domingo, 28 de março de 2010

O Sorriso Mais Bonito

Eu me lembro quando só você estava lá. E pela primeira vez eu me dei conta que eu estava em suas mãos, num papel pardo retangular. No entanto, talvez pela beleza do momento, eu guardei o papel como se guardasse um sentimento que não deveria se manifestar. E como um vulcão adormecido os dias foram sendo riscados e eu não encontrava o verso certo que ocultasse o que entraria em erupção num descuido anunciado.

Não lembro que música tocava, mas de repente eu pude desenhar todos os contornos do seu rosto na minha mente e, ainda sem entender o que me passava, novamente escondi, eu me via tão frágil. Lembro de falarmos sobre uma noite sem luar, por conta de musas que não estavam lá. Existia, pois, o óbvio que eu não queria ver pelo medo que sempre me despiu em silêncio.

Nos encontramos, então, num espelho transparente e pensei ouvir minha voz em eco enquanto lhe escutava. Como se anseios em comum pudessem saciar-se. Porém as razões que desviam seus olhos e os preenchem de outro nome, são quase tão misteriosas quanto aquelas que deixam os meus sem ressonância. O receio mudo de dizer o que você já sabe é o que mais me assusta.

Eu não te tocaria, por medo de me afastar. Ou eu me afastaria de todos, por desejo de te tocar. Sinto-me um sussurro na boca do mundo, mas já não importa, tudo o que eu disse foi por desejo de ser ouvido da minha maneira covarde e sincera. Eu tenho escrito em minhas mãos vazias uma frase-verso que me escapou na noite finda: "O trem chegou vazio na última estação".

Eu maldigo a poesia.