quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Verso

Uma música constante toca sempre a mesma nota. Toca baixinho. É um som que não se alcança. Que não se interrompe. Assim, nesse ruído do silêncio ele arrasta seus pensamentos pela noite. No entanto o silêncio não é de sua boca. É um silêncio imposto aos seus ouvidos, como não houvesse respostas às suas perguntas.

De olhos abertos, a mirar o breu, ele se acalma e se desespera, em pensamentos paradoxos que se aglutinam em sua mente. Ele lembra-se. Ele imagina. Ele deseja. E a noite não passa. Tateia a cama espaçosa. Despreza os fones-de-ouvido, aquelas músicas cheias de notas dóem. Dóem mais que aquele som de uma nota só.

Vira-se. Pega o celular, que não vibra, para ver a conta-gotas o tempo que caminha. Nesse ponto da noite, nesse meio de nada, a impressão que tem é que nunca mais será dia. Revira-se. Poderia gritar. Poderia fazer uma prece, baixinho. Mas sussura um nome, duas vezes, como quem reprova um comportamento. E se vê, então, cheio de amor.

Ele precisaria de uma palavra de quem não estava ali para se encher das suas. Era apenas silêncio na penumbra. No seu quase luto, porém, ele vê que ao seu redor letras se juntam. Sem entender, ele monta alguns versos fracos. "Eu não sou outra coisa", ele diz numa fala emprestada. E suspira.

Nenhum comentário: