sábado, 19 de novembro de 2011

Um Texto Simples

Eu disse uma vez que seus olhos eram como a noite. Eu os vi numa lembrança que não era minha. Você sorria, estático, então eu encontrei muitas palavras dentro de mim. Eu queria fazer parte de uma lembrança sua. Uma lembrança física. Mas as nossas mãos são as rimas que não se cruzaram.

Visto do céu, o oceano é uma gota. Essas palavras todas já não têm sentido algum. Talvez como essa porção de números num parágrafo que te toma o tempo. Eu já quis saber a resposta, mas hoje eu sei que a dúvida é a poesia mais linda. No fundo do oceano, o tamanho do céu não importa.

O seu olhar é uma noite sem estrelas. Eu me repito, eu sei. Eu cansei de inventar palavras. Então, como naquela música: diga-me o que você quer que eu diga. Ou cante-me. Ou grite-me. Ou sussurre-me. Mas não se cale. Para mim, que digo tanto, o seu silêncio é um demônio preso às minhas costas.

(Pausa)

Num viés do sonho, eu atirei em ti. Percebi, pois, que atirara no espelho. Era o meu peito que sangrava. E o que doía em mim, em ti era dor nenhuma. O assassinato fora o suicídio. E que lindo perceber tal coisa. Tu, que chegaste num sonho, também num sonho embora foste. Num mundo de caravelas, onde dizes que a Terra é redonda, eu perco-me numa porção de versos decassílabos, e nesse mundo eu não te encontro.

(Pausa)

Está longe de amanhecer. E eu sei que quando a noite for embora, você vai fechar os seus olhos. Senhor do tempo. De um tempo que não existe. Essas poesias todas, de alguma forma, são lembranças suas. E quando notar isso, eu lhe peço, me de aquele sorriso que eu vi numa fotografia.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Câmera-lenta

Eu não te amo. E dizer isso não me dói. Porém saiba que sob cada palavra que eu lhe escrevi, eu escondi um desejo latente. Que você não viu. Como numa dança, onde o que lhe encanta são os gestos e as expressões que escapam do rosto, o que eu lhe digo está nos pés da bailarina. Que você não vê.

Um diante do outro, nossos olhos cortam em direções opostas. Às suas costas vejo um céu alaranjado que aos poucos escorre no horizonte. A câmera-lenta é tão melancólica que é quase como se eu chorasse. Mas eu não choro. Procuro nos seus olhos de breu o horizonte que se desenha às minhas costas, porém eles não me dizem nada. Ou eu não vejo.

Eu tropeço nas palavras que eu não sei escrever, porque os passos da bailarina são dados no escuro. Pensar em você é sempre pensar em outro lugar. Um lugar meio vazio. Eu não sei nada além do seu nome que eu vejo em todos os lugares, de tantas maneiras. Dizer que eu não te amo é a forma mais sincera de te amar.

domingo, 23 de outubro de 2011

Seu Poema Preferido

A distância não é bonita.

Sento-me numa cadeira de madeira maciça. Observo os livros apertados na estante larga, como calcificados. Em algum deles está o seu poema preferido, que eu não sei qual é. A cortina aberta deixa entrar uma luz fraca pela sala. O cômodo está amarelado. É o sol que se põe sem pressa alguma. Penso em meia dúzia de versos e em nenhuma rima.

A ciranda roda de olhos fechados.

Alguém vê meu rosto e detêm cada traço meu na memória. No entanto eu não sei quem é, pois meus olhos se prendem a outros traços, de uma pessoa que não sabe quem sou. E roda. Você sorri vagamente, como se não pudesse voltar. Eu queria ir e lhe dizer um poema, baixinho. E eu finjo que esqueço as palavras, para que você as lembre de dizer.

A realidade esconde o que eu sonhei.

Você senta ao meu lado, para vermos um filme antigo. Eu divido meu olhar entre você e a tela em preto-e-branco. Os meus dedos entre os seus, os meus olhos sobre os seus, então sorrimos. Calmos. Os instantes que são nossas vidas se cruzaram, enfim, no labirinto que é a eternidade. Depois do filme, com a cabeça em meu colo, você me diz o seu poema preferido.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Que você não vê

Eu não tenho medo da distância física.
Ela não nos impossibilita.
Eu tenho medo do tempo, que nos separa.

Essa poesia tem um porquê.
Mas ela não sabe quando.
Como um verso que não termina eu digo em inteiras palavras o que você não deve saber.

Eu acho que você tem medo de poesia.
Porém é ela que me possibilita.
Eu tenho medo do que nos separa, daquilo que você não vê.

domingo, 25 de setembro de 2011

Um Sonho

Ela é séria. Cabelos negros caindo sobre os ombros. Ela toma o café devagar, com elegância e segurança. Eu a admiro. Eu penso que você deve amá-la muito. E por você amá-la tanto, eu a olho com muito carinho. Sento-me à mesa com ela. Em silêncio, nós compartilhamos um rosto. Interrogativo, eu a olho. "Ele não está aqui", ela sorri. Na verdade ela é suave! Vejo o seu sorriso nos lábios dela. Antes de eu sair, ela acena cordialmente. Eu não a conheço. Mas era ela quem estava lá.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pureza

Sua risada é linda. Ela não é sonora, mas é o quanto os seus olhos brilham e como ela se desenha em seu rosto que preenchem de beleza o instante.

- A gente nem cabe direito mais nessas balanças!

Você diz e eu concordo com uma cara de desconforto. Antes que eu acabe de me ajeitar no balanço, você já está bem alto. Indo e vindo. Eu me demoro um pouco mais, só para te ver. Então tomo impulso e digo que vou te alcançar. Te ultrapassar!

As nossas gargalhadas tem ecos do passado. De quando ainda não nos conhecíamos. Na pureza da nossa felicidade eu fico triste. Porque era pra você ter vindo antes. Você não se dá conta do que eu sinto. Vai e volta, rindo, me provocando, me olhando tão alegre que me enche de saudade de um você que eu não conheci.

- Vamos ver quem salta mais longe!

Você salta e para mais longe do que eu imaginei. Eu te olho com uma falsa raiva nos olhos e murmuro "canalha!". Tomo mais impulso e coragem e me jogo. Nos segundos de salto livre eu voo no escuro, enquanto ouço sua voz ao longe.

Quando toco o solo e abro meus olhos, ainda é escuro. Não sei as horas e nem me interessa ve-las. Reviro-me entre as cobertas e tento voltar a te encontrar naquele parque.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um Poema Sem Eixo

Eu fecho a cortina. Ergo com toda pompa uma taça feita com o vidro mais vagabundo. Brindo só. No escuro. O vinho doce e barato desce pela minha garganta a goles grandes. Vinho doce, de menininha. Um dia eu te quis. Muito. E você sabe. Deve ter visto isso na minha cara. Porém tem uma coisa que eu não lhe disse nem com palavras, nem com olhares e gestos:

Um dia eu caí de um sonho torto que se desfez. E você me deu um sorriso curto, sob um olhar longo. Então ali você me salvou. Como um herói anônimo, mas ao contrário. Disso eu tenho certeza que você não sabe. E talvez por isso eu ainda tenha aqui comigo tantas palavras para você.

Sento-me no sofá e fito a parede. Vultos passam disformes. Mas são apenas os carros lá fora. Lembro de ontem, enquanto chovia, que coubemos sob um mesmo guarda-chuva. Hoje eu passo todos os dias por aquela rua. Mas é sempre de dia, quando você não estaria lá. O vinho acaba na taça. Jogo-a longe, no entanto não é raiva. É apenas como se eu estivesse dentro de um filme. Antigo, como aqueles que gostamos. E passo a beber direto da garrafa.

Cambaleante, vou até um pedaço de papel e leio um pensamento jogado: "temo que hoje seja tarde demais para ontem". Rio. Eu tenho um poema sem eixo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mãos

Um dia, como prometêssemos a eternidade um ao outro, rimos, ombro a ombro, de pequenas coisas que não tinham muita importância, mas nos faziam felizes naquele momento. Então eu te matei.

