Um dia eu me cansei de algumas dessas coisas que cansam todo mundo, mas ninguém diz. Aí eu resolvi que sairia nu pela rua. Nu. Me despi diante do espelho, como quem põe uma roupa recém passada, com todo o cuidado. Um vento que não era frio, que não era poesia, tocou meu corpo. Meu corpo denso. Dei um passo e me aproximei de mim mesmo. Encarei o espelho. "Eu sempre me vejo ao contrário do que as pessoas me vêem". uma ruga aqui. Outra ali. Toquei meu pescoço. A barba por fazer, pinicava. Toquei meu pênis. Tímido. Fiquei de lado e me sorri. Caminhei até a porta da sala, com as coisas balançando. Saí. As pessoas olhavam. Algumas riam. Outras, de longe, provocavam maliciosamente. Senhoras viravam os olhos e moviam a cabeça. "Tsc, tsc, tsc". Dei uma volta no quarteirão. Ouvia ofensas. Encorajamentos. Um homem que tinha lá seus 50 anos me parou e disse: "Você não tem vergonha, rapaz?". Disse-lhe que não. Oras, eu não tinha mesmo. "Pouca vergonha", ele disse, achei que fosse me agredir. "O senhor nunca ficou nu", lhe disse. Ele não me respondeu, mas acho que o tocou de alguma maneira. Terminei a minha volta. Entrei em casa e pensei em chorar. Li em algum lugar que homem chorar comove. Mas não consegui. O telefone toca, "Alô?", digo. Uma foz feminina e idosa me diz:
- O senhor é um perfeito cavalheiro.
E desliga.