sábado, 14 de março de 2009

Amanhã

“Parece incrível...”.
O lençol branco não está sobre a cama. Talvez esteja lá fora, balançando no varal, ainda úmido. Você dorme. É um sono sem roupa que contemplo imóvel, como não quisesse quebrar o encanto. Imagino com o que será que você está sonhando, o que pode ser tão diferente do que eu desenho quando me escapa a realidade. Você se move bruscamente e sorrio ao pensar o quanto isso é seu, no entanto é um sorriso breve pois n’outro instante você vira-se e eu não vejo mais seu rosto.

“Eu não amo ninguém”.
Quase toco sua nuca, porém recuo. (Às vezes penso que eu sempre recuo ou que você sempre foge). Imagino que você está acordado, fitando o nada daquele quarto, em busca de uma forma de me dizer aquilo que você não quer, entretanto que aos poucos vai te levando para longe. Você faz alguns movimentos leves como sentisse meus olhos pelo seu corpo. Deitado ao meu lado você é maior que eu, mas quando estamos frente a frente, sua fragilidade quase me assusta.

“É só amor que eu respiro”.
A manhã vai se arrastando, todo o tempo a minha mente está ao redor da sua e eu percebo que não sei nada a seu respeito além do que você deixou escapar, por caridade, por provocação ou sem perceber. Você se vira, abre os olhos lentamente e encara o teto. Volta-se para mim, sorri, suave, e fecha os olhos de novo, escondendo o rosto e revirando-se na cama, preguiçosamente. Eu rio. Você me penetra os olhos e eu não volto a sorrir. Seu olhar é amanhã.