sábado, 18 de dezembro de 2010

Quente

Sua roupa estava molhada. Passara a tarde toda diante da pia da cozinha. Foi até a varanda, como quem quer ir embora, mas permanece no mesmo lugar. Olhou o campo sem horizonte e se desfez dos pensamentos. Não gostada dessa hora do dia, que precedia a noite. A casa vazia a enchia de angústia. Sentia falta de si, pois se via nos outros. Nessa hora, esgotada de nada, planejava o que faria quando chegassem. Colocaria o filho menor para tomar banho. Desataria as tranças da do meio. Daria um abraço cheio de culpa na mais velha, a quem pensara abortar e colocaria o café na mesa.

Depois chegaria o marido, a quem ouviria atenta e cheia de interesse, enquanto ele lhe contava coisas e sorria com os olhos. Tão vivos. E tão difíceis de interpretar. Teria seu momento de solidão íntima na hora do banho. Quando misturada ao ruído do chuveiro, a casa se preenchia dos passos dos filhos e da televisão do marido. Ali a vida dela era curta. Eram seus minutos de um prazer pequenininho, mas que a engrandecia, como estivesse sob uma cachoeira fina e quente.

No meio da noite, observaria o marido ao seu lado, arfante, após sair de cima dela. Os olhos fechados, numa dor prazerosa recém transbordada. Observaria seus lábios entre-abertos, esculpindo em sua mente o marido que tanto desejava. O amava com os olhos, cheios de palavras que não conseguia dizer. O amava para si. Pela manhã ele sairia para o trabalho, ela não sabia que caminhos cruzaria e mantinha nas mãos um terço velho que fora de sua mãe, enquanto pedia para que ele simplesmente voltasse.

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