segunda-feira, 14 de junho de 2010

Confissão

Luz apagada. O silêncio vai me cobrindo e no escuro eu vejo uma cena perdida na memória de algo que ainda não existe:

Eu teria suas mãos que imagino frágeis entre as minhas. Procuraria uma linha que eu diria ser a do amor e forjaria uma semelhança entre ela e uma das linhas de minhas mãos. "Cigano fajuto", você diria e então riríamos.

Não sei a textura que tem a sua boca. No entanto você conhece o som da minha voz. Diferente de tudo o que foi falado, palavras não ditas nunca morrem. Me reviro na cama. Há tanto espaço.

E você estaria ali. Eu, velando o seu sono, teria o mundo em minhas mãos e guardaria no bolso, indiferente.

Não pude me afogar no oceano, havia pegadas fortes demais na areia que, nesse escuro de agora, se revelam. Querendo me desvencilhar de um pensamento perigoso, eu o seguro mais forte.

De onde eu estava, eu subiria o rio todo de volta, e beberia a água pura da nascente. Você estaria na sombra ventosa de um vale. E eu te tiraria de lá.

Esse escuro que me tira o sono tem o cheiro na sua nuca. Sobram as cobertas com você lá, do lado de fora. Eu estava atrás de uma porta que nunca foi aberta.

O único segredo que guardo é dito nas perante-linhas, mas eu nunca revelaria. Então você me ensinaria algo que eu não conheço e eu poderia te proteger de tantas dúvidas.

Minha fala não termina, pois há algo que não pode ser dito. Minha fala não termina e nem sossega, pois ponto final.