domingo, 4 de julho de 2010

Brisa

Eu caminhava por uma cidade que queria ser grande. Era tudo muito claro, havia muito sol ali. As pessoas me lançavam olhares desconfiados, elas não me conheciam, porém logo se desinteressavam. Eu tinha que encontrá-lo, mas o que me guiava não era nenhum dado, nenhuma coordenada. Eu simplesmente sabia aonde ir, e não sabia mais nada. Parei diante de uma casa um pouco antiga, abri o portão um pouco baixo e subi cinco degraus até a porta um pouco aberta. Tinha uma mulher sentada no sofá marrom, lendo o que pareciam cartas já envelhecidas. Ela me viu. Fiquei um pouco receoso, até que ela sorriu. Eu entrei, passei por ela, que assentiu como soubesse o porquê de eu estar ali e segui até um corredor um pouco escuro. Fui até a penúltima porta e entrei. Ele ergueu os olhos, mas logo os escondeu. Era tímido com sua beleza inexplicável. Deitei-me ao seu lado e comecei a chorar. Ele me abraçou, não para me consolar, mas para dizer que partilhava da minha dor. "Todos eles vão embora", ele me disse. "Por quê?", eu perguntei, ele não respondeu.

Uma vez as palavras foram interrompidas, porém não foram mortas. Dessa vez eu estava sob uma árvore, até que ele chegou e sentou-se comigo. Tímido por não saber das coisas, me estendeu suas mãos e dessa vez não havia futuro para ser lido. Ele me falou das feridas que ali existiam, me falou dos lugares que ele foi e de como se sentia em lugar algum. Eu o abracei e disse que eu estaria em qualquer lugar. Estendi-lhe minhas mãos, sem marcas, sem feridas. "Suas mãos são geladas", ele disse. Sorri, porque não tinha uma explicação e ele foi embora.

Dizem que existe um estado da consciência onde rompemos as barreiras do tempo e do espaço. Numa noite, então, quando marcavam todas as horas, em todos os lugares, eu pude ouvi-la e vê-la do meu canto escuro. E olhar para ela era eu me mostrar mais ainda, querendo saber a temperatura do corpo dela, querendo saber por quem ela sofria em segredo no camarim. Queria dizer que aquilo que doía em seu peito não era o coração, não era o amor. Mas sua música chega como brisa. Uma brisa um pouco quente como a casa um pouco antiga. Uma brisa interrompida, como minhas palavras sob a árvore naquela manhã.