Entramos juntos num lago, enquanto o inverno terminava. Eu sabia quão fundo você estava e não lhe disse nada. Quando você chamou por mim, eu mergulhei. E de novo você chamou, perdida na superfície fria. No entanto eu não emergi. Era escuro no fundo do lago e por mais que eu soubesse onde estava, eu não sabia para onde eu ia. Caiu a noite. A água gelou, retraindo a pele. De repente estávamos em marges distantes. Não ouvi o seu choro. Mas de onde eu estava eu chorei por nós. E por mim.

Um dia eu te matei. Mas o sangue em minhas mãos não era apenas seu. Como fosse o fim a maior prova de eternidade, eu vi que o meu próprio peito sangrava.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Menino

A mãe ajeita o xale e aperta os braços. Mais por costume do que pelo frio. Seu gesto carrega, na verdade, um tanto de saudade. Olha os quadrados de vidro separados pela madeira envelhecida da janela, passa a mão e intriga-se com o pó em seus dedos. Quanto tempo teria se passado? Olha a grama verde que desce até além de sua vista. Então se lembra: meu menino, pra donde foi meu menino?

Alembro dele dano os primero passinho. As bochecha gorda de criança. Incrive como ria pra tudo! Alembro, tomém, quando meu menino caiu. Susto dos grande. Nunca mais queria meu fio andano. Mais tinha que andá, né? E andô. Era bunito meu fio. Se o sinhô encontrá, diz pra ele vim deitá no colo da mãe dele, diz?

O menino cruzou a varanda num segundo. E correu pela grama podada, sem certeza de para onde as pernas corriam. De certo, apenas, aquilo dentro dele, quente, que sentia. Nem olhou para trás. E nem viu a benção que sua mãe lhe dava, em silêncio, pela janela. Vai cum Deus, fio, vai sê filiz. Em seu peito nunca anoitecia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Franco

O lugar mais impensável para nos encontrarmos seria uma praia. Nunca te imaginei em uma. Porém, eu que digo tanto, seria próximo ao mar que eu não precisaria dizer nada.

Eu estaria sentado na plataforma, acompanhando o mar negro indo de encontro ao céu no horizonte que não se vê. Seria lindo se eu pressentisse a sua presença, mas eu só lhe notaria quando falasse, apontando as estrelas: São vaga-lumes, presos naquela coisa azul escura. Em meu rosto se formaria um riso franco, ao me lembrar do filme. Você se sentaria ao meu lado, olhando lá na frente, semi-serrando os olhos, fazendo de conta procurar o horizonte que eu ainda não encontrara. Então se viraria para mim e sussurraria, cheio de magia nas palavras: Va-ga-lu-mes! E seus olhos tão perto, seria como se a noite caísse sobre mim e não houvesse mais nada, além da sua boca com um riso maior que o meu. Ah, se eu soubesse, naquele momento eu lhe cantaria uma música linda. Sua mão encontraria meu ombro, seu braço as minhas costas. Ficaríamos tão perto! Eu me esqueceria do horizonte, do mar, das estrelas e dos vagalumes. Me renderia completamente à noite que você faz piscar lentamente em seus olhos.

domingo, 12 de junho de 2011

Mimar Você

Ouça, você me disse. Essa é minha música preferida e queria dividir com você. Assim eu lhe sorri enquanto ouvíamos o rádio. Pensei em lhe dizer como era bonita aquela coincidência, de repente sua música tocando pra nós. Mas fiquei entregue à pureza de seu sorriso sobre mim. Que linda essa música, comentei baixinho. Então você me abraçou mais forte e riu com uma doce satisfação.

Ao fim da música ficamos em silêncio. Sem poder evitar, eu deixei escapar os meus temores em meu olhar. Não querendo ser injusto, eu fechei meus olhos. Não tenha medo de ser feliz, você disse. Num beijo lento sobre seu corpo, eu fui me colocando em suas mãos. Senti quente seu coração sem receios, enganos e segredos. Você não sabia quase nada sobre mim, mas seus gestos desatavam todos os meus medos.

