segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Instante

Tomo a rosa em minhas mãos e a beijo. Como sendo absorvido, meus segredos se desfazem dentro da flor que me esconde os espinhos. Confidencio dentro da planta meu nome e num instante é aurora. Adentro a flor, como penetrasse minha própria carne. Os espinhos se revelam e fazem brotar sangue de minhas mãos. O instante acaba e é crepúsculo. Uma breve chuva vermelha fecunda o jardim estéril da rosa. Ao redor da planta sei que sou eu a sangria que chora sobre a terra. Enquanto o breu toma conta da garoa que desprende de mim, a morte sussurra ao meu lado e adormece em meus olhos.

domingo, 17 de agosto de 2008

Medo

O corredor é longo. Frio. Do outro lado há um espelho, onde estou eu. Não é escuro. "Por que o medo?", as paredes perguntam. Eu dou um passo para frente. O espelho recua. Foi uma ilusão, penso. Avanço um, dois, três passos e o corredor fica mais longo. Eu fico mais longe. Começo a correr e o reflexo vai indo embora. Eu paro. Tudo para. As paredes não dizem nada. O frio é longo. Escuro. E o corredor vai se dissolvendo. Eu, lá na outra ponta, aceno, me chamando para fugir. “Eu não posso me mover”, tento dizer. Mas aquele eu nada entende e corre. Aos poucos as coisas vão sumindo. “Por que o medo?”, a pergunta ricocheteia por todos os lados. As paredes parecem agonizar. Não posso me mover. “Por que o medo?”. Já não me vejo mais. E nada parece me ver. O escuro é frio. Longo. “Por que o medo?”. No último instante de fim percebo que eu era o espelho sobre o aparador.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Perigo

Ela era uma mulher abnegada e virgem. Fazia suas orações diariamente e sentia-se realizada assim. Vestia-se como quem se cobre, amedrontada. Um dia uma colega do trabalho disse que faria aniversário num “barzinho família” e a convidou. Receosa, ela foi. Chegando lá, logo procurou se sentar de maneira que não olhasse para todo o local. De onde estava via a porta do banheiro. Mas aqui só tem um banheiro? Perguntou para a colega ao seu lado. É unissex, meu bem. Abriu os olhos, assustada, mas fingiu normalidade. Ah... Eu não entro nesse banheiro! Deu-se essa ordem. Observou uma mulher muito grande entrando no banheiro, com um vestido roxo, curtinho, e com nádegas grandes. Teve orgulho de sua roupa discreta e comportada. Pediu uma água à garçonete. As colegas do trabalho conversavam sobre os mais variados absurdos. Falavam de posições eróticas. Achou estar louca ao ouvir a colega aniversariante dizer que gostava de “uma xota peluda”. A moça forte vinha saindo do banheiro. Ela não tinha seios grandes. Observou um volume entre as pernas daquela curiosa mulher. Mas, mas... Abriu os lábios delicadamente e tocou-lhes. Sentiu algo que nunca sentira. Tocou o seio. A garçonete chega com sua água. Ela se levanta e diz que não queria mais nada. Eu vou embora, EMBORA! Sai correndo, sentindo-se violada. Chegou em seu modesto apartamento e se despiu diante do espelho. Olhou-se com pena. Eu estou enlouquecendo. Foi até o criado mudo, pegou seu terço e começou a orar, nua. Pensava no volume da mulher de vestido roxo. Levou o dedo indicador e o médio até o meio de suas pernas. Aquela mulher de ombros largos. Orava com fervor. Aquele rosto que parecia feito à machadada. Gritava suas preces. Aquela, aquela... Virilidade! Ah, ah! AMÉM! Caiu, exausta, ao lado da cama. De alguma forma ela conhecia o paraíso

domingo, 3 de agosto de 2008

Murmúrio

O sol se põe, distante e enferrujado. Uma nuvem negra se posta sobre mim. De longe você ri. Um som grave brota da terra e invade o céu. "Trovões", sua boca articula. Uma chuva rala começa a cair. Estendo os braços. Lentamente vou me molhando. Agora é água, onde você fora fogo. Por alguns segundos seu sorriso ameaça desaparecer. O horizonte se torna lilás. "Purifique-se", alguém diz lá atrás. Percebo que existem outras pessoas a minha volta. Olho para você, interrogativo, que me responde assentindo, misterioso. Todos olham para a nuvem negra. Como quisessem desvendar o segredo daquela chuva. Tantas pessoas à minha volta, fecho os olhos e me ajoelho. "Não há ninguém aqui". Você fica sério. Não existe mais horizonte. Percebo que esfriou. As pessoas começam a ir embora. As gotas vão rareando. Penso em caminhar até você. Minhas roupas pesam. Você percebe minha intenção e me encara assustado. Tenho medo. Medo do seu medo. "Mostra-me o mundo dos confins dos seus segredos", murmuro. Você vira as costas e vai embora. A chuva cessa.