quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Solta

Uma mulher como essa não sofre por amor, pensei. Ela estava na varanda, alheia a tudo. Fumava sem pressa, calma. Solta. De onde eu estava, as tatuagens em seu braço pareciam um grande desenho único e disforme. Quis ve-la de perto e ouvir a história de cada uma daquelas tatuagens. Ela me contaria em meio a risos, com sua voz rouca e seca. E eu me apaixonaria pela forma como ela afasta o cabelo dos olhos. Não, definitivamente ela não sofria por amor. Ela dava voltas no amor. Escondia-se em muitos cantos da noite dessa cidade. Eu seria capaz de segui-la em todos. E de esconde-la em minha casa, quando ela pedisse. Tomaríamos um vinho. Eu sentiria seu hálito morno e próximo. Acordaria ao seu lado e teria tempo de dizer-lhe bom dia, antes que escapasse pela porta. Então eu morreria de saudades e lhe escreveria poemas que não seriam lidos. Ela assopra a fumaça pela última vez, amassa a bituca no parepeito e joga. Dá uma última olhada para baixo, quando vejo os seus olhos, e entra. Não percebeu quando seus olhos roubaram a cor dos meus.

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