domingo, 20 de fevereiro de 2011

Puro

Rua de terra. Os poucos veículos que ali passavam eram caminhões e tratores. Antigos como os rostos que espiavam por cima dos muros e pelas janelas de madeira. Eu caminhava sobre uma grama ferida, que separava as casas da rua. Lá longe, onde não era o fim, surgia uma manhã pura. Quase esquecida. E ainda a tempo. Foi quando eu o vi. Encostado num muro, com um grafite na mão, desenhando num pedaço de papel em seu colo. Aproximei-me sem saber ao certo o que dizer. Seus olhos se levantaram e eu vi um sorriso meu em sua boca. Ele voltou ao desenho, então me sentei ao seu lado e o observei.

As manchas de grafite em suas mãos eram como os versos nunca rimados que eu poderia lhe escrever. Com destreza ele ia formando no papel o seu desenho. Eram algumas nuvens e o sol que surgia tímido por trás delas. Ele sabia que eu estava ali, às vezes me olhava, como pudesse ver em mim um pouco daquilo que ele via no horizonte. Deixou de lado o grafite, balançou a folha e a olhou, analítico. Depois se virou pra mim e perguntou o que eu via. Olhei para o desenho, olhei para o céu, então respondi: A manhã pura! Ele sorriu novamente, me entregou o desenho e disse: Sim e ela é sua.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um Calmo Amor Prestante

A janela estava abaixada, abafando o barulho lá de fora. O velho se sentou na poltrona e olhou através do vidro. Viu um campo que começava a ter flores somente onde seus olhos deixavam de ver. Devia ser outono. No entanto não sentia a temperatura lá de fora, tão pouco lhe importava a ali de dentro. Esticou o braço sobre o piano, não se lembrava a última vez que o tocaram, pegou um porta-retrato e o trouxe junto ao peito.

Era de bronze. Tinha detalhes na moldura, tulipas, que o tempo escurecera. Segurou firme e contemplou. Estava vazio. Lembrou-se de um poema antigo. Levantou-se, caminhou até a estante com a pressa lenta de sua idade. Retirou um dos livros. A página estava marcada. Leu. Chorou devagar, com lágrimas que esquecera que possuia. Ergueu os olhos e atravessou a janela fechada, novamente. Devia ser outono, quem sabe.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Algum

Você me puxou pelo braço, numa rudeza natural à sua pressa. Mas o gesto como um todo tinha uma espécie de carinho. Nos sentamos num banco, diante de um espelho imenso, desses que nos mostram o depois. Aí você me perguntou:
- O que vê?
- Eu?
Você respirou fundo, descontente com minha resposta errada.
- Do lado.
Surpreso com o óbvio, eu disse:
- Você!
Sua cabeça assentiu, entre um pedido de cautela e uma repreensão. Percebi, então, mortas as flores em suas mãos e que eu não poderia entregá-las a mais ninguém.
Você se levantou e caminhou numa direção oposta ao espelho. Porém nele, ao meu lado, ainda permanecia a sua figura. Talvez com outros olhos, ou outra temperatura. Mas à sua maneira, num jogo que eu jamais entenderia.

***

Profane. Porque nada é sagrado. E se um dia achar que eu possa querer te guardar numa caixinha, fuja. Pois eu mesmo já terei tentado isso, minutos antes. Na verdade ninguém se prende. Na verdade ninguém escapa. Portanto, profane.