quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Na Rua

Eu tô ali na rua. Incalto. Perdido. Vadio.
Sei que me observa e que se pergunta de onde vieram os meus passos. Sei que não importa.
Eu tô ali incalto. Anônimo. Paciente. Louco.
Podemos ser um copo de boteco, um disco antigo, uns tantos versos meus, um riso seu, se importa?
Eu tô ali perdido. Manso. Calmo. Breve.
Não sabemos muito. Podemos descobrir. Revelar quase tudo, esconder quase nada. Feche a porta.
Eu tô ali vadio. Puro. Santo. Solto.
Quero te ver onde nós somos iguais. E como nós podemos ser diferentes. E é isso que importa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fumaça

Era um vestido preto desbotado de um tecido grosso e sufocante. O vestiu como se preparasse para o próprio funeral. Penteou o cabelo branco e ralo, apanhou uma vela e foi até a rua. Chegou até a praça, e, em meio a todos, acendeu a vela e colocou fogo em seu vestido. As chamas foram ardendo em sua pele enrugada. Gritava num prazer fétido. Debatia-se. Chocados, os presentes se cutucavam, comentavam, não podiam acreditar! Mas ninguém teve coragem de acudir a senhora. Aturdida, a praça viu a velha virar fumaça.

Retalhos, recortes e cacos.

Menina descalça. Mulher nas formas. Me lembro dela tão jovem. Seu cabelo mal arrumado. Seu sorriso frouxo. Seu olhar que se perdia a procura de outros. Estávamos nos fundos de sua casa, atrás do muro. Minha boca ainda dormente do longo beijo que me dera. Eu poderia entregar-lhe todo meu coração. Desprevenido. E amá-la muito além do que ela permitia. Menina descalça, tira os sapatos dos meus pés!

***

Um dia você me disse de seus caminhos tortos. Das loucuras breves que descobia. Tudo me soou tão distante. Perigoso. Impuro. E lindo. Eu fugia porque tinha medo. De tanto eu fugir, você sumiu. Num dia qualquer, depois de muitos outros dias sem me lembrar, você aparece. E te vejo de perto. Outro. Sua timidez surpreendende é o carinho que suas mãos não fazem. Eis, então, que eu não me esqueço.

***

Nossas mãos não se aproximam. Nossos olhos carregam o mesmo receio. A mesma vontade criança de correr dali. De se esconder. De um dia, talvez, no outono, no escuro, nos abraçármos. Mas seria, então, apenas um desejo meu. Mas como eu me delataria? Como você descobriria? Digo um adeus prematuro, talvez eu te encontre numa curva dessa estrada estranha que percorremos. Vai saber.

***

O carro parou no meio da noite. A porta se abriu bruscamente. Me jogaram no meio fio. Os pneus cantaram com pressa. Não tive tempo de pensar em muita coisa. Senti frio. Pela blusa que eu não tinha. Pelo escuro que fazia. Pelo lugar que eu desconhecia. Me levantei com algumas dores pelo corpo. E corri. Fugi. Decidido a parar só quando eu me cansasse.

***

A tarde era clara. Meiga. Selecionei as palavras mais lindas e as li como quem colhe frutos maduros. Palavras que queria ver em sua boca, mas que eu apenas entregava aos seus ouvidos. Como quem pede um carinho. A tarde era clara. Inteira. E eu lhe vi caminhar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Quente

Sua roupa estava molhada. Passara a tarde toda diante da pia da cozinha. Foi até a varanda, como quem quer ir embora, mas permanece no mesmo lugar. Olhou o campo sem horizonte e se desfez dos pensamentos. Não gostada dessa hora do dia, que precedia a noite. A casa vazia a enchia de angústia. Sentia falta de si, pois se via nos outros. Nessa hora, esgotada de nada, planejava o que faria quando chegassem. Colocaria o filho menor para tomar banho. Desataria as tranças da do meio. Daria um abraço cheio de culpa na mais velha, a quem pensara abortar e colocaria o café na mesa.

Depois chegaria o marido, a quem ouviria atenta e cheia de interesse, enquanto ele lhe contava coisas e sorria com os olhos. Tão vivos. E tão difíceis de interpretar. Teria seu momento de solidão íntima na hora do banho. Quando misturada ao ruído do chuveiro, a casa se preenchia dos passos dos filhos e da televisão do marido. Ali a vida dela era curta. Eram seus minutos de um prazer pequenininho, mas que a engrandecia, como estivesse sob uma cachoeira fina e quente.

No meio da noite, observaria o marido ao seu lado, arfante, após sair de cima dela. Os olhos fechados, numa dor prazerosa recém transbordada. Observaria seus lábios entre-abertos, esculpindo em sua mente o marido que tanto desejava. O amava com os olhos, cheios de palavras que não conseguia dizer. O amava para si. Pela manhã ele sairia para o trabalho, ela não sabia que caminhos cruzaria e mantinha nas mãos um terço velho que fora de sua mãe, enquanto pedia para que ele simplesmente voltasse.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Continho

Numa capela, no alto do morro, meu coração de ouro eu coloquei em suas mãos. Não me lembro as palavras do padre, nem se o que escorria no canto do seu rosto era água benta ou uma lágrima traidora. Me lembro de como deixava escapar olhares para a porta. Rápidos, mas desconcertantes. Saímos sob risos, aplausos e arroz. Eu sabia que eu jamais voltaria para aquele vilarejo. Mas não sabia que de você eu não sabia nada. Lembro de ter apertado a sua mão bem forte antes de entrarmos no carro e ter lhe dito:

- Não deixe isso morrer.

