terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sonho

Ele estava deitado de bruços, coberto até a metade do corpo por um lençol branco. Observava imóvel a silhueta nua deitada ao seu lado. Não sabia se estava dormindo ou se também mergulhava em pensamentos naquele escuro quieto. Ele via muitos significados naquele corpo que se desenhava ao seu lado e para si confessava um sorriso. Ontem não existiam sonhos sobre aquela cama e hoje, como um segredo entre tantos, ele sonhou com o amor pela primeira vez.

De repente, ficou com medo do que sentia. Observando a leveza imóvel daquele que estava deitado ao seu lado e com lágrimas nos olhos, sentiu-se tão pequeno. Sentiu-se nas mãos do outro. Não tocou aqueles ombros com receio de que seus gestos denunciassem o quanto ele estava preso a uma pessoa tão livre. Percebeu, porém, que sua cautela fizera com que ele ficasse em silêncio demais. Ficasse nu demais. Resolveu quebrar a quietude escura:

"Eu tenho medo de lhe falar das flores e me tomares como louco. E de falar da voz e me achares um tolo. Bestificado, em cada pausa ou silêncio seu, é como se eu tivesse errado a rima, desafinado o verso e as palavras fogem de mim como eu acho que você fugiu naquele instante".

Seu sussurro saiu grave e desesperado. Mas estava aliviado. Olhou com admiração aquele que estava deitado ao seu lado. Imaginou os momentos que ele não estaria ali. E imaginou, também, os momentos que estaria sob ele, tendo certeza que nunca haveria escuro o suficiente para sobrepor aquele olhar. Sorriu outra vez e, na sua confusão, pensou adormecer. Ou acordar.

4 comentários:

Fábio disse...

Lindo! OMG

Márcio disse...

Você dignifica uma classe que é ridicularizada. Escreve com uma intimidade com o íntimo do ser humano, que lembra Clarice Lispector, só que adota a simplicidade do Drummond.


Sou um revisor dos mais chatos, e também fico muito feliz por seu texto ser limpo. E lindo.

Iza disse...

Eu senti paz quando li, ventos sopraram! Que lindo, muito!

Cristiane disse...

Às vezes eu acho que sei do que vc fala. E me faz sorrir achar que eu sei. Se eu não souber, acho que me faz feliz mesmo assim.