domingo, 17 de agosto de 2008

Medo

O corredor é longo. Frio. Do outro lado há um espelho, onde estou eu. Não é escuro. "Por que o medo?", as paredes perguntam. Eu dou um passo para frente. O espelho recua. Foi uma ilusão, penso. Avanço um, dois, três passos e o corredor fica mais longo. Eu fico mais longe. Começo a correr e o reflexo vai indo embora. Eu paro. Tudo para. As paredes não dizem nada. O frio é longo. Escuro. E o corredor vai se dissolvendo. Eu, lá na outra ponta, aceno, me chamando para fugir. “Eu não posso me mover”, tento dizer. Mas aquele eu nada entende e corre. Aos poucos as coisas vão sumindo. “Por que o medo?”, a pergunta ricocheteia por todos os lados. As paredes parecem agonizar. Não posso me mover. “Por que o medo?”. Já não me vejo mais. E nada parece me ver. O escuro é frio. Longo. “Por que o medo?”. No último instante de fim percebo que eu era o espelho sobre o aparador.

7 comentários:

betucury disse...

Nu em sonho, nem aí me despojo de razão. Sou chato, crédulo demais. Nu sonho eu racinalizo, sou escuro, denso, desço e subo escadas. Eu nu espelho danço

Ricardo Valente disse...

Bem legal. Escreves muito bem. Parabéns!

Barnabé Binoto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Barnabé Binoto disse...

Cara... isso foi muito louco!!! Acabei de chegar no AP da minha mina e no elevador de serviço que tinha um protetor de espelho para o pessoal subir com móveis, um protetor que cobre as paredes do elevador como se fosse uma sala de manicomio, onde estava escrito "espelho atrás".
Qdo entro no seu blog leio isto!

Vru disse...

Amei isso.
O corredor sufoca meu eu que desaparece.

Eduardo Escames disse...

"O frio é longo. Escuro."

Sabe que o texto é inquietante. Eu li procurando a lógica, a resposta, o desfecho.

O final, o espelho, é como se tudo que ocorreu, não ocorrera de fato. OU sim, ocorreu, mas de nada importa, uma vez que você foi o reflexo do que agonizava. Do que sentia medo.

Sarah Germano disse...

por que o medo?