que seria a vida adulta baixou em nós naquele momento. Eu sabia o que você queria. Eu sabia do que você seria capaz. Então eu tinha medo. Você me atacaria e em nome de algo que fugia ao meu controle eu sucumbiria e me entregaria a contragosto e você se esbaldaria num ato nojento que eu abominaria para o resto de minha vida. Sua mãe aparece de carro. Encara-me ameaçadora, como fosse eu a fera e você a presa. Não ouso lhe sorrir. Você entra no carro, percebo decepção em seu corpo retraído, decepção comigo, com sua mãe que interrompera nosso ato. Você se vira num breve instante para mim, querendo se despedir. Eu forjo uma expressão de pesar, mas interiormente é festa. O carro sai. Sozinho eu caminho para casa, pensando o que seria da minha vida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

"Fim dos Tempos"

O cinema não é frio como antigamente. Não coloco a blusa. Decido por a mochila na cadeira ao lado direito. "Talvez ela chegue", penso. Não chegou. Um cara estranho passa, "Licença" e senta ao meu lado, tive que tirar a mochila. Não nos falamos. Eu nem falo com estranhos mesmo. O filme começa. Mostra uma praça, cheia. Acho lindo os risinhos de fundo no início do filme. Aí descubro que é uma gente "recém-adolescida" sentada logo à frente que o produz. Aí passo a achar feio. Escuto o primeiro "shhhh", la do fundo. Sorrio. Eles param. O cara do meu lado esquerdo aponta para a namorada o boom que escapou e apareceu brevemente na cena. Eu não vi. Mas ouço o estalar de lábios dele com a namorada. "Esse cara não vai ficar observando coisas o filme todo, vai?", me pergunto. Sinto vontade de fazer xixi. "Saco, vai ficar o filme todo", quase fico alfito. Vejo mortes repentinas. Gritos. "É esteticamente bonito", reflito. Ah! Um susto! As crianças lá da frente riem. O casal da esquerda ri. Eu não rio. O cara estranho não ri. Mais "shhhhhhh". O povo se acalma. O filme continua. "Oh, onde está a moça e a menina", penso. "Elas estão na casinha", diz o homem lá de trás. Incoveniente do caralho. Fecho meus olhos. Conto até 5. Escuto a voz dele novamente e "SHHHHHHHHHHHH". Ah... Foi a minha vez, que prazer! Ele se cala. O homem da direita, o estranho, me olha rapidamente. "Ele pode me matar", eu penso. Mas acho que se ele dissesse algo ele me agradeceria. Ele já não é tão estranho assim. Mas tenho a impressão que ele mata pessoas. Já nem tenho certeza se ouvi a voz dele quando me pediu passagem. O filme prossegue, sem surpresas. Só sustos. "Um filme B divertido", disse o diretor. É, isso é. O filme acaba. A criançada lá da frente urra. Alguns aplaudem, sardônicos. Outros reclamam. Queriam surpresas. Eu me levanto sem me despedir do estranho e nem do casal apaixonado. Saio do cinema e coloco a blusa, lá fora está frio. Vou embora com a sensação de saudade de toda aquela gente que dividiu um momento comigo, mas que eu nunca mais vou ver. "Talvez eu veja", mas eu não me lembraria.

domingo, 25 de maio de 2008

Eu não sei.

Às vezes eu tenho um par de asas.

Às vezes eu tenho um par de botas.

Às vezes eu tenho um par de seios.

Às vezes eu tenho um par.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Outro Delírio

“Bom, contar para vocês quantas vezes eu já tentei fazer isso... Não tem como... Cada dia que acordo fico triste por ainda estar viva... Eu já tomei veneno de rato, me dopei com remédios controlados... Nada parece ser suficiente... Cortei meus pulsos... Ah, não sei mais o que fazer... Até na hora da morte eu fracasso... Por que ainda estou viva? Acho que preciso de ajuda, sei lá... Não posso continuar...”

Parei em frente à porta azul, número 11. O marrom da madeira se revelava onde a pintura estava desgastada. Apertei a campainha, duvidando que ela funcionasse realmente. Esperei... Nada. Bati na porta.

- BO-CE-TA! – alguém diz no interior da casa. Sorrio, nostálgico.

A porta se abre e, lentamente, surge atrás dela um rosto assustado e curioso de mulher.

- Ah, é você – ela me diz com falso desdém.

Pego suas mãos e as beijo. Procuro uma conhecida em seus olhos, no entanto me deparo com um hostil oco que me atormenta.

- Entre.

- Licen...

- Ah! Que isso!? Vai entrando. Senta ali, ó, ali, na poltrona azul. Vou fazer café. Quer café, né? Vou fazer.

Ela não me deixou responder, há um transtorno em sua fala que não é mais bonito como outrora. Eu me sento na poltrona azul e ela vai até a cozinha, ou a aparte daquele cômodo que contém móveis de cozinha, e começa a me preparar o café. Seu semblante é denso. “Os sorrisos foram sepultados”, eu penso.