Depois fica tudo turvo. Me lembro de você sorrindo docemente, de longe, mas isso é uma lembrança perdida de um dia que nem nos conhecíamos. Às vezes me pego a imaginar você correndo, com meu coração, no alto do morro, atrás da capela.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Dor Da Viúva Ausente

A foto desbotava no alto da lápide. As letras de bronze cravadas na pedra estavam escurecidas. Nenhuma flor ou vela. Nem silêncio havia ali. O choro mudo da viúva estava sepultado em casa, no escuro do quarto que o marido nunca mais frequentara.

- Eu não sou a única.

Definhava numa compreensão vesga da realidade. Enlouquecia. Sentia-se suja quando madrugada procurava o marido morto em outros homens. Sentia-se santa, quando amanhecia e convalesciam-se de sua dor.

Sentia-se só. Sentia-se inteira.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Silente

No alto da torre um sonho torto lhe desperta. Desses tão tortos, de entortar a realidade. Debruça-se sobre seus papéis. Pois estão ali as coisas boas que sentiu. O que se esconde entre suas doces palavras que sempre vão, nem sempre voltam? Teme o fim da flor que perfuma a poesia. Teme o fim da poesia que o aviva no alto da torre. Teme, pois, o seu próprio fim, que arde um ardor nunca saciado.

Quis adormecer outra vez. Apagar a luz e esquecer o que o fizera despertar. Quis adormecer de vez. Era sempre frio na torre e a direção dos ventos sempre inconstantes. Da janela alta e estreita, via ao longe os vales, as nuvens que se formavam e a chuva que chegava. Encostou-se na parede de pedra. Lembrou dos que disseram seu nome lá em baixo. E de como permaneceu mudo aos seus chamados. Apenas um tinha a chave da torre.

Choraria, se pudesse, com a lenda que lera. Se via tão Eurídice, presa em Hades. Se via tão Orfeu, tão apaixonado, porém sem nenhuma melodia ou acorde. Não se via, pois. Via além da janela. Era sua esperança de pássaro silente. Entre seus papéis e palavras que fugiam, guardava um verso feito com uma letra que não era sua. E ali estava seu coração pequenininho. Palavras soltas de quem voa alto. Um voo longe que o desperta da realidade torta. "Me ensina a voar", ele pede.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Coletivo

Seus pais sabem que está aqui? - perguntou a mulher ao menino. Ele a olhou com olhos profundos e vazios.
Deixa, não precisa responder, não importa, mesmo, né? - Sorriu. A mulher estava inquieta e observada todos os presentes cúmplice e curiosamente.
O ambiente era um pouco escuro. Uma mistura de calma e ansiedade envolvia a expressão de todos ali. A calma era triste. E a ansiedade era medo.
Se eu tivesse lhes conhecido antes, eu poderia ter amado vocês, disse o velho. Ele não queria convencer ninguém do que dizia, era simplesmente uma lamentação em voz alta.
Cara, às vezes isso faria você chegar aqui antes, você não nos conhece. O rapaz tinha frieza na voz, que saia cansada e grave.
Ninguém conhece, falou a mulher, mas sem a inquietude de antes. Tornara-se séria e duramente lânguida.
Aos poucos foram se movimentando pelo pequeno ambiente. Deitaram-se no chão como crianças cheias de esperança. Permitiram-se esse último devaneio.
Disseram-se Boa Noite cordialmente. Fecharam os olhos e esperaram. Os sonhos ficaram sobre a mesa, com as embalagens vazias dos remédios.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mãe

A barriga estava grande. A pele esticada. E toda a calma do mundo entrava pela janela e pairava ao seu redor. A mulher conversava em pensamento com o seu filho que ainda não era nascido. Acariciava a própria barriga, ninando-se a ninar o bebê.

Que rosto teria? Que sorrisos lhe daria? Via pelo quarto vazio o menino correndo. A menina brincando. Via no berço que não estava ali a criança dormindo. Como um anjo que ela roubou do céu e escondeu dentro dela.

O tempo futuro vem lento. O coração que se enche. Em meus braços, em breve, ela pensa. Uma parte dela do lado de fora. Uma parte outra, completamente única. Com a mão no ventre ela beija o filho dela, beija o filho do mundo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Fim de Beatriz

Beatriz despencou do céu.
E não havia ninguém para pedir bis.
Caiu em câmera-lenta.
Estrela cadente de um filme B.
E não havia ninguém para pedir bis.
Ninguém para lamentar por Beatriz.

Chico, quantos desastres tem na minha mão?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Verso

Uma música constante toca sempre a mesma nota. Toca baixinho. É um som que não se alcança. Que não se interrompe. Assim, nesse ruído do silêncio ele arrasta seus pensamentos pela noite. No entanto o silêncio não é de sua boca. É um silêncio imposto aos seus ouvidos, como não houvesse respostas às suas perguntas.

De olhos abertos, a mirar o breu, ele se acalma e se desespera, em pensamentos paradoxos que se aglutinam em sua mente. Ele lembra-se. Ele imagina. Ele deseja. E a noite não passa. Tateia a cama espaçosa. Despreza os fones-de-ouvido, aquelas músicas cheias de notas dóem. Dóem mais que aquele som de uma nota só.

Vira-se. Pega o celular, que não vibra, para ver a conta-gotas o tempo que caminha. Nesse ponto da noite, nesse meio de nada, a impressão que tem é que nunca mais será dia. Revira-se. Poderia gritar. Poderia fazer uma prece, baixinho. Mas sussura um nome, duas vezes, como quem reprova um comportamento. E se vê, então, cheio de amor.