"Te quero só pra mim, você mora em meu coração. Não me deixe só aqui". Ouça, eu lhe disse. Essa é sua música preferida.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O Poema Que Eu Lhe Fiz

Espio por uma janela o seu caminhar lá longe. Um sorriso curto sempre marca o seu rosto, enquanto seu olhar vê o que eu não alcanço. Bonitos são seus passos que andam por onde eu não te sigo. Eu sei que um dia nos desencontramos. Ou nos vimos brevemente enquanto estávamos perdidos.

Você não sabe, mas um dia me salvou. Eu estava no fundo de um mar escuro. Então você me puxou, sem saber onde me deixar. E eu, sem saber onde pousar, me deixei subir. Sem dizer nada, pois, você me libertou.

A oração é curta enquanto a poesia acontece. De súbito eu penso que iria em qualquer lugar onde estão seus passos. Eu te encontraria de novo num desencontro outro. E dessa vez, você saberia do poema que eu lhe fiz.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Do Amor

Descemos a rua com as mãos soltas. Seus lábios cerrados, expressão séria, seus olhos distantes. Quando minha voz soava um pouco mais alta, você voltava-se a mim. Então me dava um sorriso. Breve. Não sei se era por causa de uma das histórias que eu me perdia a contar. Ou por causa da minha meninice que eu não sabia esconder.

Os nossos olhos são os mesmos, eu lhe diria. No entanto dizem coisas completamente diferentes, e isso eu calaria. Estenderia-lhe meus braços, e nos veríamos iguais no corpo. E por mais fulgás que pudesse ser o momento, poderíamos ouvir o nome um do outro. Então o riso seria culpa sua. Culpa minha, no prazer que não se ocultaria.

A pureza que viu em meu rosto, você não sabe, mas era sua. Eu a senti em você no primeiro abraço que me deu. Uma pureza que persistia sob todos os seus passos e quedas. Não existe pureza mais pura que a que sobrevive em um pecador. De repente ninguém é santo.

Lembro de ter te encarado no meio da rua. Diante de mim seus olhos estavam tão distantes, que eu tive medo de te abraçar. Olhava-te com um receio injusto, porém que fazia sentido nas marcas que eu carregava. Lembro de ter me encarado num canto da rua. Você estava tão perto, e eu só queria ter te abraçado.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um Poema

- Esse poema é muito honesto. Desculpe-me se soar canalha, mas é a madrugada e o conhaque que bebo sem parar.

Foi o que ele disse quando a encontrou. Dera rosas àquela mulher, sussurrara para si o jazz que ela cantava todas as noites naquele cabaré. Escrevera poemas. E era capaz de descrever as curvas de seu corpo com um encantamento casto. Ela vestia azul escuro. Quando caminhava, era como se o mar balançasse aos seus pés. Tinha acabado mais um número. Ouvia aquele homem, do lado do palco, com uma desconfiança triste, como quem teme chorar.

- Essa última aí. Era Billie Holiday, não é?
- Era, "You've Changed".

A música o acertara em cheio. Ele não soube ver nos olhos escuros da cantora se fora obra do acaso, ou se a canção fora planejada. As pedras do vestido dela brilhavam diante dele. Estava cheio de admiração, ao mesmo tempo que tremia os lábios com as palavras que escrevera.

- O poema. Não vai dizer?
- Direi.

Desdobrou o papel e leu com voz tímida:

Anda. Segue lua.
Segue cheia.
Segue alto.
És a luz da noite!

Voa. Não mingue.
Segue e cresce.
Não se prenda.
Aqui jaz a escuridão.

Ele não perguntou o que ela achou. Os olhos úmidos daquela mulher calaram suas palavras naquele instante. Caminhou até sua mesa de sempre, na penumbra, e pediu mais um conhaque. A cantora voltou ao palco e brilhou, como haveria de ser.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tão Bela

Eu nunca vi seus olhos diante dos meus. Mas sei dos desenhos que eles fazem. Sei o que eles veem. E sei tantas coisas que não vejo.

Eu vi palavras suas diante das minhas. Esse traço de mulher bailarina que salta as palavras. As levam e as trazem de volta.

Eu vi seus passos. Lá do meu silêncio, quase sempre triste, eu vi a dança que nunca acaba. Sempre cheia de vontade e palavra.

