segunda-feira, 31 de março de 2008

Delírio.

Ele estava sentado de frente para mim. Entre nós uma mesa recém arrumada para o café que eu lhe oferecia.
- Cinzeiro? - perguntei já sabendo a resposta.
- Por favor.
Em nenhum momento ele ri. Acende o cigarro, charmoso. Sorrio, lembrando-me do passado. "Ah, mas que saco! Eu vou parar, vou parar...". Ele solta a fumaça, como uma dona de bordel faria, alguém que um dia foi muito desejado, mas só restou a soberba. Minto:
- Você está bem.
Ele esboça o primeiro sinal de descontração, mas ainda é cansaço.
- Nunca consegui largar essa praga! - balança o cigarro encenando uma raiva que conheço de anos.
Olho-o nos olhos. A mesma luz escura. Mas é tudo diferente.
- Ah, você nunca quis realmente... - provoco. Ele percebe e uma sombra do passado passa por seu olhar. Ele, finalmente, ri, com a maldade deliciosa de sempre:
- Hahaha, o que mais eu nunca quis? - agora é ele quem provoca.
- Não sei... Mas você sempre pareceu ter o que sempre quis.
Ele assopra a fumaça, tentando fazer bolinhas. Nunca conseguiu. Adquire um ar amargurado e me encara. Rio.
- É para eu chorar?
- Hahaha, o quê? O olhar não convence? - suga a nicotina com prazer.
- Você era capaz de me convencer de muitas coisas.
Ele fica quieto. Amassa o cigarro com delicadeza, num ritual.
- Foi difícil te achar, sabe?
- Você quem sumiu - rebato.
Eu não tinha raiva. Sumira da minha vida como quem nunca desejou estar nela. Outras pessoas sofreram mais. Entretanto eu nunca o esqueci.
Acende outro cigarro e o sorve com sofrimento cinematográfico.
- E os outros?
- Morreram.
Ele me encara, incrédulo. Debocho:
- Hehehe, alguns casados, outros no exterior... Estão bem.
- Que bom, que bom... - se perde no vazio.
- E o que você fez durante esses anos?
- Só merda.
- Nossa... Mais café?
- Não, obrigado. A vida foi filha-da-puta comigo.
- Com todos nós, querido, todos nós...
- Posso ir ao banheiro?
- Claro! É aquela porta à esquerda.
Ele caminha até a porta e se tranca. Fecho os olhos e penso: "Ainda não entendo o que eu sinto por ele". Raiva? Compaixão? Medo? Desejo? Desprezo? Olho sua mala puída. Não resisto. Dentro uma biografia de Wassily Kandinsky, uma blusa dobrada e... Uma arma! Escuto a descarga. Volto para minha cadeira rapidamente. Ele sai e caminha em minha direção.
- Obrigado pelo café.
"Obrigado você, pela companhia", penso em dizer, mas é tarde demais para isso.
- Disponha. Foi bom rever você depois de vinte anos!
- É... - se entristece - Tenho que ir, é tarde.
Acompanho-o até a porta. Procuro seu olhar novamente. Ele sempre foi tão frio. Por um momento é quente, como se ele se desculpasse por algo que me fez sem saber. Aperto a sua mão. "Poderia ser um abraço", lamento.
- Adeus.
- Deus... - Ele me diz, e vai embora.

4 comentários:

vru disse...

Gostei de seu texto querido. Relembra uma pessoa querida, ao mesmo tempo que é uma pessoa no qual te incomoda. Ou incomodou.

Esperei aquele momento de soberba, hahahahaha
bonito.

Brenda de Oliveira disse...

E eu querendo que o texto ficasse mais curto e tivesse mais
Hehehe.
beijim.

Tallulah disse...

O blog está pronto.

Cristiane disse...

Incrível saber quem e sentir o sabor dos gestos. Milimetricamente descrito numa meia dúzia de palavras temos o retrato, de memória, da pessoa que sabemos quem é...