segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Silente

No alto da torre um sonho torto lhe desperta. Desses tão tortos, de entortar a realidade. Debruça-se sobre seus papéis. Pois estão ali as coisas boas que sentiu. O que se esconde entre suas doces palavras que sempre vão, nem sempre voltam? Teme o fim da flor que perfuma a poesia. Teme o fim da poesia que o aviva no alto da torre. Teme, pois, o seu próprio fim, que arde um ardor nunca saciado.

Quis adormecer outra vez. Apagar a luz e esquecer o que o fizera despertar. Quis adormecer de vez. Era sempre frio na torre e a direção dos ventos sempre inconstantes. Da janela alta e estreita, via ao longe os vales, as nuvens que se formavam e a chuva que chegava. Encostou-se na parede de pedra. Lembrou dos que disseram seu nome lá em baixo. E de como permaneceu mudo aos seus chamados. Apenas um tinha a chave da torre.

Choraria, se pudesse, com a lenda que lera. Se via tão Eurídice, presa em Hades. Se via tão Orfeu, tão apaixonado, porém sem nenhuma melodia ou acorde. Não se via, pois. Via além da janela. Era sua esperança de pássaro silente. Entre seus papéis e palavras que fugiam, guardava um verso feito com uma letra que não era sua. E ali estava seu coração pequenininho. Palavras soltas de quem voa alto. Um voo longe que o desperta da realidade torta. "Me ensina a voar", ele pede.

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