Ele precisaria de uma palavra de quem não estava ali para se encher das suas. Era apenas silêncio na penumbra. No seu quase luto, porém, ele vê que ao seu redor letras se juntam. Sem entender, ele monta alguns versos fracos. "Eu não sou outra coisa", ele diz numa fala emprestada. E suspira.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Música

Andava com dificuldades. Abriu a porta e viu o rosto vivo e curioso da moça. Por alguns segundos ficou sem reação, enquanto contemplava a juventude dela como um desaforo às rugas que cicatrizavam sua pele. Fez sinal para que ela entrasse. Havia um medo típico da idade na jovem junto de uma ansiedade doce. Ele apontou uma cadeira para ela se sentar. Observou seu movimento suave e belo. Como era leve! Sorriu-lhe, nostalgico de sua própria leveza. Foi até o antigo armário enquanto a jovem corria os olhos por toda a sala, impressionada e comovida com os móveis muito velhos e a pouca luz que a cortina permitia entrar.

Ele pegou um disco e o colocou na vitrola empoeirada. Olhou para a moça e apontou para o aparelho que começava a funcionar. Ela assentiu e ficou atenta à música que se iniciava. O velho se sentou diande dela e ficou a observá-la. Acompanhou seus olhos se perderem no ar, encantados e a se fecharem, quentes. O rosto da jovem dançava bem lentamente enquanto a agulha riscava o disco. Cravando seus olhos nas sensações da moça, o coração do homem foi se acelerando, emocionado pela expressão que adquirira a jovem. Quando ela deu um largo sorriso, parou de girar o disco na vitrola. Sorriu o velho, também, não tão largo, não tão doce nem tão puro. No entanto o sorriso dela era o sorriso seu.

Feito quem recebeu o maior presente de todos, ela o abraçou. Não conteve o choro tímido que derrubou sobre ele. Após o abraço, trocaram um último sorriso, como compartilhassem um segredo. No risco que seus lábios faziam em seus rostos, estava oculto o sublime que eles contemplaram, não ao mesmo tempo, porém, talvez, na mesma intensidade. Abriu a porta para a jovem e se despediu num aceno. Aos poucos desfez o sorriso, enquanto lhe pesava o silêncio da casa. No entanto, não era silêncio porque só havia ele ali. Era silêncio porque seus ouvidos já não lhe permitiam ouvir. Não lamentou o fardo do tempo sobre sua audição. E sim chorou. Chorou como criança, pois com a sua visão ele vira tocar no rosto da moça a música de sua juventude.

domingo, 24 de outubro de 2010

O Pintor

Ele abriu a porta de seu ateliê com certa raiva. Apesar de ter aceitado me receber ali, ele parecia descontente. Existiam manchas de tintas por suas roupas e não dava para perceber quando fora a última vez que ele as trocara. Sentei-me num canto e antes que eu lhe fizesse a primeira pergunta anotada em meu papel, ele começou seu monólogo:

Não sei a que possa te interessar minha vida, jornalista. Guarde suas perguntas, elas não são necessárias. Eu não sou nada. Vê? Meu ateliê é escuro. Minhas mãos são fracas. Minhas tintas são mudas. Ei, não tenha pena de mim! Aqui nem sempre é escuro, fraco ou mudo. Não... Quando ela está aqui isso tudo ganha vida, cara! Eu não sou nada! Nada! E ela é tudo. Tudo! Não sei o nome dela, nem como chegou aqui, só sei que desde então minha arte, que é dela através de mim, se tornou possível.

Um dia tímida, com olhos maiores que os meus, eu a pintei nua em minha mente e na tela com todas as cores que eu tinha. E ela ria inocente, como quem sabia de tudo. Ela aparece quando quer e eu estou sempre aqui para ela. Com uma tela em branco pronta para ser preenchida. Cara, não é a mim que você tem que entrevistar. É a ela. Essas telas todas sairam da pele dela. Do sorriso dela. Dos olhares dela. Da tristreza dela. Eu não sou nada aqui. A não ser, também, dela!

Hoje ela ainda não veio. Acho melhor você não demorar, viu? Pode ser que ela não goste que eu receba gente aqui, pode ser por isso que não veio. Pode ser que ela nem venha mais! Vamos logo com isso... Eu já disse, eu não tenho nada para dizer...

Ela sim. Tantas emoções eu vi tremerem por seus lábios... Quando alegre, minha vontade é de me misturar a ela e às tintas. De fazer parte de sua felicidade simples e fácil. Amo e quase invejo seu rir natural. E as cores de minhas tintas não são o suficiente para pintar seus risos nesses dias. Mas quando triste, minhas tintas são todas azuis. Meus olhos baixos, quase não sou artista. Fico a observá-la, tentando ver a alegria de antes num vão de sua pele. Seus olhares são longe. Suas palavras curtas. Ou palavras nenhuma. Nesses dias eu odeio todas as minhas telas, inúteis.

Essa tela eu separei para hoje. Está em branco. Não sei as cores dessas tintas. Vê? Minhas mãos tremem. Preciso dela ali para mim, com sua emoção enigmática, que ela deixa ser minha por alguns instantes. É melhor você ir embora. Antes que ela desista de mim. Então não haveria artista para sua matéria. Perdoe o mau jeito, mas também não quero lhe falar mais nada.

Saí daquele lugar um pouco assustado. Ele me dissera coisas bem mais interessantes que eu poderia ter lhe tirado com minhas perguntas. Aquelas telas bonitas eram retratos daquela mulher ou fruto do coração louco do artista? Fiquei sem a resposta dessa pergunta. Nem fiz matéria alguma sobre o pintor. Decidi guardar segredo sobre sua inspiração louca e apaixonada.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Intocável

Vestiu seu terno puído. Não se lembrava quando fora a última vez que o vestira, mas hoje ele tinha que estar alinhado. Em alguns pontos da roupa o preto se tornara acinzentado, como o céu nessa manhã. Retirou da caixa seus velhos sapatos há muito guardados sob a cômoda. Havia pó acumulado no couro, entretanto sua vista já não o permitia ver. Calçou-os com um cuidado nunca tido, como fosse a última vez que o fizesse.