Eu vi uma mulher com palavras de Lispector, Telles, Espanca. Tão bela, grande no desejo de suas palavras que dizem tudo.

Eu vi uma menina com palavras suas. Uma sobre as outras, me enchendo de admiração. Belinha, sob a sutileza das dores que pinta com flores.

Eu nunca vi seus olhos diante dos meus. Mas sei que isso não tarda. E que poesias virão? Não sei, mas espero poder pintá-las com suas cores.

domingo, 10 de abril de 2011

Câmera Lenta

O vídeo vai voltando em câmera lenta. De costas, ele atravessa o corredor. Os estilhaços do chão então flutuam, até formarem a janela novamente. O sangue em suas mãos some e fecham-se as feridas. Devagar a porta se abre. Ele está do lado de fora, vendo a enorme casa. E não sabe de nada.

A guitarra cruza o som do piano por um instante. Não há calma. A música vai cercando o silêncio. Por todos os lados uma lembrança. De cada um que lhe amou quando ele se esqueceu disso. A guitarra interrompe, há harmonia, e haveria de qualquer forma, ele sabe. É hora de se guardar como uma nuvem escura antes da tempestade.

Uma escadaria imensa. De cimento velho e áspero. Cada degrau sendo um passo a mais longe do chão. Longe de onde todos procuram estar. "É tão mais bonito lá de cima!". O tempo se fecha. Eu vejo uma atriz, linda e livre. Ela me diz num papel impresso antes de eu nascer:

- Nada pode mais me ferir.

Em câmera lenta, ela tem razão.

domingo, 27 de março de 2011

Olhos Mansos

Eu a vi. Os cabelos escuros caidos com liberdade sobre os ombros. As mãos repousadas com calma em seu colo. E no rosto um sorriso pleno de quem conhecia um lugar que não acreditamos existir.

Fui até ela. Tentando caminhar tão suave quanto sua presença. Sentei-me ao seu lado e ela me abraçou demoradamente. Só pessoas como ela, pessoas que nós nunca seríamos, é que sabiam abraçar assim.

Sorri-lhe. Vi nos olhos dela os seus. Mansos. Mas os dela não eram baixos. Aonde ela está, de onde ela vem, ninguém chora. Choramos nós. Ainda aqui, ainda vulneráveis. E ainda não sabemos.

Levantou-se. Movimentava-se como uma música lenta, feita com cordas. E, assim, te fazendo tão dela! Despediu-se de mim com um movimento da cabeça e se foi. Como quem vai embora, mas não acaba.

- Diga-lhe pra que não tenha medo de me acordar. Na verdade eu nem dormi.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Serafim

Num canto da cidade que nunca fui, eu encontrei um anjo de asas quebradas. Vi tantas dores minhas em seus olhos. E mais. Olhos escuros, um olhar tímido e uma boca que sempre dizia sim. Apertei a sua mão e nos demos um sorriso muito puro. Como se nunca tivéssemos deitado nossos corpos na água e no sal.

Um flash.

De repente eu estou na cidade que eu sempre estive. De repente não estamos mais perto. De repente o anjo está caído numa cidade que não é dele, tão próximo da praia. Longe, eu quero que ele escape da onda do mar, que eu não vejo, mas sei que está lá. Como se ele tivesse caído direto nos olhos do inferno.

Um silêncio.

Certa vez me apareceu um rosto cheio de ondas. Com palavras que iam e vinham. De lugar algum. E da mesma forma que ele me tinha em uma das mãos, ele tinha o anjo na outra. Quando nos soltamos, enfim, eu caí tão longe. E o anjo tão perto. Caí com meu coração do avesso e o anjo com as asas dilaceradas. Maldito.

Um som.

Quisera eu fugir o anjo dali. Ou quem quer que fosse, das ondas de lugar algum. De todos os lugares. Queria em minhas mãos a cura pra fazer ele voar pra longe dali. Existe em nós uma marca. Uma tormenta. Porque fomos fracos. Porque somos frágeis. E um dia, como um piano vai devagar, nós não nos lembraremos.

