domingo, 2 de janeiro de 2011

Hallelujah

Num desajeito adolescente, eu tiro minha roupa e a deixo espalhada na varanda. Desço correndo até o rio e mergulho na água fria. No outro lado está um homem triste com seu cachorro. Ele me observa com um olhar nebuloso, no entanto que não me oferece risco nenhum. Aproximo-me, então ele diz:

- Jeff Buckley morreu aqui.

Acordo. Reviro-me na cama larga. Penso no sonho. No rio. No velho. Esqueço. Levanto-me e vou até a janela. O céu nublado e a garoa fina que cai a esconder o verão me sugerem um líquido tinto e doce. E um par de olhos soltos, desses que escapam pela noite, para eu apertar contra os meus. A avenida de barulho reticente, feito o mar, escorrega seus carros lá em baixo. "Estivesse chovendo mais forte, eu correria nu ali em baixo", digo a mim mesmo, sabendo que jamais o faria. Fecho a janela. Sento-me na cama, grave, como quem vai fazer uma oração. Entre lembranças que persistem e um amanhã que existe num pedaço de papel dobrado, deixo cair uma lágrima tímida, que sinto morna sobre minhas mãos. Deito-me. Fecho os olhos e procuro novamente o homem triste e seu cachorro.

"It's a cold and it's a broken hallelujah".