Diante do espelho, penteou os cabelos que já rareavam. Por alguns minutos se perdeu no seu olhar refletido. Não pensava em nada especificamente, apenas queria ficar um pouco em silêncio enquanto ia redesenhando as rugas de seu rosto. Se fosse alguns anos mais moço, por certo ele choraria por esse não-sei-o-que que ele estava sentindo.

Respirou fundo e foi até a porta. Girou a chave e abriu. Deu uma última olhada pela casa e saiu. Andava com muita pressa na rua. Estava ofegante. Na sua mão esquerda havia um papel dobrado, em branco que, apesar do seu cuidado, ia sendo amassado. Suava. O terno pesava sobre seu corpo e a cada passo rápido que ele dava, tornava-se mais quente. Não importava, ele simplesmente seguia para o seu objetivo.

Chegou na praça movimentada. Parou um instante com a respiração desalinhada. Olhou para aquelas pessoas despreocupadas que passavam de todos os lados para todos os lugares. Suas costas estavam molhadas, seus pés doíam e suas mãos tremiam. Mas ele tinha que estar ali.

Desdobrou o papel branco e abordou uma senhora que passava. Não saiam palavras de sua boca, era como se ele tivesse esquecido todas, era como se ele grunhisse. A pobre mulher desviou assustada. Então ele virou-se para um jovem que lhe deu um empurrão. Assim ele ficou, entre olhares assustados, empurrões e seu pedaço de papel estendido, enquanto as palavras não se formavam em sua boca. Talvez nem em sua cabeça.

Uma sirene aguda tornava mais triste o horror sonoro que o velho fazia com seu papel em branco. Ninguém o entendia e ele desesperava-se mais. Até que uma mão segurou seu braço. E outra mão o outro. Eram enfermeiros que, bruscamente, iam levando o homem para a ambulância. Com toda a movimentação, seu papel caiu, o que fez com que ele desse mais gritos que não podiam ser entendidos. Em vão.

Já dentro da ambulância, um pouco dopado, segurou firme o ombro de um dos enfermeiros e sussurrou:

- Existe uma dor quase intocável.

E apagou. No chão da praça o papel em branco ia sendo pisado, imóvel.

Branco

Era eu chagando lá onde eu sempre quis estar. Mas eu não sabia de nada, nem o que eu temia. Havia uma casa, que eu nunca entrei, onde poderia estar toda a segurança que eu precisava naquele momento. Meu coração não se encontrava na ferrugem das chaves.

Deixado do lado de fora eu caminhei como estivesse sob a chuva. No entanto estava tudo seco à minha volta. Então eu vi um anjo. Frágil, o abracei. E nesse abraço sem reflexo, descobri que o anjo não tinha asas e que não poderia me levar para voar.

Desviado meu caminho, eu subi em um trem. Me vi, um dia, no sorriso de quem chorava como eu. E, achando que meus pés estavam no chão, eu quis levá-lo comigo para um passeio. Porém o trem chegou vazio na última estação.

No avesso dessas histórias, um rosto perdido quis me entregar seu coração. Ainda preso a uma viagem não feita, eu recusei. Fechado de culpa, eu maculei aquele coração com meu silêncio imaculado.

Pois, cansado desse caminhar, me deitei num canto da noite. Ounvindo o barulho do mar, como numa lenda, meu coração pequenininho se apaixonou por uma estrela.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Poeta Que Não Sabia Rimar

Contam que vivia num reino muito distante, um pobre camponês que se apaixonou por uma estrela. Todos os dias, era pelo brilho breve que ele veria à noite que ele aguardava. E sua família não entendia seu coração vazio. Tantas moças olhavam para ele, mas seus olhos já estavam cheios.

Sonhava estar perto dela. Tinha as idéias mais malucas para tornar próxima a estrela que brilhava. Todas as noites, sufocado de palavras, ele lhe contava suas histórias. Era sua forma de fazer parte da vida dela, lá no alto, entre tantas outras estrelas.

E ele ouvia todas as palavras que ela dizia, com atenção. Não queria perder o que a estrela lhe contava, pois, se perdesse, sentia que isso aumentaria a distância que existia entre eles.

A estrela derramava sobre ele palavras, vírgulas e pontos finais. Então o camponês ia construindo uma escada mágica, com seus versos tímidos que não rimavam. Toda a noite ele olhava para ela, esperando palavras que iriam cair para colocar em sua escada.

E tudo isso, o pobre camponês guardava em seu coração. Pequeno. Frágil. Guardava os olhos da estrela de todos os habitantes do reino. E guardava a escada ainda incompleta.

Doíam-lhe os dias que seguiam as noites sem uma palavra sequer para ele colocar em sua escada de versos. Mas ele nunca desistia. E seguia seus dias a esperar a noite, pelas letras que ele misturaria.

O final dessa história é incerto. Dizem que ele conseguiu terminar a sua escada com a poesia que caia da estrela e que a encontrou lá longe, por fim. Certo é que de um dia para o outro nunca mais ouviram falar do camponês que brincou de poeta naquele reino e que, a partir desse fato, toda noite tinha um brilho especial no céu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Spiccatto

Cansado, eu parei de caminhar. Mas o cansaço não estava em minhas pernas, estava nos meus pensamentos recorrentes. E nas histórias que se repetiam, com personagens trocados. Foi assim, de repente eu parei.

