segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Metáfora

"(...) nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar"

Existem palavras que não podem ser escritas - pensou. No entanto, como não escritas, não seriam também pronunciadas. Do seu canto sem ruído, viu surgir, remota, uma paixão que carregava a música no ombro e a regia com as sobrancelhas. Logo soube o nome que desejaria, mas não poderia dizer. Se lembrou, imóvel, da mulher que lhe contara estórias de uma paixão anônima. Soltou um sorriso de nervosismo ao relembrar dos olhos dessa mulher que brilhavam ao citar aquele nome. Paixão sinônima, então, ele percebeu.

Todos os versos bonitos que ele conhecia já estavam velhos. Ou não seriam o suficiente para tornarem breve a necessidade que surgia. Sentiu falta do calor daquele outro. Sentiu uma falta abissal de cada parte do corpo que ele não tocara. Seu texto confuso era trêmulo, amedrontado e urgente. Queria dizer o tamanho do seu amor, porém, temendo serem pobres as palavras, o escondeu num gesto que ele descreveu com cuidado. A poesia atropelava a beleza que ele via cair como chuva.

Ele risca o que escreve. Suas palavras não são vermelhas como a música que escuta sem parar, nem seu texto claro como a cortina que filtra a luz lá de fora. Olhou para si, menino, tão cru, se viu incapaz de escrever metáfora maior que a beleza que presenciava. No fundo do seu peito uma coisa doía. Olhou para si, homem, tão nu, quis não sentir culpa ao dizer o nome de quem amava.

Existem palavras que não podem ser escritas. Escreveu.

2 comentários:

B disse...

As vezes me dá uma vontade louca de imprimri seus textos e distribuir por ai. Muito mais gente deveria ter ler. Muito mais.

É maravilhoso. Paixões sinônimas. meu deus, que talento.

Bruno Portella disse...

Demais esse texto.

Você é muito bom Dario. Sério!