quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Música

Andava com dificuldades. Abriu a porta e viu o rosto vivo e curioso da moça. Por alguns segundos ficou sem reação, enquanto contemplava a juventude dela como um desaforo às rugas que cicatrizavam sua pele. Fez sinal para que ela entrasse. Havia um medo típico da idade na jovem junto de uma ansiedade doce. Ele apontou uma cadeira para ela se sentar. Observou seu movimento suave e belo. Como era leve! Sorriu-lhe, nostalgico de sua própria leveza. Foi até o antigo armário enquanto a jovem corria os olhos por toda a sala, impressionada e comovida com os móveis muito velhos e a pouca luz que a cortina permitia entrar.

Ele pegou um disco e o colocou na vitrola empoeirada. Olhou para a moça e apontou para o aparelho que começava a funcionar. Ela assentiu e ficou atenta à música que se iniciava. O velho se sentou diande dela e ficou a observá-la. Acompanhou seus olhos se perderem no ar, encantados e a se fecharem, quentes. O rosto da jovem dançava bem lentamente enquanto a agulha riscava o disco. Cravando seus olhos nas sensações da moça, o coração do homem foi se acelerando, emocionado pela expressão que adquirira a jovem. Quando ela deu um largo sorriso, parou de girar o disco na vitrola. Sorriu o velho, também, não tão largo, não tão doce nem tão puro. No entanto o sorriso dela era o sorriso seu.

Feito quem recebeu o maior presente de todos, ela o abraçou. Não conteve o choro tímido que derrubou sobre ele. Após o abraço, trocaram um último sorriso, como compartilhassem um segredo. No risco que seus lábios faziam em seus rostos, estava oculto o sublime que eles contemplaram, não ao mesmo tempo, porém, talvez, na mesma intensidade. Abriu a porta para a jovem e se despediu num aceno. Aos poucos desfez o sorriso, enquanto lhe pesava o silêncio da casa. No entanto, não era silêncio porque só havia ele ali. Era silêncio porque seus ouvidos já não lhe permitiam ouvir. Não lamentou o fardo do tempo sobre sua audição. E sim chorou. Chorou como criança, pois com a sua visão ele vira tocar no rosto da moça a música de sua juventude.

domingo, 24 de outubro de 2010

O Pintor

Ele abriu a porta de seu ateliê com certa raiva. Apesar de ter aceitado me receber ali, ele parecia descontente. Existiam manchas de tintas por suas roupas e não dava para perceber quando fora a última vez que ele as trocara. Sentei-me num canto e antes que eu lhe fizesse a primeira pergunta anotada em meu papel, ele começou seu monólogo:

Não sei a que possa te interessar minha vida, jornalista. Guarde suas perguntas, elas não são necessárias. Eu não sou nada. Vê? Meu ateliê é escuro. Minhas mãos são fracas. Minhas tintas são mudas. Ei, não tenha pena de mim! Aqui nem sempre é escuro, fraco ou mudo. Não... Quando ela está aqui isso tudo ganha vida, cara! Eu não sou nada! Nada! E ela é tudo. Tudo! Não sei o nome dela, nem como chegou aqui, só sei que desde então minha arte, que é dela através de mim, se tornou possível.

Um dia tímida, com olhos maiores que os meus, eu a pintei nua em minha mente e na tela com todas as cores que eu tinha. E ela ria inocente, como quem sabia de tudo. Ela aparece quando quer e eu estou sempre aqui para ela. Com uma tela em branco pronta para ser preenchida. Cara, não é a mim que você tem que entrevistar. É a ela. Essas telas todas sairam da pele dela. Do sorriso dela. Dos olhares dela. Da tristreza dela. Eu não sou nada aqui. A não ser, também, dela!

Hoje ela ainda não veio. Acho melhor você não demorar, viu? Pode ser que ela não goste que eu receba gente aqui, pode ser por isso que não veio. Pode ser que ela nem venha mais! Vamos logo com isso... Eu já disse, eu não tenho nada para dizer...

