domingo, 24 de outubro de 2010

O Pintor

Ele abriu a porta de seu ateliê com certa raiva. Apesar de ter aceitado me receber ali, ele parecia descontente. Existiam manchas de tintas por suas roupas e não dava para perceber quando fora a última vez que ele as trocara. Sentei-me num canto e antes que eu lhe fizesse a primeira pergunta anotada em meu papel, ele começou seu monólogo:

Não sei a que possa te interessar minha vida, jornalista. Guarde suas perguntas, elas não são necessárias. Eu não sou nada. Vê? Meu ateliê é escuro. Minhas mãos são fracas. Minhas tintas são mudas. Ei, não tenha pena de mim! Aqui nem sempre é escuro, fraco ou mudo. Não... Quando ela está aqui isso tudo ganha vida, cara! Eu não sou nada! Nada! E ela é tudo. Tudo! Não sei o nome dela, nem como chegou aqui, só sei que desde então minha arte, que é dela através de mim, se tornou possível.

Um dia tímida, com olhos maiores que os meus, eu a pintei nua em minha mente e na tela com todas as cores que eu tinha. E ela ria inocente, como quem sabia de tudo. Ela aparece quando quer e eu estou sempre aqui para ela. Com uma tela em branco pronta para ser preenchida. Cara, não é a mim que você tem que entrevistar. É a ela. Essas telas todas sairam da pele dela. Do sorriso dela. Dos olhares dela. Da tristreza dela. Eu não sou nada aqui. A não ser, também, dela!

Hoje ela ainda não veio. Acho melhor você não demorar, viu? Pode ser que ela não goste que eu receba gente aqui, pode ser por isso que não veio. Pode ser que ela nem venha mais! Vamos logo com isso... Eu já disse, eu não tenho nada para dizer...

Ela sim. Tantas emoções eu vi tremerem por seus lábios... Quando alegre, minha vontade é de me misturar a ela e às tintas. De fazer parte de sua felicidade simples e fácil. Amo e quase invejo seu rir natural. E as cores de minhas tintas não são o suficiente para pintar seus risos nesses dias. Mas quando triste, minhas tintas são todas azuis. Meus olhos baixos, quase não sou artista. Fico a observá-la, tentando ver a alegria de antes num vão de sua pele. Seus olhares são longe. Suas palavras curtas. Ou palavras nenhuma. Nesses dias eu odeio todas as minhas telas, inúteis.

Essa tela eu separei para hoje. Está em branco. Não sei as cores dessas tintas. Vê? Minhas mãos tremem. Preciso dela ali para mim, com sua emoção enigmática, que ela deixa ser minha por alguns instantes. É melhor você ir embora. Antes que ela desista de mim. Então não haveria artista para sua matéria. Perdoe o mau jeito, mas também não quero lhe falar mais nada.

Saí daquele lugar um pouco assustado. Ele me dissera coisas bem mais interessantes que eu poderia ter lhe tirado com minhas perguntas. Aquelas telas bonitas eram retratos daquela mulher ou fruto do coração louco do artista? Fiquei sem a resposta dessa pergunta. Nem fiz matéria alguma sobre o pintor. Decidi guardar segredo sobre sua inspiração louca e apaixonada.

2 comentários:

mah disse...

Honestamente ?
um dos melhores posts que vc já fez.

Bru disse...

Esse texto... eu tenho que concordar com mah, ali do lado que é um dos seus melhores textos.
credo Dario, como vc me surpreende. Como eu gosto de ler você e como você escreve bem. Esse pintor, esse pintor é tão seu, quanto o jornalista e todas as telas do mundo que ele poderia ter pintado.

Por favor, não pare nunca de escrever. Eu te amo e amo te ler.