- HAHAHAHAHAHAHA – ela dispara repentinamente. Olha-me com falsa pena e com um prazer secreto no olhar me diz que não sabe fazer café.

- Não precisa! Senta aqui, vamos conversar.

Ela se vira com um olhar sensual, balança o cabelo e num charme mofado de anos 50 que ela não viveu, sussurra:

- Claro, gato.

- Hum... É para eu tirar a roupa? – entro na brincadeira.

- Ui, você que sabe.

Rio. Ela se senta no sofá grande, como se estivesse num divã.

- Quer falar sobre o que? – olha-me como uma criança dispersa e não tenho certeza se seus pensamentos estão naquele lugar.

- O que você tem feito?

Ela passa o dedo indicador entre os diversos colares que ela está usando. Nada combina. Suas roupas são peças de diferentes quebra-cabeças, porém é como se tudo ali fosse ela.

- Aprendi a fazer crochê, mas café não.

Ela olha para a janela como se esperasse alguém.

- Você mora com alguém aqui?

- Depende.

- Depende?

- Ah, moro com todo mundo, sempre dou festas aqui, o pessoal vem, a gente canta, dança, ahahahahaha, todo dia tem alguém diferente dormindo aqui, a minha casa é de todos.

Olho ao meu redor, a solidão daquele lugar é tão assustadora quanto o ar de loucura daquela mulher. Sinto-me sufocado.

- Você precisa de alguma coisa?

Seu olhar está na janela, então ela me encara, pela primeira vez eu vejo um vestígio de lucidez.

- Está vendo? – aponta a janela. Olho e respondo:

- Sim...

- Por que não chove mais?

Não sei o que responder. Balanço a cabeça e por pouco não me perco na languidez daquele vidro sujo e da madeira apodrecida da janela.

- Você precisa de alguma coisa? – insisto.

Ela me olha violada, cansada, distante. Levanto-me.

- Bom, vou deixar um cheque aqui para você, caso precise de algo, tá?

Assinei o cheque e lhe estendi. Seus olhos se abaixaram para o papel assinado e depois procuram meu rosto. “Você acha que é disso que eu preciso”, pude sentir-la perguntar.

- Até mais ver.

- Até... – ela diz, perdendo seu olhar no cubículo, como se houvesse mais alguém ali.

Sorri-lhe com compaixão e fui embora. Nunca mais a vi.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Delírio.

Ele estava sentado de frente para mim. Entre nós uma mesa recém arrumada para o café que eu lhe oferecia.
- Cinzeiro? - perguntei já sabendo a resposta.
- Por favor.
Em nenhum momento ele ri. Acende o cigarro, charmoso. Sorrio, lembrando-me do passado. "Ah, mas que saco! Eu vou parar, vou parar...". Ele solta a fumaça, como uma dona de bordel faria, alguém que um dia foi muito desejado, mas só restou a soberba. Minto:
- Você está bem.
Ele esboça o primeiro sinal de descontração, mas ainda é cansaço.
- Nunca consegui largar essa praga! - balança o cigarro encenando uma raiva que conheço de anos.
Olho-o nos olhos. A mesma luz escura. Mas é tudo diferente.
- Ah, você nunca quis realmente... - provoco. Ele percebe e uma sombra do passado passa por seu olhar. Ele, finalmente, ri, com a maldade deliciosa de sempre:
- Hahaha, o que mais eu nunca quis? - agora é ele quem provoca.
- Não sei... Mas você sempre pareceu ter o que sempre quis.
Ele assopra a fumaça, tentando fazer bolinhas. Nunca conseguiu. Adquire um ar amargurado e me encara. Rio.
- É para eu chorar?
- Hahaha, o quê? O olhar não convence? - suga a nicotina com prazer.
- Você era capaz de me convencer de muitas coisas.
Ele fica quieto. Amassa o cigarro com delicadeza, num ritual.
- Foi difícil te achar, sabe?
- Você quem sumiu - rebato.
Eu não tinha raiva. Sumira da minha vida como quem nunca desejou estar nela. Outras pessoas sofreram mais. Entretanto eu nunca o esqueci.
Acende outro cigarro e o sorve com sofrimento cinematográfico.
- E os outros?
- Morreram.
Ele me encara, incrédulo. Debocho:
- Hehehe, alguns casados, outros no exterior... Estão bem.
- Que bom, que bom... - se perde no vazio.
- E o que você fez durante esses anos?
- Só merda.
- Nossa... Mais café?
- Não, obrigado. A vida foi filha-da-puta comigo.
- Com todos nós, querido, todos nós...
- Posso ir ao banheiro?
- Claro! É aquela porta à esquerda.
Ele caminha até a porta e se tranca. Fecho os olhos e penso: "Ainda não entendo o que eu sinto por ele". Raiva? Compaixão? Medo? Desejo? Desprezo? Olho sua mala puída. Não resisto. Dentro uma biografia de Wassily Kandinsky, uma blusa dobrada e... Uma arma! Escuto a descarga. Volto para minha cadeira rapidamente. Ele sai e caminha em minha direção.
- Obrigado pelo café.
"Obrigado você, pela companhia", penso em dizer, mas é tarde demais para isso.
- Disponha. Foi bom rever você depois de vinte anos!
- É... - se entristece - Tenho que ir, é tarde.
Acompanho-o até a porta. Procuro seu olhar novamente. Ele sempre foi tão frio. Por um momento é quente, como se ele se desculpasse por algo que me fez sem saber. Aperto a sua mão. "Poderia ser um abraço", lamento.
- Adeus.
- Deus... - Ele me diz, e vai embora.