Não me pergunte como, no entanto uma música tocou repentina e intensa. Desconhecida, não estava perto, porém marcava cada acorde das músicas que eu tinha em minhas mãos.

Voltei meu olhar para algo que eu não enxergava, como quem olha para o horizonte do mar. O frio das histórias rompidas me cobre o corpo e tento fugir num suspiro indefeso.

Mergulho, breve, na música efervescente. Não sinto mais nenhum cansaço. Apenas um desejo lancinante e incurável de estar dentro dos seus braços.

Um solista na praia, com o olhar além do horizonte, mais belo que o oceano. Me aproximo cheio de carinho e me deito em seu colo, entregue, feito as músicas que tenho nas mãos.

Teço, com um cuidado que nunca tive, uma capa para o herói dos quadrinhos que eu desenho em minha pele. O sorriso sobre essas palavras de agora eu entregaria apenas a você.

Esses segredos invisíveis se propagam. E como é cálido te-los, enquanto as letras se juntam buscando não escancarar seu nome!

Fantasio, tímido, estar além do horizonte que aquele solista da praia observa. Solto as músicas que carregava e ofereço minhas mãos nuas para tocarem uma música para ele.

Encantado, eu olhei para o mar. Mas a palavras não estavam em mim, estavam sobre aquele homem na praia. As palavras que se repetiam, num conto inédito. Foi assim, de repente eu olhei.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Citações

"Escurece, e não me seduz tatear sequer uma lâmpada".
(Drummond)

A loucura em mim é pura. Como estivessem todas as metáforas quebradas, isso que sai de meus olhos agora não se explicam. Mais bonito do que você é ou do que eu me tornaria, "você não sabe", mas são as coisas que eu sinto em segredos escritos, de uma poesia que eu não conhecia, da "palavra que não existe". Pura, é a saudade de um rosto que eu nunca toquei e loucura são todas as coisas que eu faria para tocá-lo. E cada passo louco que eu desse me faria mais puro.

Não se explicam esses olhos de lágrimas suaves. Ou o nome que se repete nas músicas que eu ouço. "Quase triste" se faz esse verso, porém, na minha ânsia impaciente, uma calma repentinha: há de chegar "minha hora, meu momento, minha vez de te encontrar". Não se explica, pois, esse rosto lá de longe, de onde brotam somente palavras "muito mais do que lindas". A pureza em mim é louca.


domingo, 26 de setembro de 2010

Abraço

"...na tua presença palavras são brutas"
(Cecília - Chico Buarque)

Ele juntou todas as palavras que conhecia. As combinou de todas as maneiras possíveis, para dizer da maneira mais nua, em seu silêncio, o nome do seu amor. Eis que um dia, num descuido, palavras erradas mancharam a poesia. E, como quebrassem todas as flores, uma lágrima ele viu cair. Não da Bailarina, ou da Borboleta, nem do Colibri. Era sua. Inocente, na sua meninice desastrada, de quem não sabe do mundo, ele feriu o coração daquele que ele só via amor. Percebeu, logo, o quão brutas eram suas palavras e seus versos brancos. Olhou, em desespero, tudo o que havia escrito. Quis queimar! Que verso abusado esconderia outra flecha que ele jamais desferiria? Percebeu que não existe palavra bonita que descreva o passo da uma bailarina. Ou o acorde de um violino. Quis encarar quem ele ama o mais breve possível e pedir perdão por seu verso sem afinação. Todas as coisas que sentia ele diria, pois, num abraço. Ele guardou todas as palavras que conhecia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Noite Do Meu Bem

- Sinto como se eu tivesse te roubado uma poesia.

Ele saiu pela cidade sem estar certo do que queria encontrar. Havia um beco sujo que ele entrou. Parou diante de uma porta metálica. Pode ouvir uma música abafada e risadas. Aproximou-se, abriu a porta e então se deixou invadir pelo lugar. Um zumbido disforme tomou seu ouvido e a multidão aglomerada naquele ambiente fazia com que vultos coloridos surgissem freneticamente em sua frente.

Entre tantos braços, mãos, rostos e saliva, persistia em sua mente um olhar, como premonição. No entanto, em meio àquela confusão, ele não conseguia pronunciar nenhum nome. Uma moça de simpatia vulgar lhe exibe um sorriso de plástico no balcão. Ele pede um drinque e finge se concentrar no gelo que bóia na bebida. Conforme ia bebendo, a luz e o ruído do local iam penetrando mais e mais a sua mente.

Num determinado momento não sabia se o que via estava ao seu redor ou dentro da sua cabeça. Pensou estar voando. "Você está bem, cara?", pode escutar a moça do balcão perguntando. "Eu estou meio tonto", disse, ou pensou em dizer. "Não sofra mais", disse uma voz masculina. A luz e o ruído, então, deram lugar a um breu agudo e sem fim.

- Ahhh!

Acordou assustado, suando muito. Estendeu os braços e olhou para suas mãos. Estavam vazias. Mãos limpas de um anjo torto. Arrepiou-se. Quis se lembrar do que acontecera na noite passada. Ou no sonho recente. Não tinha certeza de nada. Só que por um momento as luzes frias daquele lugar foram interrompidas por uma voz alegre que brilhava como esmeralda. Entendeu, pois, que anjo não era ele, torto, e sim aquele que conseguia ser mais bonito que qualquer palavra escrita.

No rádio que ele não se lembrava ter no quarto, Dolores Duran cantava:

"Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
quero a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite do meu bem..."

