terça-feira, 16 de setembro de 2008

Outro Sujeito

O silêncio é meu ópio. Olho para trás e lá estou eu lhe dizendo milhões de coisas, não lhe dizendo nada, querendo dizer-lhe tudo. Talvez eu não devesse ser dos seus e seja a ferida no orgulho dos meus. Você ameaça se repetir num outro sujeito, numa outra oração, a beleza cristalizada sobre o mesmo solo árido. As páginas brancas do livro que se fecha bruscamente. Que página estaria rabiscado seu nome? Por um breve momento eu deixo a venda costurar minha visão e enrolar-se em meu pescoço. Mas é tarde demais para outra sinfonia de um Orfeu desconhecido. Rasgo o pano, lhe ofereço meu ópio e exalto outros que são nem dos seus, nem dos meus.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Desacerto

Escorro por seu corpo me alimentando de seu suor. Seu gosto amargo me invade a boca e dançamos como estivéssemos diante de um espelho, com a porta trancada no quarto dos fundos. Você pinta lágrimas brancas em meu rosto, tece sua teia e me chama para ti. Beijo-lhe a nuca e digo-lhe um poema. "De tudo, ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento". As palavras lhe penetram a mente e dentro de ti eu procuro me diluir entre tantas coisas que eu teria dito e nunca consegui. Dentro de ti encontro coisas que eu teria ocultado, querendo revelar. Num desacerto seu cheiro se mistura com outro rosto e por um momento cegamos um ao outro, sós. A unha risca a carne e cicio, infecundo, as lágrimas brancas dentro de ti. "Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure". Seu sorriso triste é um adeus prematuro. Permitimo-nos uma última intimidade, uma mão dentro da outra, lentamente, como carregasse um bilhetinho adolescente, mas seu rosto não me é passado nem futuro. Vou embora, como nunca estivesse estado e caminho, pois já é manhã (meio e fim).