terça-feira, 15 de julho de 2008

De Longe

Em algum lugar um estranho nos observa. Ele parece esperar uma atitude errada, mal calculada. Ele parece procurar em mim e em você algo diferente. Ele parece querer dizer que ele está entre nós. Em lugar nenhum, nos observando. E lentamente, oculto, flagrado, eu estendo a minha mão. Você não sabe, mas eu não lhe faria mal algum.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Volta No Quarteirão

Um dia eu me cansei de algumas dessas coisas que cansam todo mundo, mas ninguém diz. Aí eu resolvi que sairia nu pela rua. Nu. Me despi diante do espelho, como quem põe uma roupa recém passada, com todo o cuidado. Um vento que não era frio, que não era poesia, tocou meu corpo. Meu corpo denso. Dei um passo e me aproximei de mim mesmo. Encarei o espelho. "Eu sempre me vejo ao contrário do que as pessoas me vêem". uma ruga aqui. Outra ali. Toquei meu pescoço. A barba por fazer, pinicava. Toquei meu pênis. Tímido. Fiquei de lado e me sorri. Caminhei até a porta da sala, com as coisas balançando. Saí. As pessoas olhavam. Algumas riam. Outras, de longe, provocavam maliciosamente. Senhoras viravam os olhos e moviam a cabeça. "Tsc, tsc, tsc". Dei uma volta no quarteirão. Ouvia ofensas. Encorajamentos. Um homem que tinha lá seus 50 anos me parou e disse: "Você não tem vergonha, rapaz?". Disse-lhe que não. Oras, eu não tinha mesmo. "Pouca vergonha", ele disse, achei que fosse me agredir. "O senhor nunca ficou nu", lhe disse. Ele não me respondeu, mas acho que o tocou de alguma maneira. Terminei a minha volta. Entrei em casa e pensei em chorar. Li em algum lugar que homem chorar comove. Mas não consegui. O telefone toca, "Alô?", digo. Uma foz feminina e idosa me diz:
- O senhor é um perfeito cavalheiro.
E desliga.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Ferida

Hehehe, você lembra? Eu tinha 13 anos e você 12, talvez 11, seu rosto era redondinho, mas suas intenções eram piores que as minhas, hehehehe. Você falava comigo fazendo graça, sorrindo como quem se entrega, eu estava arisco. Agora eu lhe digo: E-U-N-Ã-O-Q-U-E-R-I-A. Eu subi na árvore, com o fôlego de criança que ainda restava em minha pré-adolescência e você nada entendia. Subimos a rua, buscando um lugar que não tivesse uma árvore para me distrair, aí eu seria seu definitivamente. Sentamos na grama. Olhamo-nos e uma sombra do que seria a vida adulta baixou em nós naquele momento. Eu sabia o que você queria. Eu sabia do que você seria capaz. Então eu tinha medo. Você me atacaria e em nome de algo que fugia ao meu controle eu sucumbiria e me entregaria a contragosto e você se esbaldaria num ato nojento que eu abominaria para o resto de minha vida. Sua mãe aparece de carro. Encara-me ameaçadora, como fosse eu a fera e você a presa. Não ouso lhe sorrir. Você entra no carro, percebo decepção em seu corpo retraído, decepção comigo, com sua mãe que interrompera nosso ato. Você se vira num breve instante para mim, querendo se despedir. Eu forjo uma expressão de pesar, mas interiormente é festa. O carro sai. Sozinho eu caminho para casa, pensando o que seria da minha vida.