Enquanto a voz daquela cantora ia se desfazendo no sonho que emergia, ainda se lembrando do anjo, cerrou o olhar para preservar toda a pureza que ele queria lhe dar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Jazz

As luzes ainda estão apagadas. Entro sem fazer barulho e caminho entre as mesas e cadeiras vazias. O cheiro inconfundível de eucalipto sobe do chão de taco. Então a vejo, lá no fundo, costurando algo em seu vestido. Paro um instante, mas ela já me notou. Continua sua costura introspectiva e me lembro, então, de como me intimidou sua voz úmida e quente na noite em que nos conhecemos. Quis ter dito isso naquele dia, porém seus olhos não me deixaram. Ela para a costura sem levantar a cabeça. "O que quer aqui", a sinto perguntar. Aproximo-me. Minhas mãos começam a tremer, frias. Esqueço-me do porquê de estar ali e nenhuma palavra vem a minha boca. Observo o vestido vermelho, brilhante, que escorre caudaloso em seu colo. Ela volta a costurar, mas antes me faz um gesto. "Diga logo, ande", a sinto novamente. Olhando para seu cabelo castanho começo a dizer, sem certeza alguma:

- Naquela noite que eu te conheci... Sua voz... Naquela noite... Eu sei que sou um louco por estar aqui... Não me entenda mal, por favor...

Interrompo minha fala, confuso. Frágil. Por um momento ela parece chorar. Ou rir. Revejo em minha mente seu rosto de beleza indecifrável. Olhar para ela era como ler um poema. Tento recomeçar:

- Você é...

Paro. Minha garganta está seca. Então ela me mostra seu rosto. É o mesmo, só que mais frio. Ela deixa o vestido e a agulha de lado. Levanta-se como quem vive nos anos 20 e me encara. Seu olhar é o mesmo, só que mais quente. Hipnotizado, abandono todos os meus sentidos. Suas mãos tocam meu peito e sua boca encosta na minha. Sinto ferver em mim uma coisa lancinante, não sei se é sua língua que dança com a minha ou se é uma lâmina que acaba de perfurar minha barriga.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Metáfora

"(...) nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar"

Existem palavras que não podem ser escritas - pensou. No entanto, como não escritas, não seriam também pronunciadas. Do seu canto sem ruído, viu surgir, remota, uma paixão que carregava a música no ombro e a regia com as sobrancelhas. Logo soube o nome que desejaria, mas não poderia dizer. Se lembrou, imóvel, da mulher que lhe contara estórias de uma paixão anônima. Soltou um sorriso de nervosismo ao relembrar dos olhos dessa mulher que brilhavam ao citar aquele nome. Paixão sinônima, então, ele percebeu.

Todos os versos bonitos que ele conhecia já estavam velhos. Ou não seriam o suficiente para tornarem breve a necessidade que surgia. Sentiu falta do calor daquele outro. Sentiu uma falta abissal de cada parte do corpo que ele não tocara. Seu texto confuso era trêmulo, amedrontado e urgente. Queria dizer o tamanho do seu amor, porém, temendo serem pobres as palavras, o escondeu num gesto que ele descreveu com cuidado. A poesia atropelava a beleza que ele via cair como chuva.

Ele risca o que escreve. Suas palavras não são vermelhas como a música que escuta sem parar, nem seu texto claro como a cortina que filtra a luz lá de fora. Olhou para si, menino, tão cru, se viu incapaz de escrever metáfora maior que a beleza que presenciava. No fundo do seu peito uma coisa doía. Olhou para si, homem, tão nu, quis não sentir culpa ao dizer o nome de quem amava.

Existem palavras que não podem ser escritas. Escreveu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sonho

Ele estava deitado de bruços, coberto até a metade do corpo por um lençol branco. Observava imóvel a silhueta nua deitada ao seu lado. Não sabia se estava dormindo ou se também mergulhava em pensamentos naquele escuro quieto. Ele via muitos significados naquele corpo que se desenhava ao seu lado e para si confessava um sorriso. Ontem não existiam sonhos sobre aquela cama e hoje, como um segredo entre tantos, ele sonhou com o amor pela primeira vez.

De repente, ficou com medo do que sentia. Observando a leveza imóvel daquele que estava deitado ao seu lado e com lágrimas nos olhos, sentiu-se tão pequeno. Sentiu-se nas mãos do outro. Não tocou aqueles ombros com receio de que seus gestos denunciassem o quanto ele estava preso a uma pessoa tão livre. Percebeu, porém, que sua cautela fizera com que ele ficasse em silêncio demais. Ficasse nu demais. Resolveu quebrar a quietude escura:

"Eu tenho medo de lhe falar das flores e me tomares como louco. E de falar da voz e me achares um tolo. Bestificado, em cada pausa ou silêncio seu, é como se eu tivesse errado a rima, desafinado o verso e as palavras fogem de mim como eu acho que você fugiu naquele instante".

Seu sussurro saiu grave e desesperado. Mas estava aliviado. Olhou com admiração aquele que estava deitado ao seu lado. Imaginou os momentos que ele não estaria ali. E imaginou, também, os momentos que estaria sob ele, tendo certeza que nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar. Sorriu outra vez e, na sua confusão, pensou adormecer. Ou acordar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Verde

Sempre existe uma varanda, porque sempre existe um lugar que é um pouco o lado de dentro e um pouco o lado de fora. E enquanto eu estou ali, observo você que corre por todos os lados e sempre vem a mim com as mãos cheias de coisas. Eu sorrio quando você me oferece algo para experimentar.

Vejo, então, seus olhos profundos como os daquela velha atriz, que dizem tanta coisa que eu não entendo. Mas, como naquela atriz, minha atenção se prende em sua boca. Como se no olhar estivesse a alma e nos lábios estivesse a carne.

