quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Citações

"Escurece, e não me seduz tatear sequer uma lâmpada".
(Drummond)

A loucura em mim é pura. Como estivessem todas as metáforas quebradas, isso que sai de meus olhos agora não se explicam. Mais bonito do que você é ou do que eu me tornaria, "você não sabe", mas são as coisas que eu sinto em segredos escritos, de uma poesia que eu não conhecia, da "palavra que não existe". Pura, é a saudade de um rosto que eu nunca toquei e loucura são todas as coisas que eu faria para tocá-lo. E cada passo louco que eu desse me faria mais puro.

Não se explicam esses olhos de lágrimas suaves. Ou o nome que se repete nas músicas que eu ouço. "Quase triste" se faz esse verso, porém, na minha ânsia impaciente, uma calma repentinha: há de chegar "minha hora, meu momento, minha vez de te encontrar". Não se explica, pois, esse rosto lá de longe, de onde brotam somente palavras "muito mais do que lindas". A pureza em mim é louca.


domingo, 26 de setembro de 2010

Abraço

"...na tua presença palavras são brutas"
(Cecília - Chico Buarque)

Ele juntou todas as palavras que conhecia. As combinou de todas as maneiras possíveis, para dizer da maneira mais nua, em seu silêncio, o nome do seu amor. Eis que um dia, num descuido, palavras erradas mancharam a poesia. E, como quebrassem todas as flores, uma lágrima ele viu cair. Não da Bailarina, ou da Borboleta, nem do Colibri. Era sua. Inocente, na sua meninice desastrada, de quem não sabe do mundo, ele feriu o coração daquele que ele só via amor. Percebeu, logo, o quão brutas eram suas palavras e seus versos brancos. Olhou, em desespero, tudo o que havia escrito. Quis queimar! Que verso abusado esconderia outra flecha que ele jamais desferiria? Percebeu que não existe palavra bonita que descreva o passo da uma bailarina. Ou o acorde de um violino. Quis encarar quem ele ama o mais breve possível e pedir perdão por seu verso sem afinação. Todas as coisas que sentia ele diria, pois, num abraço. Ele guardou todas as palavras que conhecia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A Noite Do Meu Bem

- Sinto como se eu tivesse te roubado uma poesia.

Ele saiu pela cidade sem estar certo do que queria encontrar. Havia um beco sujo que ele entrou. Parou diante de uma porta metálica. Pode ouvir uma música abafada e risadas. Aproximou-se, abriu a porta e então se deixou invadir pelo lugar. Um zumbido disforme tomou seu ouvido e a multidão aglomerada naquele ambiente fazia com que vultos coloridos surgissem freneticamente em sua frente.

Entre tantos braços, mãos, rostos e saliva, persistia em sua mente um olhar, como premonição. No entanto, em meio àquela confusão, ele não conseguia pronunciar nenhum nome. Uma moça de simpatia vulgar lhe exibe um sorriso de plástico no balcão. Ele pede um drinque e finge se concentrar no gelo que bóia na bebida. Conforme ia bebendo, a luz e o ruído do local iam penetrando mais e mais a sua mente.

Num determinado momento não sabia se o que via estava ao seu redor ou dentro da sua cabeça. Pensou estar voando. "Você está bem, cara?", pode escutar a moça do balcão perguntando. "Eu estou meio tonto", disse, ou pensou em dizer. "Não sofra mais", disse uma voz masculina. A luz e o ruído, então, deram lugar a um breu agudo e sem fim.

- Ahhh!

Acordou assustado, suando muito. Estendeu os braços e olhou para suas mãos. Estavam vazias. Mãos limpas de um anjo torto. Arrepiou-se. Quis se lembrar do que acontecera na noite passada. Ou no sonho recente. Não tinha certeza de nada. Só que por um momento as luzes frias daquele lugar foram interrompidas por uma voz alegre que brilhava como esmeralda. Entendeu, pois, que anjo não era ele, torto, e sim aquele que conseguia ser mais bonito que qualquer palavra escrita.

No rádio que ele não se lembrava ter no quarto, Dolores Duran cantava:

"Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
quero a primeira estrela que vier
para enfeitar a noite do meu bem..."

Enquanto a voz daquela cantora ia se desfazendo no sonho que emergia, ainda se lembrando do anjo, cerrou o olhar para preservar toda a pureza que ele queria lhe dar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Jazz

As luzes ainda estão apagadas. Entro sem fazer barulho e caminho entre as mesas e cadeiras vazias. O cheiro inconfundível de eucalipto sobe do chão de taco. Então a vejo, lá no fundo, costurando algo em seu vestido. Paro um instante, mas ela já me notou. Continua sua costura introspectiva e me lembro, então, de como me intimidou sua voz úmida e quente na noite em que nos conhecemos. Quis ter dito isso naquele dia, porém seus olhos não me deixaram. Ela para a costura sem levantar a cabeça. "O que quer aqui", a sinto perguntar. Aproximo-me. Minhas mãos começam a tremer, frias. Esqueço-me do porquê de estar ali e nenhuma palavra vem a minha boca. Observo o vestido vermelho, brilhante, que escorre caudaloso em seu colo. Ela volta a costurar, mas antes me faz um gesto. "Diga logo, ande", a sinto novamente. Olhando para seu cabelo castanho começo a dizer, sem certeza alguma:

- Naquela noite que eu te conheci... Sua voz... Naquela noite... Eu sei que sou um louco por estar aqui... Não me entenda mal, por favor...

Interrompo minha fala, confuso. Frágil. Por um momento ela parece chorar. Ou rir. Revejo em minha mente seu rosto de beleza indecifrável. Olhar para ela era como ler um poema. Tento recomeçar:

- Você é...

Paro. Minha garganta está seca. Então ela me mostra seu rosto. É o mesmo, só que mais frio. Ela deixa o vestido e a agulha de lado. Levanta-se como quem vive nos anos 20 e me encara. Seu olhar é o mesmo, só que mais quente. Hipnotizado, abandono todos os meus sentidos. Suas mãos tocam meu peito e sua boca encosta na minha. Sinto ferver em mim uma coisa lancinante, não sei se é sua língua que dança com a minha ou se é uma lâmina que acaba de perfurar minha barriga.