segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Retalhos, recortes e cacos.

Menina descalça. Mulher nas formas. Me lembro dela tão jovem. Seu cabelo mal arrumado. Seu sorriso frouxo. Seu olhar que se perdia a procura de outros. Estávamos nos fundos de sua casa, atrás do muro. Minha boca ainda dormente do longo beijo que me dera. Eu poderia entregar-lhe todo meu coração. Desprevenido. E amá-la muito além do que ela permitia. Menina descalça, tira os sapatos dos meus pés!

***

Um dia você me disse de seus caminhos tortos. Das loucuras breves que descobia. Tudo me soou tão distante. Perigoso. Impuro. E lindo. Eu fugia porque tinha medo. De tanto eu fugir, você sumiu. Num dia qualquer, depois de muitos outros dias sem me lembrar, você aparece. E te vejo de perto. Outro. Sua timidez surpreendende é o carinho que suas mãos não fazem. Eis, então, que eu não me esqueço.

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Nossas mãos não se aproximam. Nossos olhos carregam o mesmo receio. A mesma vontade criança de correr dali. De se esconder. De um dia, talvez, no outono, no escuro, nos abraçármos. Mas seria, então, apenas um desejo meu. Mas como eu me delataria? Como você descobriria? Digo um adeus prematuro, talvez eu te encontre numa curva dessa estrada estranha que percorremos. Vai saber.

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O carro parou no meio da noite. A porta se abriu bruscamente. Me jogaram no meio fio. Os pneus cantaram com pressa. Não tive tempo de pensar em muita coisa. Senti frio. Pela blusa que eu não tinha. Pelo escuro que fazia. Pelo lugar que eu desconhecia. Me levantei com algumas dores pelo corpo. E corri. Fugi. Decidido a parar só quando eu me cansasse.

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A tarde era clara. Meiga. Selecionei as palavras mais lindas e as li como quem colhe frutos maduros. Palavras que queria ver em sua boca, mas que eu apenas entregava aos seus ouvidos. Como quem pede um carinho. A tarde era clara. Inteira. E eu lhe vi caminhar.

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