terça-feira, 22 de abril de 2008

Outro Delírio

“Bom, contar para vocês quantas vezes eu já tentei fazer isso... Não tem como... Cada dia que acordo fico triste por ainda estar viva... Eu já tomei veneno de rato, me dopei com remédios controlados... Nada parece ser suficiente... Cortei meus pulsos... Ah, não sei mais o que fazer... Até na hora da morte eu fracasso... Por que ainda estou viva? Acho que preciso de ajuda, sei lá... Não posso continuar...”

Parei em frente à porta azul, número 11. O marrom da madeira se revelava onde a pintura estava desgastada. Apertei a campainha, duvidando que ela funcionasse realmente. Esperei... Nada. Bati na porta.

- BO-CE-TA! – alguém diz no interior da casa. Sorrio, nostálgico.

A porta se abre e, lentamente, surge atrás dela um rosto assustado e curioso de mulher.

- Ah, é você – ela me diz com falso desdém.

Pego suas mãos e as beijo. Procuro uma conhecida em seus olhos, no entanto me deparo com um hostil oco que me atormenta.

- Entre.

- Licen...

- Ah! Que isso!? Vai entrando. Senta ali, ó, ali, na poltrona azul. Vou fazer café. Quer café, né? Vou fazer.

Ela não me deixou responder, há um transtorno em sua fala que não é mais bonito como outrora. Eu me sento na poltrona azul e ela vai até a cozinha, ou a aparte daquele cômodo que contém móveis de cozinha, e começa a me preparar o café. Seu semblante é denso. “Os sorrisos foram sepultados”, eu penso.

- HAHAHAHAHAHAHA – ela dispara repentinamente. Olha-me com falsa pena e com um prazer secreto no olhar me diz que não sabe fazer café.

- Não precisa! Senta aqui, vamos conversar.

Ela se vira com um olhar sensual, balança o cabelo e num charme mofado de anos 50 que ela não viveu, sussurra:

- Claro, gato.

- Hum... É para eu tirar a roupa? – entro na brincadeira.

- Ui, você que sabe.

Rio. Ela se senta no sofá grande, como se estivesse num divã.

- Quer falar sobre o que? – olha-me como uma criança dispersa e não tenho certeza se seus pensamentos estão naquele lugar.

- O que você tem feito?

Ela passa o dedo indicador entre os diversos colares que ela está usando. Nada combina. Suas roupas são peças de diferentes quebra-cabeças, porém é como se tudo ali fosse ela.

- Aprendi a fazer crochê, mas café não.

Ela olha para a janela como se esperasse alguém.

- Você mora com alguém aqui?

- Depende.

- Depende?

- Ah, moro com todo mundo, sempre dou festas aqui, o pessoal vem, a gente canta, dança, ahahahahaha, todo dia tem alguém diferente dormindo aqui, a minha casa é de todos.

Olho ao meu redor, a solidão daquele lugar é tão assustadora quanto o ar de loucura daquela mulher. Sinto-me sufocado.

- Você precisa de alguma coisa?

Seu olhar está na janela, então ela me encara, pela primeira vez eu vejo um vestígio de lucidez.

- Está vendo? – aponta a janela. Olho e respondo:

- Sim...

- Por que não chove mais?

Não sei o que responder. Balanço a cabeça e por pouco não me perco na languidez daquele vidro sujo e da madeira apodrecida da janela.

- Você precisa de alguma coisa? – insisto.

Ela me olha violada, cansada, distante. Levanto-me.

- Bom, vou deixar um cheque aqui para você, caso precise de algo, tá?

Assinei o cheque e lhe estendi. Seus olhos se abaixaram para o papel assinado e depois procuram meu rosto. “Você acha que é disso que eu preciso”, pude sentir-la perguntar.

- Até mais ver.

- Até... – ela diz, perdendo seu olhar no cubículo, como se houvesse mais alguém ali.

Sorri-lhe com compaixão e fui embora. Nunca mais a vi.

4 comentários:

Cristiane disse...

Por um momento tive medo de me ver.... de qualquer maneira ainda estou procurando...

Brenda de Oliveira disse...

rxxjikbImginei tudo.
Foi bom.


Ai, que história trise.
=/

Brenda de Oliveira disse...

Imginei*


(ao erro lá em cima)

vru disse...

Já te falei o quanto achei esse texto lindo?
Honesto e lindo.
Espero que não seja assim. Se assim for, ficarei encantada mesmo assim.