segunda-feira, 26 de abril de 2010

Canção de Ninar

Bate na praia a onda a assombrar o menino.
Adormece, protegido, e sonha pequenino.

O escuro atormenta o pequeno que não pronuncia.
De olhos abertos, o que teme, silencia.

Quem ele chamaria? Quem?

Baixinho, ele diz:
- Avô, me leve brincar com suas tintas, cá no escuro, sozinho, eu não quero ficar.

Corre, e foge da margem que a lua assombreia.
Ladino, o menino do mar corre na areia.

Um dia ele cresce e não mais medo terá.
Um dia ele cresce e outro menino será.

Quem ele chamaria? Quem?

Baixinho, ele diz:
- Anjo da guarda, anjo da guarda, por favor o escuro me permita suportar.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poema Sem Final

Do livro das madrugadas:

Vejo que vem chuva. Ao longe os cães ladram. Seria o vento a lhes assustar? Ou seria alguém a pular o muro? As roupas balançam no varal. Vultos de fantasmas que não existem.

- E o grito dos cães que não silência?

É a chuva, que chega e vai embora, sem ninguém perceber.

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Seu rosto se forma em pensamento. Talvez eu tenha te tocado num espaço vazio do vento, onde eu não sabia o seu nome. Você surge como o primeiro capítulo, seguindo um prólogo interminável e confuso. Você, então, é outro. Não é o puro, não é o louco, não é o doce e nem aquele que me chamou como se eu fosse um apóstolo de Cristo. Você é todos eles à sua maneira que eu desconheço (e um dia descubro).

Houve, pois, uma casa que não se abriu, uma concha que se fechou e um arcanjo sem asas que não me encontrou. Surge, súbito, uma estrada sem horizonte onde caminhas descalço, mas não lhe vejo. Ouvir os seus passos é o suficiente para eu segui-lo. Breve eu te alcanço e faço o afago perdido no vento, onde, então, você diz meu nome. Meu pensamento se forma de seu rosto.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um giro. E o vestido de tecido pesado e verde fez um som grave. Parou o olhar num canto vazio do quarto. Era louca. As frestas da janela que sempre estivera fechada iluminavam o pó que subia do assoalho. Caminhou até o corredor com três passos longos e firmes. Parou. Como estivesse assustada com sua pressa sem sentido. Ergueu os braços diante dos olhos. Suas pulseiras fizeram um som lento e agudo. Olhava suas mãos como se não acreditasse que elas fossem suas. Curiosidade e terror. Riu. Riu porque estava só. E o riso ecoou por todos os cômodos sem mobília daquela casa. Então veio um silêncio repentino. Era como se chorasse, mas nenhum músculo de seu rosto se movia. Seus olhos eram o corredor vazio.

Desceu a escada com o cuidado de uma velha temerosa. Passo por passo. Degrau por degrau. Parou um instante no final, onde antes havia um espelho e abraçou-se, se confortando de um frio imaginário e súbito. Poderia ter cantado baixinho, mas todas as músicas que conhecia eram óbvias. Imaginou a porta da rua sendo aberta, quando a levariam para uma terra sem nome e todos os relógios seriam desligados. Novamente olhou suas mãos. E tocou seu corpo com violência. Depois com suavidade. Queria ter certeza que era real. Então correu seus olhos pela casa, desconfiada, como se em algum lugar daquela casa vazia tivessem escondido algo dela. Algo que só poderia pertencer a ela.

De repente ela era uma criança sem medos e correu até a sala, eufórica. Porém nada havia ali, também. Ela sorriu. Olhou ao redor como somente ela visse uma sala cheia de coisas. Deitou-se sobre o tapete que não existia e gargalhou, de olhos fechados. A sala fora sempre cheia e sempre tivera uma mão de alguém bem maior que ela para ela segurar. Não agora. Não enquanto enchia de pó do assoalho o seu vestido denso e verde. Abriu os olhos. Encarou o teto, lúcida. Como uma loucura dentro da loucura. Levou a mão até o busto e retirou um pedaço de papel. Hesitou. Tinha medo de reler palavras conhecidas. Desdobrou cuidadosamente, com uma espécie de carinho ao contrário. E então ela leu tudo de novo, lamentando cada palavra que sabia de cor:

"Escolhi outro pássaro para voar sobre o meu jardim"

Quis queimar o papel na lareira, mas não tinha fogo, nem lenha. Então o guardou junto ao peito, novamente.