Ela sim. Tantas emoções eu vi tremerem por seus lábios... Quando alegre, minha vontade é de me misturar a ela e às tintas. De fazer parte de sua felicidade simples e fácil. Amo e quase invejo seu rir natural. E as cores de minhas tintas não são o suficiente para pintar seus risos nesses dias. Mas quando triste, minhas tintas são todas azuis. Meus olhos baixos, quase não sou artista. Fico a observá-la, tentando ver a alegria de antes num vão de sua pele. Seus olhares são longe. Suas palavras curtas. Ou palavras nenhuma. Nesses dias eu odeio todas as minhas telas, inúteis.

Essa tela eu separei para hoje. Está em branco. Não sei as cores dessas tintas. Vê? Minhas mãos tremem. Preciso dela ali para mim, com sua emoção enigmática, que ela deixa ser minha por alguns instantes. É melhor você ir embora. Antes que ela desista de mim. Então não haveria artista para sua matéria. Perdoe o mau jeito, mas também não quero lhe falar mais nada.

Saí daquele lugar um pouco assustado. Ele me dissera coisas bem mais interessantes que eu poderia ter lhe tirado com minhas perguntas. Aquelas telas bonitas eram retratos daquela mulher ou fruto do coração louco do artista? Fiquei sem a resposta dessa pergunta. Nem fiz matéria alguma sobre o pintor. Decidi guardar segredo sobre sua inspiração louca e apaixonada.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Intocável

Vestiu seu terno puído. Não se lembrava quando fora a última vez que o vestira, mas hoje ele tinha que estar alinhado. Em alguns pontos da roupa o preto se tornara acinzentado, como o céu nessa manhã. Retirou da caixa seus velhos sapatos há muito guardados sob a cômoda. Havia pó acumulado no couro, entretanto sua vista já não o permitia ver. Calçou-os com um cuidado nunca tido, como fosse a última vez que o fizesse.

Diante do espelho, penteou os cabelos que já rareavam. Por alguns minutos se perdeu no seu olhar refletido. Não pensava em nada especificamente, apenas queria ficar um pouco em silêncio enquanto ia redesenhando as rugas de seu rosto. Se fosse alguns anos mais moço, por certo ele choraria por esse não-sei-o-que que ele estava sentindo.

Respirou fundo e foi até a porta. Girou a chave e abriu. Deu uma última olhada pela casa e saiu. Andava com muita pressa na rua. Estava ofegante. Na sua mão esquerda havia um papel dobrado, em branco que, apesar do seu cuidado, ia sendo amassado. Suava. O terno pesava sobre seu corpo e a cada passo rápido que ele dava, tornava-se mais quente. Não importava, ele simplesmente seguia para o seu objetivo.

Chegou na praça movimentada. Parou um instante com a respiração desalinhada. Olhou para aquelas pessoas despreocupadas que passavam de todos os lados para todos os lugares. Suas costas estavam molhadas, seus pés doíam e suas mãos tremiam. Mas ele tinha que estar ali.

Desdobrou o papel branco e abordou uma senhora que passava. Não saiam palavras de sua boca, era como se ele tivesse esquecido todas, era como se ele grunhisse. A pobre mulher desviou assustada. Então ele virou-se para um jovem que lhe deu um empurrão. Assim ele ficou, entre olhares assustados, empurrões e seu pedaço de papel estendido, enquanto as palavras não se formavam em sua boca. Talvez nem em sua cabeça.

Uma sirene aguda tornava mais triste o horror sonoro que o velho fazia com seu papel em branco. Ninguém o entendia e ele desesperava-se mais. Até que uma mão segurou seu braço. E outra mão o outro. Eram enfermeiros que, bruscamente, iam levando o homem para a ambulância. Com toda a movimentação, seu papel caiu, o que fez com que ele desse mais gritos que não podiam ser entendidos. Em vão.

Já dentro da ambulância, um pouco dopado, segurou firme o ombro de um dos enfermeiros e sussurrou:

- Existe uma dor quase intocável.

E apagou. No chão da praça o papel em branco ia sendo pisado, imóvel.

Branco

Era eu chagando lá onde eu sempre quis estar. Mas eu não sabia de nada, nem o que eu temia. Havia uma casa, que eu nunca entrei, onde poderia estar toda a segurança que eu precisava naquele momento. Meu coração não se encontrava na ferrugem das chaves.

