sábado, 28 de fevereiro de 2009

Nu

Um anjo pousa ao meu lado. Tira sua veste branca de anjo e, nu, ele caminha. Mas não se mostra a ninguém. Ele permite-se tocar de leve as outras pessoas, no entanto é como se elas não sentissem, pois o anjo não olha para elas, não as vê, belas, pois é como que seus passos na terra crua lhe cegassem e o medo lhe faz crer que todos são feios. E a feiúra ele não toca. Na sua ingenuidade de anjo ele se aproxima, mas na aspereza humana (que ele desconhece) ele afasta todos ao seu redor e é como se ele se perdesse numa lágrima perpétua, num choro seco que nunca cessa, pois ele ainda não descobriu as suas asas. O sol vai mergulhando na linha do horizonte e é como se a figura do anjo encolhesse e eu vejo uma flor desprotegida secando lentamente. Uma flor que teme sugar a água que há na terra. E eu viro na próxima esquina, pois para mim seria tarde demais seguir aquele caminho. “Uma garoa fina poderia cair agora”, penso, como se tudo aquilo pudesse ser cena de um filme. E aquela criatura some às minhas costas, temendo nunca postar seus pés no chão em que pisamos e não sabendo que também seria tarde demais para ela aquele caminho, afinal, anjos não existem.

7 comentários:

Eduardo Escames disse...

Que lindo.
Que lindo.

Mesmo.
Divino, se me permite dizer.

Gostei particularmente da "lágrima perpétua" por razões óbvias, mas acho que o final foi genial.

Afinal, anjos não existem.

Corso disse...

muito bom mesmo...
esse ta do cacete.

abrassssssssss

PedroPeter disse...

adorei seu blog e os textos (vou ler os arquivos depois). mas tem coisa muito boa por aí, parabéns. vou add nos meus links.
boa sorte.
=)

Ricardo Valente disse...

Gostei, embora prefira o Dario Nu de antes. Abraço!

Maria Clara Moraes disse...

Lindo

Rubens da Cunha disse...

belo exercício de delicadeza

Vâmvú disse...

Lindo texto... sutil e delicado.
Muito bom!
Abração