quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Na Rua

Eu tô ali na rua. Incalto. Perdido. Vadio.
Sei que me observa e que se pergunta de onde vieram os meus passos. Sei que não importa.
Eu tô ali incalto. Anônimo. Paciente. Louco.
Podemos ser um copo de boteco, um disco antigo, uns tantos versos meus, um riso seu, se importa?
Eu tô ali perdido. Manso. Calmo. Breve.
Não sabemos muito. Podemos descobrir. Revelar quase tudo, esconder quase nada. Feche a porta.
Eu tô ali vadio. Puro. Santo. Solto.
Quero te ver onde nós somos iguais. E como nós podemos ser diferentes. E é isso que importa.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Fumaça

Era um vestido preto desbotado de um tecido grosso e sufocante. O vestiu como se preparasse para o próprio funeral. Penteou o cabelo branco e ralo, apanhou uma vela e foi até a rua. Chegou até a praça, e, em meio a todos, acendeu a vela e colocou fogo em seu vestido. As chamas foram ardendo em sua pele enrugada. Gritava num prazer fétido. Debatia-se. Chocados, os presentes se cutucavam, comentavam, não podiam acreditar! Mas ninguém teve coragem de acudir a senhora. Aturdida, a praça viu a velha virar fumaça.

Retalhos, recortes e cacos.

Menina descalça. Mulher nas formas. Me lembro dela tão jovem. Seu cabelo mal arrumado. Seu sorriso frouxo. Seu olhar que se perdia a procura de outros. Estávamos nos fundos de sua casa, atrás do muro. Minha boca ainda dormente do longo beijo que me dera. Eu poderia entregar-lhe todo meu coração. Desprevenido. E amá-la muito além do que ela permitia. Menina descalça, tira os sapatos dos meus pés!

***

Um dia você me disse de seus caminhos tortos. Das loucuras breves que descobia. Tudo me soou tão distante. Perigoso. Impuro. E lindo. Eu fugia porque tinha medo. De tanto eu fugir, você sumiu. Num dia qualquer, depois de muitos outros dias sem me lembrar, você aparece. E te vejo de perto. Outro. Sua timidez surpreendende é o carinho que suas mãos não fazem. Eis, então, que eu não me esqueço.

***

Nossas mãos não se aproximam. Nossos olhos carregam o mesmo receio. A mesma vontade criança de correr dali. De se esconder. De um dia, talvez, no outono, no escuro, nos abraçármos. Mas seria, então, apenas um desejo meu. Mas como eu me delataria? Como você descobriria? Digo um adeus prematuro, talvez eu te encontre numa curva dessa estrada estranha que percorremos. Vai saber.

***

O carro parou no meio da noite. A porta se abriu bruscamente. Me jogaram no meio fio. Os pneus cantaram com pressa. Não tive tempo de pensar em muita coisa. Senti frio. Pela blusa que eu não tinha. Pelo escuro que fazia. Pelo lugar que eu desconhecia. Me levantei com algumas dores pelo corpo. E corri. Fugi. Decidido a parar só quando eu me cansasse.

***

A tarde era clara. Meiga. Selecionei as palavras mais lindas e as li como quem colhe frutos maduros. Palavras que queria ver em sua boca, mas que eu apenas entregava aos seus ouvidos. Como quem pede um carinho. A tarde era clara. Inteira. E eu lhe vi caminhar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Quente

Sua roupa estava molhada. Passara a tarde toda diante da pia da cozinha. Foi até a varanda, como quem quer ir embora, mas permanece no mesmo lugar. Olhou o campo sem horizonte e se desfez dos pensamentos. Não gostada dessa hora do dia, que precedia a noite. A casa vazia a enchia de angústia. Sentia falta de si, pois se via nos outros. Nessa hora, esgotada de nada, planejava o que faria quando chegassem. Colocaria o filho menor para tomar banho. Desataria as tranças da do meio. Daria um abraço cheio de culpa na mais velha, a quem pensara abortar e colocaria o café na mesa.

Depois chegaria o marido, a quem ouviria atenta e cheia de interesse, enquanto ele lhe contava coisas e sorria com os olhos. Tão vivos. E tão difíceis de interpretar. Teria seu momento de solidão íntima na hora do banho. Quando misturada ao ruído do chuveiro, a casa se preenchia dos passos dos filhos e da televisão do marido. Ali a vida dela era curta. Eram seus minutos de um prazer pequenininho, mas que a engrandecia, como estivesse sob uma cachoeira fina e quente.

No meio da noite, observaria o marido ao seu lado, arfante, após sair de cima dela. Os olhos fechados, numa dor prazerosa recém transbordada. Observaria seus lábios entre-abertos, esculpindo em sua mente o marido que tanto desejava. O amava com os olhos, cheios de palavras que não conseguia dizer. O amava para si. Pela manhã ele sairia para o trabalho, ela não sabia que caminhos cruzaria e mantinha nas mãos um terço velho que fora de sua mãe, enquanto pedia para que ele simplesmente voltasse.