terça-feira, 30 de novembro de 2010

Continho

Numa capela, no alto do morro, meu coração de ouro eu coloquei em suas mãos. Não me lembro as palavras do padre, nem se o que escorria no canto do seu rosto era água benta ou uma lágrima traidora. Me lembro de como deixava escapar olhares para a porta. Rápidos, mas desconcertantes. Saímos sob risos, aplausos e arroz. Eu sabia que eu jamais voltaria para aquele vilarejo. Mas não sabia que de você eu não sabia nada. Lembro de ter apertado a sua mão bem forte antes de entrarmos no carro e ter lhe dito:

- Não deixe isso morrer.

Depois fica tudo turvo. Me lembro de você sorrindo docemente, de longe, mas isso é uma lembrança perdida de um dia que nem nos conhecíamos. Às vezes me pego a imaginar você correndo, com meu coração, no alto do morro, atrás da capela.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Dor Da Viúva Ausente

A foto desbotava no alto da lápide. As letras de bronze cravadas na pedra estavam escurecidas. Nenhuma flor ou vela. Nem silêncio havia ali. O choro mudo da viúva estava sepultado em casa, no escuro do quarto que o marido nunca mais frequentara.

- Eu não sou a única.

Definhava numa compreensão vesga da realidade. Enlouquecia. Sentia-se suja quando madrugada procurava o marido morto em outros homens. Sentia-se santa, quando amanhecia e convalesciam-se de sua dor.

Sentia-se só. Sentia-se inteira.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Silente

No alto da torre um sonho torto lhe desperta. Desses tão tortos, de entortar a realidade. Debruça-se sobre seus papéis. Pois estão ali as coisas boas que sentiu. O que se esconde entre suas doces palavras que sempre vão, nem sempre voltam? Teme o fim da flor que perfuma a poesia. Teme o fim da poesia que o aviva no alto da torre. Teme, pois, o seu próprio fim, que arde um ardor nunca saciado.

Quis adormecer outra vez. Apagar a luz e esquecer o que o fizera despertar. Quis adormecer de vez. Era sempre frio na torre e a direção dos ventos sempre inconstantes. Da janela alta e estreita, via ao longe os vales, as nuvens que se formavam e a chuva que chegava. Encostou-se na parede de pedra. Lembrou dos que disseram seu nome lá em baixo. E de como permaneceu mudo aos seus chamados. Apenas um tinha a chave da torre.

Choraria, se pudesse, com a lenda que lera. Se via tão Eurídice, presa em Hades. Se via tão Orfeu, tão apaixonado, porém sem nenhuma melodia ou acorde. Não se via, pois. Via além da janela. Era sua esperança de pássaro silente. Entre seus papéis e palavras que fugiam, guardava um verso feito com uma letra que não era sua. E ali estava seu coração pequenininho. Palavras soltas de quem voa alto. Um voo longe que o desperta da realidade torta. "Me ensina a voar", ele pede.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Coletivo

Seus pais sabem que está aqui? - perguntou a mulher ao menino. Ele a olhou com olhos profundos e vazios.
Deixa, não precisa responder, não importa, mesmo, né? - Sorriu. A mulher estava inquieta e observada todos os presentes cúmplice e curiosamente.
O ambiente era um pouco escuro. Uma mistura de calma e ansiedade envolvia a expressão de todos ali. A calma era triste. E a ansiedade era medo.
Se eu tivesse lhes conhecido antes, eu poderia ter amado vocês, disse o velho. Ele não queria convencer ninguém do que dizia, era simplesmente uma lamentação em voz alta.
Cara, às vezes isso faria você chegar aqui antes, você não nos conhece. O rapaz tinha frieza na voz, que saia cansada e grave.
Ninguém conhece, falou a mulher, mas sem a inquietude de antes. Tornara-se séria e duramente lânguida.
Aos poucos foram se movimentando pelo pequeno ambiente. Deitaram-se no chão como crianças cheias de esperança. Permitiram-se esse último devaneio.
Disseram-se Boa Noite cordialmente. Fecharam os olhos e esperaram. Os sonhos ficaram sobre a mesa, com as embalagens vazias dos remédios.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mãe

A barriga estava grande. A pele esticada. E toda a calma do mundo entrava pela janela e pairava ao seu redor. A mulher conversava em pensamento com o seu filho que ainda não era nascido. Acariciava a própria barriga, ninando-se a ninar o bebê.

Que rosto teria? Que sorrisos lhe daria? Via pelo quarto vazio o menino correndo. A menina brincando. Via no berço que não estava ali a criança dormindo. Como um anjo que ela roubou do céu e escondeu dentro dela.

O tempo futuro vem lento. O coração que se enche. Em meus braços, em breve, ela pensa. Uma parte dela do lado de fora. Uma parte outra, completamente única. Com a mão no ventre ela beija o filho dela, beija o filho do mundo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Fim de Beatriz

Beatriz despencou do céu.
E não havia ninguém para pedir bis.
Caiu em câmera-lenta.
Estrela cadente de um filme B.
E não havia ninguém para pedir bis.
Ninguém para lamentar por Beatriz.

Chico, quantos desastres tem na minha mão?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Verso

Uma música constante toca sempre a mesma nota. Toca baixinho. É um som que não se alcança. Que não se interrompe. Assim, nesse ruído do silêncio ele arrasta seus pensamentos pela noite. No entanto o silêncio não é de sua boca. É um silêncio imposto aos seus ouvidos, como não houvesse respostas às suas perguntas.

De olhos abertos, a mirar o breu, ele se acalma e se desespera, em pensamentos paradoxos que se aglutinam em sua mente. Ele lembra-se. Ele imagina. Ele deseja. E a noite não passa. Tateia a cama espaçosa. Despreza os fones-de-ouvido, aquelas músicas cheias de notas dóem. Dóem mais que aquele som de uma nota só.

Vira-se. Pega o celular, que não vibra, para ver a conta-gotas o tempo que caminha. Nesse ponto da noite, nesse meio de nada, a impressão que tem é que nunca mais será dia. Revira-se. Poderia gritar. Poderia fazer uma prece, baixinho. Mas sussura um nome, duas vezes, como quem reprova um comportamento. E se vê, então, cheio de amor.

Ele precisaria de uma palavra de quem não estava ali para se encher das suas. Era apenas silêncio na penumbra. No seu quase luto, porém, ele vê que ao seu redor letras se juntam. Sem entender, ele monta alguns versos fracos. "Eu não sou outra coisa", ele diz numa fala emprestada. E suspira.