Uma pausa.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Blume

Todas essas estrelas que eu vejo de noite, lá longe, brilham há séculos sobre esse mundo. Mas é tão mais bonito pensar que elas brilharam antes na noite dela. Menina do futuro, me conta das coisas de amanhã, com sua voz doce. Eu, ontem, sorrirei ao imaginar próxima sua calma desatenta. Um dia essa flor foi para longe, onde o dia era um pouco noite. Pois guardou consigo um pedaço do sol, mas não sabia ela que o sol estava em todos aqueles que um dia, de alguma forma, a conheceram. Aquela leveza dos pés firmes. E sem sol, faça chuva ou faça neve, a flor não ficaria.

Me diz daí o que verei no céu essa noite. Me conta que a noite tem uma cor diferente. E que o dia que a segue nos trará um céu mais azul. Ou, também, não diga nada. Sua poesia está nos pés. Nos braços. Num arco. E no carinho solto que abraça os pontos finais de suas frases. Menina do futuro, rouba a máquina do tempo e vem. Salta até nós, ontem, que te guardei um abraço bem demorado. Vem ao acaso, vem cadente, feito uma coincidência que não se explica. Todas essas estrelas que eu vejo de noite, lá longe, poderiam ser ela.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Puro

Rua de terra. Os poucos veículos que ali passavam eram caminhões e tratores. Antigos como os rostos que espiavam por cima dos muros e pelas janelas de madeira. Eu caminhava sobre uma grama ferida, que separava as casas da rua. Lá longe, onde não era o fim, surgia uma manhã pura. Quase esquecida. E ainda a tempo. Foi quando eu o vi. Encostado num muro, com um grafite na mão, desenhando num pedaço de papel em seu colo. Aproximei-me sem saber ao certo o que dizer. Seus olhos se levantaram e eu vi um sorriso meu em sua boca. Ele voltou ao desenho, então me sentei ao seu lado e o observei.

As manchas de grafite em suas mãos eram como os versos nunca rimados que eu poderia lhe escrever. Com destreza ele ia formando no papel o seu desenho. Eram algumas nuvens e o sol que surgia tímido por trás delas. Ele sabia que eu estava ali, às vezes me olhava, como pudesse ver em mim um pouco daquilo que ele via no horizonte. Deixou de lado o grafite, balançou a folha e a olhou, analítico. Depois se virou pra mim e perguntou o que eu via. Olhei para o desenho, olhei para o céu, então respondi: A manhã pura! Ele sorriu novamente, me entregou o desenho e disse: Sim e ela é sua.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um Calmo Amor Prestante

A janela estava abaixada, abafando o barulho lá de fora. O velho se sentou na poltrona e olhou através do vidro. Viu um campo que começava a ter flores somente onde seus olhos deixavam de ver. Devia ser outono. No entanto não sentia a temperatura lá de fora, tão pouco lhe importava a ali de dentro. Esticou o braço sobre o piano, não se lembrava a última vez que o tocaram, pegou um porta-retrato e o trouxe junto ao peito.

Era de bronze. Tinha detalhes na moldura, tulipas, que o tempo escurecera. Segurou firme e contemplou. Estava vazio. Lembrou-se de um poema antigo. Levantou-se, caminhou até a estante com a pressa lenta de sua idade. Retirou um dos livros. A página estava marcada. Leu. Chorou devagar, com lágrimas que esquecera que possuia. Ergueu os olhos e atravessou a janela fechada, novamente. Devia ser outono, quem sabe.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Algum

Você me puxou pelo braço, numa rudeza natural à sua pressa. Mas o gesto como um todo tinha uma espécie de carinho. Nos sentamos num banco, diante de um espelho imenso, desses que nos mostram o depois. Aí você me perguntou:
- O que vê?
- Eu?
Você respirou fundo, descontente com minha resposta errada.
- Do lado.
Surpreso com o óbvio, eu disse:
- Você!
Sua cabeça assentiu, entre um pedido de cautela e uma repreensão. Percebi, então, mortas as flores em suas mãos e que eu não poderia entregá-las a mais ninguém.
Você se levantou e caminhou numa direção oposta ao espelho. Porém nele, ao meu lado, ainda permanecia a sua figura. Talvez com outros olhos, ou outra temperatura. Mas à sua maneira, num jogo que eu jamais entenderia.

