segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Metáfora

"(...) nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar"

Existem palavras que não podem ser escritas - pensou. No entanto, como não escritas, não seriam também pronunciadas. Do seu canto sem ruído, viu surgir, remota, uma paixão que carregava a música no ombro e a regia com as sobrancelhas. Logo soube o nome que desejaria, mas não poderia dizer. Se lembrou, imóvel, da mulher que lhe contara estórias de uma paixão anônima. Soltou um sorriso de nervosismo ao relembrar dos olhos dessa mulher que brilhavam ao citar aquele nome. Paixão sinônima, então, ele percebeu.

Todos os versos bonitos que ele conhecia já estavam velhos. Ou não seriam o suficiente para tornarem breve a necessidade que surgia. Sentiu falta do calor daquele outro. Sentiu uma falta abissal de cada parte do corpo que ele não tocara. Seu texto confuso era trêmulo, amedrontado e urgente. Queria dizer o tamanho do seu amor, porém, temendo serem pobres as palavras, o escondeu num gesto que ele descreveu com cuidado. A poesia atropelava a beleza que ele via cair como chuva.

Ele risca o que escreve. Suas palavras não são vermelhas como a música que escuta sem parar, nem seu texto claro como a cortina que filtra a luz lá de fora. Olhou para si, menino, tão cru, se viu incapaz de escrever metáfora maior que a beleza que presenciava. No fundo do seu peito uma coisa doía. Olhou para si, homem, tão nu, quis não sentir culpa ao dizer o nome de quem amava.

Existem palavras que não podem ser escritas. Escreveu.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sonho

Ele estava deitado de bruços, coberto até a metade do corpo por um lençol branco. Observava imóvel a silhueta nua deitada ao seu lado. Não sabia se estava dormindo ou se também mergulhava em pensamentos naquele escuro quieto. Ele via muitos significados naquele corpo que se desenhava ao seu lado e para si confessava um sorriso. Ontem não existiam sonhos sobre aquela cama e hoje, como um segredo entre tantos, ele sonhou com o amor pela primeira vez.

De repente, ficou com medo do que sentia. Observando a leveza imóvel daquele que estava deitado ao seu lado e com lágrimas nos olhos, sentiu-se tão pequeno. Sentiu-se nas mãos do outro. Não tocou aqueles ombros com receio de que seus gestos denunciassem o quanto ele estava preso a uma pessoa tão livre. Percebeu, porém, que sua cautela fizera com que ele ficasse em silêncio demais. Ficasse nu demais. Resolveu quebrar a quietude escura:

"Eu tenho medo de lhe falar das flores e me tomares como louco. E de falar da voz e me achares um tolo. Bestificado, em cada pausa ou silêncio seu, é como se eu tivesse errado a rima, desafinado o verso e as palavras fogem de mim como eu acho que você fugiu naquele instante".

Seu sussurro saiu grave e desesperado. Mas estava aliviado. Olhou com admiração aquele que estava deitado ao seu lado. Imaginou os momentos que ele não estaria ali. E imaginou, também, os momentos que estaria sob ele, tendo certeza que nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar. Sorriu outra vez e, na sua confusão, pensou adormecer. Ou acordar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Verde

Sempre existe uma varanda, porque sempre existe um lugar que é um pouco o lado de dentro e um pouco o lado de fora. E enquanto eu estou ali, observo você que corre por todos os lados e sempre vem a mim com as mãos cheias de coisas. Eu sorrio quando você me oferece algo para experimentar.

Vejo, então, seus olhos profundos como os daquela velha atriz, que dizem tanta coisa que eu não entendo. Mas, como naquela atriz, minha atenção se prende em sua boca. Como se no olhar estivesse a alma e nos lábios estivesse a carne.

Não existe verso que seja livre o suficiente para correr por onde vão os seus pés. E com meus olhos de folha, pendo meu corpo para fora da varanda. E lá fora, ainda olhando para o lado de dentro, caminho breve, sabendo que me olha de todos os lugares que estiver.

Então, lhe digo no ouvido:

- Você é o vento que ensinou a flor a voar. Mas não digas a ninguém.