quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Jazz

As luzes ainda estão apagadas. Entro sem fazer barulho e caminho entre as mesas e cadeiras vazias. O cheiro inconfundível de eucalipto sobe do chão de taco. Então a vejo, lá no fundo, costurando algo em seu vestido. Paro um instante, mas ela já me notou. Continua sua costura introspectiva e me lembro, então, de como me intimidou sua voz úmida e quente na noite em que nos conhecemos. Quis ter dito isso naquele dia, porém seus olhos não me deixaram. Ela para a costura sem levantar a cabeça. "O que quer aqui", a sinto perguntar. Aproximo-me. Minhas mãos começam a tremer, frias. Esqueço-me do porquê de estar ali e nenhuma palavra vem a minha boca. Observo o vestido vermelho, brilhante, que escorre caudaloso em seu colo. Ela volta a costurar, mas antes me faz um gesto. "Diga logo, ande", a sinto novamente. Olhando para seu cabelo castanho começo a dizer, sem certeza alguma:

- Naquela noite que eu te conheci... Sua voz... Naquela noite... Eu sei que sou um louco por estar aqui... Não me entenda mal, por favor...

Interrompo minha fala, confuso. Frágil. Por um momento ela parece chorar. Ou rir. Revejo em minha mente seu rosto de beleza indecifrável. Olhar para ela era como ler um poema. Tento recomeçar:

- Você é...

Paro. Minha garganta está seca. Então ela me mostra seu rosto. É o mesmo, só que mais frio. Ela deixa o vestido e a agulha de lado. Levanta-se como quem vive nos anos 20 e me encara. Seu olhar é o mesmo, só que mais quente. Hipnotizado, abandono todos os meus sentidos. Suas mãos tocam meu peito e sua boca encosta na minha. Sinto ferver em mim uma coisa lancinante, não sei se é sua língua que dança com a minha ou se é uma lâmina que acaba de perfurar minha barriga.

2 comentários:

Bruno Portella disse...

Fantástico Dario. Fan-tástico!

Algumas brincadeiras que faz com as frases como 'Seu olhar é o mesmo, só que mais quente', sendo que já havia feito essa brincadeira logo antes. Muito bom.

E o final é realmente belo.

B disse...

É, lindissimo.Lindissimo...
eu sempre me impressiono com seus textos, sempre. É impossível ser indiferente.