***

Profane. Porque nada é sagrado. E se um dia achar que eu possa querer te guardar numa caixinha, fuja. Pois eu mesmo já terei tentado isso, minutos antes. Na verdade ninguém se prende. Na verdade ninguém escapa. Portanto, profane.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Solta

Uma mulher como essa não sofre por amor, pensei. Ela estava na varanda, alheia a tudo. Fumava sem pressa, calma. Solta. De onde eu estava, as tatuagens em seu braço pareciam um grande desenho único e disforme. Quis ve-la de perto e ouvir a história de cada uma daquelas tatuagens. Ela me contaria em meio a risos, com sua voz rouca e seca. E eu me apaixonaria pela forma como ela afasta o cabelo dos olhos. Não, definitivamente ela não sofria por amor. Ela dava voltas no amor. Escondia-se em muitos cantos da noite dessa cidade. Eu seria capaz de segui-la em todos. E de esconde-la em minha casa, quando ela pedisse. Tomaríamos um vinho. Eu sentiria seu hálito morno e próximo. Acordaria ao seu lado e teria tempo de dizer-lhe bom dia, antes que escapasse pela porta. Então eu morreria de saudades e lhe escreveria poemas que não seriam lidos. Ela assopra a fumaça pela última vez, amassa a bituca no parepeito e joga. Dá uma última olhada para baixo, quando vejo os seus olhos, e entra. Não percebeu quando seus olhos roubaram a cor dos meus.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Silêncio

Hesito em abrir a porta. Respiro fundo, então giro a maçaneta. Vou me revelando, cauteloso, porém sem medo algum. Você me encara como quem pede perdão. Nas tuas mãos, flor alguma. Em meus olhos, muitas delas, despetalando-se. Você entra, senta-se no sofá e não diz nada. Num romantismo que não é nosso e nem de nossa época, pego um disco velho na estante e coloco para tocar. Observo o vinil girando e penso em coisas lindas para lhe dizer. No entanto algumas lembranças tão feias me roubam as palavras. Quando volto a te olhar você está chorando. Aproximo-me, rápido, e te abraço. Mas é aquela dor que eu não alcanço que leva lágrimas aos seus olhos. Aperto meus braços ao seu redor, seu choro é doído. Deito-te em meu colo e passo a mão entre seus cabelos. Enquanto se acalma o seu choro, penso que sua liberdade é o que te aprisiona. Você adormece em mim. Tão desprotegido. Tão frágil. Tão misterioso. Lentamente você acorda e me dá um sorriso puro, como estivéssemos num sonho. Levantamo-nos e caminhamos até a porta. Eu te encaro como quem perdoa, mesmo você não tendo dito nada. Você sai e antes de eu entrar, lhe observo descendo a rua. Sorrio e deixo a porta se fechar às minhas costas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hallelujah

Num desajeito adolescente, eu tiro minha roupa e a deixo espalhada na varanda. Desço correndo até o rio e mergulho na água fria. No outro lado está um homem triste com seu cachorro. Ele me observa com um olhar nebuloso, no entanto que não me oferece risco nenhum. Aproximo-me, então ele diz:

- Jeff Buckley morreu aqui.

Acordo. Reviro-me na cama larga. Penso no sonho. No rio. No velho. Esqueço. Levanto-me e vou até a janela. O céu nublado e a garoa fina que cai a esconder o verão me sugerem um líquido tinto e doce. E um par de olhos soltos, desses que escapam pela noite, para eu apertar contra os meus. A avenida de barulho reticente, feito o mar, escorrega seus carros lá em baixo. "Estivesse chovendo mais forte, eu correria nu ali em baixo", digo a mim mesmo, sabendo que jamais o faria. Fecho a janela. Sento-me na cama, grave, como quem vai fazer uma oração. Entre lembranças que persistem e um amanhã que existe num pedaço de papel dobrado, deixo cair uma lágrima tímida, que sinto morna sobre minhas mãos. Deito-me. Fecho os olhos e procuro novamente o homem triste e seu cachorro.

"It's a cold and it's a broken hallelujah".