terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Silêncio

Hesito em abrir a porta. Respiro fundo, então giro a maçaneta. Vou me revelando, cauteloso, porém sem medo algum. Você me encara como quem pede perdão. Nas tuas mãos, flor alguma. Em meus olhos, muitas delas, despetalando-se. Você entra, senta-se no sofá e não diz nada. Num romantismo que não é nosso e nem de nossa época, pego um disco velho na estante e coloco para tocar. Observo o vinil girando e penso em coisas lindas para lhe dizer. No entanto algumas lembranças tão feias me roubam as palavras. Quando volto a te olhar você está chorando. Aproximo-me, rápido, e te abraço. Mas é aquela dor que eu não alcanço que leva lágrimas aos seus olhos. Aperto meus braços ao seu redor, seu choro é doído. Deito-te em meu colo e passo a mão entre seus cabelos. Enquanto se acalma o seu choro, penso que sua liberdade é o que te aprisiona. Você adormece em mim. Tão desprotegido. Tão frágil. Tão misterioso. Lentamente você acorda e me dá um sorriso puro, como estivéssemos num sonho. Levantamo-nos e caminhamos até a porta. Eu te encaro como quem perdoa, mesmo você não tendo dito nada. Você sai e antes de eu entrar, lhe observo descendo a rua. Sorrio e deixo a porta se fechar às minhas costas.

Um comentário:

Eduardo Escames disse...

Bonito e sensível.
Tem carga. Imagino a cena acontecendo no crepúsculo, num apartamento mal iluminado com móveis pretos e chão de madeira. E um blues tocando. Cantado por uma mulher.