domingo, 30 de março de 2008

Fade In

Sou todas as direções do vento.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Looking In

Fui ver a peça H.E.R.Ó.I.S.
Seria piegas eu dizer que a palavra que ficou é "superação". Mas é, até certo ponto. As personagens superam obstáculos, mas é tudo em torno da desesperança. É triste. Você vai descendo para o local mais fundo do Centro Cultural São Paulo e sai de lá com a sensação de que correntes estão amarradas ao seu calcanhar. Pesa. Seja pela irrealidade, pela loucura de um homem encarcerado e nas vésperas de uma rebelião, sonhos pisados, um homem esquecido (que a platéia é convidada a prestar atenção, a iluminar algo que a sociedade colocou à margem), louco e, acima de tudo, lúcido. Seja pelo homem cego que espera alguém que ele ama. Sarah. Com H no final. Um homem que espera, espera... E a cegueira provoca, em algum momento aquele sentimento cruel de piedade. Ah, mas tinha a superação, e na peça a única representação de medo é de alguém da platéia que foi privado da visão por instantes. Você sobe as escadas e um pouco de você fica lá em baixo. Nas masmorras. E a masmorra é um pouco dentro de você. E num dado momento toca uma música conhecida, mas que você nem sabe o nome. E de alguma forma você tem certeza que "navegou no barco pirata", e isso é único.

domingo, 16 de março de 2008

Via Crucis

"Nós, que estamos vivos, neste momento, somos apenas uma parte infinitesimal de algo que existe há uma eternidade e continiará a existir, quando não houver mais nada servindo como prova de existência da Terra. Entretanto, precisamos sentir e acreditar que somos tudo".

(Liv Ullmann, em "Mutações")

Há alguém. É como se eu estivesse eu sua casa, vazia. Essa pessoa não está lá. Mas eu sinto cheiros. Ecos mudos de torneiras, talheres, cobertores. Tudo que me vem é longe dali. Percebo a vida em instantes de sentimentos que me é permitido, mas logo me é privado. Vive uma mulher aqui, posso concluir. E me apaixono. Tocaria sua boca. Olharia em seus olhos. Suspiraria. Ficaria em silêncio. Nu. Não me atreveria a dizer o que quero. Diria seu nome, apenas. E em pouco tempo tudo seria passado. Ela me deixaria algo feroz e ingênuo martelando meus pensamentos. Eu não saberia o que fazer com isso. Seria bom, tão bom quanto repetir seu nome no escuro sem resposta. Na casa vazia há alguém. E não há. Saio daquele lugar. Algo em mim muda. Caminho pela calçada com pressa de lugar nenhum. Uma mulher vem em minha direção e me confidencia ao pé do ouvido: "A gente morre às vezes". E não sinto nada. Só quero viver outra vez.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Mesmos

"Adeus"
Há um silêncio ao redor dessa palvra.
Algo frio, só, algo imposto em nossa lembrança.
Há medos.
"Adeus"
Medo da falta que fará quem dizer isso no olhar,
Como um segredo, que você não revelaria.
Medo da mesma pessoa que se foi e ainda está aí.
"Adeus"
Medo de tudo que não foi dito, mas que ecoará eternamente dentro de você.
Uma voz canta "goodbye, my lover, goodbye, my friend"...
Quase rio, não consigo me emocionar.
"Adeus"
Eu tento ver.
É tão alto que eu gritaria, me surpreendo.
Mas eu não digo nada.

sábado, 1 de março de 2008

Redores

Alguém que a todo momento lhe diz:
"Longe demais, longe demais...".
Você procura alguma maneira de se aproximar.
Você Olha. Você pede. Você apenas gostaria... Poderia...
"É impossível" - Alguém traga seus sonhos.
Sorrisos breves. Olhar furtivo.
"Longe demais, longe demais".
Você tenta acreditar. Se aproximar...
Mas alguém impede. E você acreditaria.
"Im-pos-sí-vel" - Baforam ao seu redor.
A todo momento alguém lhe diz que
Não era para você estar ali. Não era.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Sopro.

Pelo perdão dos que falam e não são ouvidos, dizei: Amém!