Deixado do lado de fora eu caminhei como estivesse sob a chuva. No entanto estava tudo seco à minha volta. Então eu vi um anjo. Frágil, o abracei. E nesse abraço sem reflexo, descobri que o anjo não tinha asas e que não poderia me levar para voar.

Desviado meu caminho, eu subi em um trem. Me vi, um dia, no sorriso de quem chorava como eu. E, achando que meus pés estavam no chão, eu quis levá-lo comigo para um passeio. Porém o trem chegou vazio na última estação.

No avesso dessas histórias, um rosto perdido quis me entregar seu coração. Ainda preso a uma viagem não feita, eu recusei. Fechado de culpa, eu maculei aquele coração com meu silêncio imaculado.

Pois, cansado desse caminhar, me deitei num canto da noite. Ounvindo o barulho do mar, como numa lenda, meu coração pequenininho se apaixonou por uma estrela.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Poeta Que Não Sabia Rimar

Contam que vivia num reino muito distante, um pobre camponês que se apaixonou por uma estrela. Todos os dias, era pelo brilho breve que ele veria à noite que ele aguardava. E sua família não entendia seu coração vazio. Tantas moças olhavam para ele, mas seus olhos já estavam cheios.

Sonhava estar perto dela. Tinha as idéias mais malucas para tornar próxima a estrela que brilhava. Todas as noites, sufocado de palavras, ele lhe contava suas histórias. Era sua forma de fazer parte da vida dela, lá no alto, entre tantas outras estrelas.

E ele ouvia todas as palavras que ela dizia, com atenção. Não queria perder o que a estrela lhe contava, pois, se perdesse, sentia que isso aumentaria a distância que existia entre eles.

A estrela derramava sobre ele palavras, vírgulas e pontos finais. Então o camponês ia construindo uma escada mágica, com seus versos tímidos que não rimavam. Toda a noite ele olhava para ela, esperando palavras que iriam cair para colocar em sua escada.

E tudo isso, o pobre camponês guardava em seu coração. Pequeno. Frágil. Guardava os olhos da estrela de todos os habitantes do reino. E guardava a escada ainda incompleta.

Doíam-lhe os dias que seguiam as noites sem uma palavra sequer para ele colocar em sua escada de versos. Mas ele nunca desistia. E seguia seus dias a esperar a noite, pelas letras que ele misturaria.

O final dessa história é incerto. Dizem que ele conseguiu terminar a sua escada com a poesia que caia da estrela e que a encontrou lá longe, por fim. Certo é que de um dia para o outro nunca mais ouviram falar do camponês que brincou de poeta naquele reino e que, a partir desse fato, toda noite tinha um brilho especial no céu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Spiccatto

Cansado, eu parei de caminhar. Mas o cansaço não estava em minhas pernas, estava nos meus pensamentos recorrentes. E nas histórias que se repetiam, com personagens trocados. Foi assim, de repente eu parei.

Não me pergunte como, no entanto uma música tocou repentina e intensa. Desconhecida, não estava perto, porém marcava cada acorde das músicas que eu tinha em minhas mãos.

Voltei meu olhar para algo que eu não enxergava, como quem olha para o horizonte do mar. O frio das histórias rompidas me cobre o corpo e tento fugir num suspiro indefeso.

Mergulho, breve, na música efervescente. Não sinto mais nenhum cansaço. Apenas um desejo lancinante e incurável de estar dentro dos seus braços.

Um solista na praia, com o olhar além do horizonte, mais belo que o oceano. Me aproximo cheio de carinho e me deito em seu colo, entregue, feito as músicas que tenho nas mãos.

Teço, com um cuidado que nunca tive, uma capa para o herói dos quadrinhos que eu desenho em minha pele. O sorriso sobre essas palavras de agora eu entregaria apenas a você.

Esses segredos invisíveis se propagam. E como é cálido te-los, enquanto as letras se juntam buscando não escancarar seu nome!

Fantasio, tímido, estar além do horizonte que aquele solista da praia observa. Solto as músicas que carregava e ofereço minhas mãos nuas para tocarem uma música para ele.

Encantado, eu olhei para o mar. Mas a palavras não estavam em mim, estavam sobre aquele homem na praia. As palavras que se repetiam, num conto inédito. Foi assim, de repente eu olhei.