Não existe verso que seja livre o suficiente para correr por onde vão os seus pés. E com meus olhos de folha, pendo meu corpo para fora da varanda. E lá fora, ainda olhando para o lado de dentro, caminho breve, sabendo que me olha de todos os lugares que estiver.

Então, lhe digo no ouvido:

- Você é o vento que ensinou a flor a voar. Mas não digas a ninguém.

domingo, 4 de julho de 2010

Brisa

Eu caminhava por uma cidade que queria ser grande. Era tudo muito claro, havia muito sol ali. As pessoas me lançavam olhares desconfiados, elas não me conheciam, porém logo se desinteressavam. Eu tinha que encontrá-lo, mas o que me guiava não era nenhum dado, nenhuma coordenada. Eu simplesmente sabia aonde ir, e não sabia mais nada. Parei diante de uma casa um pouco antiga, abri o portão um pouco baixo e subi cinco degraus até a porta um pouco aberta. Tinha uma mulher sentada no sofá marrom, lendo o que pareciam cartas já envelhecidas. Ela me viu. Fiquei um pouco receoso, até que ela sorriu. Eu entrei, passei por ela, que assentiu como soubesse o porquê de eu estar ali e segui até um corredor um pouco escuro. Fui até a penúltima porta e entrei. Ele ergueu os olhos, mas logo os escondeu. Era tímido com sua beleza inexplicável. Deitei-me ao seu lado e comecei a chorar. Ele me abraçou, não para me consolar, mas para dizer que partilhava da minha dor. "Todos eles vão embora", ele me disse. "Por quê?", eu perguntei, ele não respondeu.

Uma vez as palavras foram interrompidas, porém não foram mortas. Dessa vez eu estava sob uma árvore, até que ele chegou e sentou-se comigo. Tímido por não saber das coisas, me estendeu suas mãos e dessa vez não havia futuro para ser lido. Ele me falou das feridas que ali existiam, me falou dos lugares que ele foi e de como se sentia em lugar algum. Eu o abracei e disse que eu estaria em qualquer lugar. Estendi-lhe minhas mãos, sem marcas, sem feridas. "Suas mãos são geladas", ele disse. Sorri, porque não tinha uma explicação e ele foi embora.

Dizem que existe um estado da consciência onde rompemos as barreiras do tempo e do espaço. Numa noite, então, quando marcavam todas as horas, em todos os lugares, eu pude ouvi-la e vê-la do meu canto escuro. E olhar para ela era eu me mostrar mais ainda, querendo saber a temperatura do corpo dela, querendo saber por quem ela sofria em segredo no camarim. Queria dizer que aquilo que doía em seu peito não era o coração, não era o amor. Mas sua música chega como brisa. Uma brisa um pouco quente como a casa um pouco antiga. Uma brisa interrompida, como minhas palavras sob a árvore naquela manhã.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Confissão

Luz apagada. O silêncio vai me cobrindo e no escuro eu vejo uma cena perdida na memória de algo que ainda não existe:

Eu teria suas mãos que imagino frágeis entre as minhas. Procuraria uma linha que eu diria ser a do amor e forjaria uma semelhança entre ela e uma das linhas de minhas mãos. "Cigano fajuto", você diria e então riríamos.

Não sei a textura que tem a sua boca. No entanto você conhece o som da minha voz. Diferente de tudo o que foi falado, palavras não ditas nunca morrem. Me reviro na cama. Há tanto espaço.

E você estaria ali. Eu, velando o seu sono, teria o mundo em minhas mãos e guardaria no bolso, indiferente.

Não pude me afogar no oceano, havia pegadas fortes demais na areia que, nesse escuro de agora, se revelam. Querendo me desvencilhar de um pensamento perigoso, eu o seguro mais forte.

De onde eu estava, eu subiria o rio todo de volta, e beberia a água pura da nascente. Você estaria na sombra ventosa de um vale. E eu te tiraria de lá.

Esse escuro que me tira o sono tem o cheiro na sua nuca. Sobram as cobertas com você lá, do lado de fora. Eu estava atrás de uma porta que nunca foi aberta.

O único segredo que guardo é dito nas perante-linhas, mas eu nunca revelaria. Então você me ensinaria algo que eu não conheço e eu poderia te proteger de tantas dúvidas.

Minha fala não termina, pois há algo que não pode ser dito. Minha fala não termina e nem sossega, pois ponto final.

sábado, 1 de maio de 2010

Um pouco do mar

Areia macia. Eu estava na praia vazia e meus pés tocaram o mar, que extendia-se verde e vivo. Repousei, sob encanto, no raso que as ondas vinham batizar. Aos poucos água foi molhando minhas pernas, pescoço e braço. A tarde caia como eu mergulhasse no verde doce do mar ao meu redor.

Exposto e protegido, algumas pegadas na areia vão sumindo, outras tão profundas silenciam-se com o sol escondido no horizonte verde do oceano. E a praia de repente é minha e eu sou o menino que repousa no peito do mar para me sentir seguro. Uma onda suave é o beijo que vem breve e demorado.

Quando percebo, todo o oceano sou eu, e ele, ele todo, é o anjo que vê em meus cabelos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Canção de Ninar

Bate na praia a onda a assombrar o menino.
Adormece, protegido, e sonha pequenino.

O escuro atormenta o pequeno que não pronuncia.
De olhos abertos, o que teme, silencia.

Quem ele chamaria? Quem?

Baixinho, ele diz:
- Avô, me leve brincar com suas tintas, cá no escuro, sozinho, eu não quero ficar.

Corre, e foge da margem que a lua assombreia.
Ladino, o menino do mar corre na areia.

Um dia ele cresce e não mais medo terá.
Um dia ele cresce e outro menino será.

Quem ele chamaria? Quem?

