segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Desacerto

Escorro por seu corpo me alimentando de seu suor. Seu gosto amargo me invade a boca e dançamos como estivéssemos diante de um espelho, com a porta trancada no quarto dos fundos. Você pinta lágrimas brancas em meu rosto, tece sua teia e me chama para ti. Beijo-lhe a nuca e digo-lhe um poema. "De tudo, ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento". As palavras lhe penetram a mente e dentro de ti eu procuro me diluir entre tantas coisas que eu teria dito e nunca consegui. Dentro de ti encontro coisas que eu teria ocultado, querendo revelar. Num desacerto seu cheiro se mistura com outro rosto e por um momento cegamos um ao outro, sós. A unha risca a carne e cicio, infecundo, as lágrimas brancas dentro de ti. "Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure". Seu sorriso triste é um adeus prematuro. Permitimo-nos uma última intimidade, uma mão dentro da outra, lentamente, como carregasse um bilhetinho adolescente, mas seu rosto não me é passado nem futuro. Vou embora, como nunca estivesse estado e caminho, pois já é manhã (meio e fim).

5 comentários:

Ricardo Valente disse...

Outro rosto, o remorso no esconderijo.
Êta tesão, essa paixão! Abraço.

Sarah Germano disse...

vc esconde coisas que não consegue ocultar;
amo suas palavras(e vc)!
saudades !

Tallulah disse...

Que lindo...
lágrimas brancas...
lindo lindo lindo

Eduardo Escames disse...

...outra coisa é saber fazer escorrer lágrimas e sangue das palavras.

Tudo que passa, passa. Tome o cálice de "Efeméride".

Vâmvú disse...

Putz! Emocionante...
Que jogo...
"...uma última intimidade de uma mão dentro da outra..."
Lindo isso!
Abçs