quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Solta

Uma mulher como essa não sofre por amor, pensei. Ela estava na varanda, alheia a tudo. Fumava sem pressa, calma. Solta. De onde eu estava, as tatuagens em seu braço pareciam um grande desenho único e disforme. Quis ve-la de perto e ouvir a história de cada uma daquelas tatuagens. Ela me contaria em meio a risos, com sua voz rouca e seca. E eu me apaixonaria pela forma como ela afasta o cabelo dos olhos. Não, definitivamente ela não sofria por amor. Ela dava voltas no amor. Escondia-se em muitos cantos da noite dessa cidade. Eu seria capaz de segui-la em todos. E de esconde-la em minha casa, quando ela pedisse. Tomaríamos um vinho. Eu sentiria seu hálito morno e próximo. Acordaria ao seu lado e teria tempo de dizer-lhe bom dia, antes que escapasse pela porta. Então eu morreria de saudades e lhe escreveria poemas que não seriam lidos. Ela assopra a fumaça pela última vez, amassa a bituca no parepeito e joga. Dá uma última olhada para baixo, quando vejo os seus olhos, e entra. Não percebeu quando seus olhos roubaram a cor dos meus.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Silêncio

Hesito em abrir a porta. Respiro fundo, então giro a maçaneta. Vou me revelando, cauteloso, porém sem medo algum. Você me encara como quem pede perdão. Nas tuas mãos, flor alguma. Em meus olhos, muitas delas, despetalando-se. Você entra, senta-se no sofá e não diz nada. Num romantismo que não é nosso e nem de nossa época, pego um disco velho na estante e coloco para tocar. Observo o vinil girando e penso em coisas lindas para lhe dizer. No entanto algumas lembranças tão feias me roubam as palavras. Quando volto a te olhar você está chorando. Aproximo-me, rápido, e te abraço. Mas é aquela dor que eu não alcanço que leva lágrimas aos seus olhos. Aperto meus braços ao seu redor, seu choro é doído. Deito-te em meu colo e passo a mão entre seus cabelos. Enquanto se acalma o seu choro, penso que sua liberdade é o que te aprisiona. Você adormece em mim. Tão desprotegido. Tão frágil. Tão misterioso. Lentamente você acorda e me dá um sorriso puro, como estivéssemos num sonho. Levantamo-nos e caminhamos até a porta. Eu te encaro como quem perdoa, mesmo você não tendo dito nada. Você sai e antes de eu entrar, lhe observo descendo a rua. Sorrio e deixo a porta se fechar às minhas costas.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Hallelujah

Num desajeito adolescente, eu tiro minha roupa e a deixo espalhada na varanda. Desço correndo até o rio e mergulho na água fria. No outro lado está um homem triste com seu cachorro. Ele me observa com um olhar nebuloso, no entanto que não me oferece risco nenhum. Aproximo-me, então ele diz:

- Jeff Buckley morreu aqui.

Acordo. Reviro-me na cama larga. Penso no sonho. No rio. No velho. Esqueço. Levanto-me e vou até a janela. O céu nublado e a garoa fina que cai a esconder o verão me sugerem um líquido tinto e doce. E um par de olhos soltos, desses que escapam pela noite, para eu apertar contra os meus. A avenida de barulho reticente, feito o mar, escorrega seus carros lá em baixo. "Estivesse chovendo mais forte, eu correria nu ali em baixo", digo a mim mesmo, sabendo que jamais o faria. Fecho a janela. Sento-me na cama, grave, como quem vai fazer uma oração. Entre lembranças que persistem e um amanhã que existe num pedaço de papel dobrado, deixo cair uma lágrima tímida, que sinto morna sobre minhas mãos. Deito-me. Fecho os olhos e procuro novamente o homem triste e seu cachorro.

"It's a cold and it's a broken hallelujah".