Baixinho, ele diz:
- Anjo da guarda, anjo da guarda, por favor o escuro me permita suportar.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poema Sem Final

Do livro das madrugadas:

Vejo que vem chuva. Ao longe os cães ladram. Seria o vento a lhes assustar? Ou seria alguém a pular o muro? As roupas balançam no varal. Vultos de fantasmas que não existem.

- E o grito dos cães que não silência?

É a chuva, que chega e vai embora, sem ninguém perceber.

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Seu rosto se forma em pensamento. Talvez eu tenha te tocado num espaço vazio do vento, onde eu não sabia o seu nome. Você surge como o primeiro capítulo, seguindo um prólogo interminável e confuso. Você, então, é outro. Não é o puro, não é o louco, não é o doce e nem aquele que me chamou como se eu fosse um apóstolo de Cristo. Você é todos eles à sua maneira que eu desconheço (e um dia descubro).

Houve, pois, uma casa que não se abriu, uma concha que se fechou e um arcanjo sem asas que não me encontrou. Surge, súbito, uma estrada sem horizonte onde caminhas descalço, mas não lhe vejo. Ouvir os seus passos é o suficiente para eu segui-lo. Breve eu te alcanço e faço o afago perdido no vento, onde, então, você diz meu nome. Meu pensamento se forma de seu rosto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um giro. E o vestido de tecido pesado e verde fez um som grave. Parou o olhar num canto vazio do quarto. Era louca. As frestas da janela que sempre estivera fechada iluminavam o pó que subia do assoalho. Caminhou até o corredor com três passos longos e firmes. Parou. Como estivesse assustada com sua pressa sem sentido. Ergueu os braços diante dos olhos. Suas pulseiras fizeram um som lento e agudo. Olhava suas mãos como se não acreditasse que elas fossem suas. Curiosidade e terror. Riu. Riu porque estava só. E o riso ecoou por todos os cômodos sem mobília daquela casa. Então veio um silêncio repentino. Era como se chorasse, mas nenhum músculo de seu rosto se movia. Seus olhos eram o corredor vazio.

Desceu a escada com o cuidado de uma velha temerosa. Passo por passo. Degrau por degrau. Parou um instante no final, onde antes havia um espelho e abraçou-se, se confortando de um frio imaginário e súbito. Poderia ter cantado baixinho, mas todas as músicas que conhecia eram óbvias. Imaginou a porta da rua sendo aberta, quando a levariam para uma terra sem nome e todos os relógios seriam desligados. Novamente olhou suas mãos. E tocou seu corpo com violência. Depois com suavidade. Queria ter certeza que era real. Então correu seus olhos pela casa, desconfiada, como se em algum lugar daquela casa vazia tivessem escondido algo dela. Algo que só poderia pertencer a ela.

De repente ela era uma criança sem medos e correu até a sala, eufórica. Porém nada havia ali, também. Ela sorriu. Olhou ao redor como somente ela visse uma sala cheia de coisas. Deitou-se sobre o tapete que não existia e gargalhou, de olhos fechados. A sala fora sempre cheia e sempre tivera uma mão de alguém bem maior que ela para ela segurar. Não agora. Não enquanto enchia de pó do assoalho o seu vestido denso e verde. Abriu os olhos. Encarou o teto, lúcida. Como uma loucura dentro da loucura. Levou a mão até o busto e retirou um pedaço de papel. Hesitou. Tinha medo de reler palavras conhecidas. Desdobrou cuidadosamente, com uma espécie de carinho ao contrário. E então ela leu tudo de novo, lamentando cada palavra que sabia de cor:

"Escolhi outro pássaro para voar sobre o meu jardim"

Quis queimar o papel na lareira, mas não tinha fogo, nem lenha. Então o guardou junto ao peito, novamente.

domingo, 28 de março de 2010

O Sorriso Mais Bonito

Eu me lembro quando só você estava lá. E pela primeira vez eu me dei conta que eu estava em suas mãos, num papel pardo retangular. No entanto, talvez pela beleza do momento, eu guardei o papel como se guardasse um sentimento que não deveria se manifestar. E como um vulcão adormecido os dias foram sendo riscados e eu não encontrava o verso certo que ocultasse o que entraria em erupção num descuido anunciado.

Não lembro que música tocava, mas de repente eu pude desenhar todos os contornos do seu rosto na minha mente e, ainda sem entender o que me passava, novamente escondi, eu me via tão frágil. Lembro de falarmos sobre uma noite sem luar, por conta de musas que não estavam lá. Existia, pois, o óbvio que eu não queria ver pelo medo que sempre me despiu em silêncio.

Nos encontramos, então, num espelho transparente e pensei ouvir minha voz em eco enquanto lhe escutava. Como se anseios em comum pudessem saciar-se. Porém as razões que desviam seus olhos e os preenchem de outro nome, são quase tão misteriosas quanto aquelas que deixam os meus sem ressonância. O receio mudo de dizer o que você já sabe é o que mais me assusta.

Eu não te tocaria, por medo de me afastar. Ou eu me afastaria de todos, por desejo de te tocar. Sinto-me um sussurro na boca do mundo, mas já não importa, tudo o que eu disse foi por desejo de ser ouvido da minha maneira covarde e sincera. Eu tenho escrito em minhas mãos vazias uma frase-verso que me escapou na noite finda: "O trem chegou vazio na última estação".

Eu maldigo a poesia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Entre portas e paredes

Vasculhe as gavetas.
Onde está, onde está?
Procure em cima do armário.
Onde está, onde está?
Encontre entre os guardados.
Vá buscar, vá buscar.
Não me tomes como louco.
Há de estar, há de estar.
Mas se surpreenda.
Por cantar, por cantar.