terça-feira, 12 de outubro de 2010

Intocável

Vestiu seu terno puído. Não se lembrava quando fora a última vez que o vestira, mas hoje ele tinha que estar alinhado. Em alguns pontos da roupa o preto se tornara acinzentado, como o céu nessa manhã. Retirou da caixa seus velhos sapatos há muito guardados sob a cômoda. Havia pó acumulado no couro, entretanto sua vista já não o permitia ver. Calçou-os com um cuidado nunca tido, como fosse a última vez que o fizesse.

Diante do espelho, penteou os cabelos que já rareavam. Por alguns minutos se perdeu no seu olhar refletido. Não pensava em nada especificamente, apenas queria ficar um pouco em silêncio enquanto ia redesenhando as rugas de seu rosto. Se fosse alguns anos mais moço, por certo ele choraria por esse não-sei-o-que que ele estava sentindo.

Respirou fundo e foi até a porta. Girou a chave e abriu. Deu uma última olhada pela casa e saiu. Andava com muita pressa na rua. Estava ofegante. Na sua mão esquerda havia um papel dobrado, em branco que, apesar do seu cuidado, ia sendo amassado. Suava. O terno pesava sobre seu corpo e a cada passo rápido que ele dava, tornava-se mais quente. Não importava, ele simplesmente seguia para o seu objetivo.

Chegou na praça movimentada. Parou um instante com a respiração desalinhada. Olhou para aquelas pessoas despreocupadas que passavam de todos os lados para todos os lugares. Suas costas estavam molhadas, seus pés doíam e suas mãos tremiam. Mas ele tinha que estar ali.

Desdobrou o papel branco e abordou uma senhora que passava. Não saiam palavras de sua boca, era como se ele tivesse esquecido todas, era como se ele grunhisse. A pobre mulher desviou assustada. Então ele virou-se para um jovem que lhe deu um empurrão. Assim ele ficou, entre olhares assustados, empurrões e seu pedaço de papel estendido, enquanto as palavras não se formavam em sua boca. Talvez nem em sua cabeça.

Uma sirene aguda tornava mais triste o horror sonoro que o velho fazia com seu papel em branco. Ninguém o entendia e ele desesperava-se mais. Até que uma mão segurou seu braço. E outra mão o outro. Eram enfermeiros que, bruscamente, iam levando o homem para a ambulância. Com toda a movimentação, seu papel caiu, o que fez com que ele desse mais gritos que não podiam ser entendidos. Em vão.

Já dentro da ambulância, um pouco dopado, segurou firme o ombro de um dos enfermeiros e sussurrou:

- Existe uma dor quase intocável.

E apagou. No chão da praça o papel em branco ia sendo pisado, imóvel.

3 comentários:

Livia Tose disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Livia Tose disse...

Não sei ao certo como vim parar aqui... Mas ja que estou, resolvi por me perder nos teus textos. ;)

Que são muito bons, por sinal.

Bruno Portella disse...

Já posso dizer em 'sua literatura', sua arte é como o universo Dario. Vai se expandindo a cada texto que eu leio. Cada vez mais você parece deixar o interior que eu costumava ver em textos anteriores pra começar a pinicar um imaginário impossível, o novo, a irrequietação com elementos estranhos, tortos. E belos.

Ou pode ser pura impressão minha.