sábado, 5 de fevereiro de 2011

Algum

Você me puxou pelo braço, numa rudeza natural à sua pressa. Mas o gesto como um todo tinha uma espécie de carinho. Nos sentamos num banco, diante de um espelho imenso, desses que nos mostram o depois. Aí você me perguntou:
- O que vê?
- Eu?
Você respirou fundo, descontente com minha resposta errada.
- Do lado.
Surpreso com o óbvio, eu disse:
- Você!
Sua cabeça assentiu, entre um pedido de cautela e uma repreensão. Percebi, então, mortas as flores em suas mãos e que eu não poderia entregá-las a mais ninguém.
Você se levantou e caminhou numa direção oposta ao espelho. Porém nele, ao meu lado, ainda permanecia a sua figura. Talvez com outros olhos, ou outra temperatura. Mas à sua maneira, num jogo que eu jamais entenderia.

***

Profane. Porque nada é sagrado. E se um dia achar que eu possa querer te guardar numa caixinha, fuja. Pois eu mesmo já terei tentado isso, minutos antes. Na verdade ninguém se prende. Na verdade ninguém escapa. Portanto, profane.

2 comentários:

Bru disse...

Isso: "Profane. Porque nada é sagrado. E se um dia achar que eu possa querer te guardar numa caixinha, fuja. Pois eu mesmo já terei tentado isso, minutos antes. Na verdade ninguém se prende. Na verdade ninguém escapa. Portanto, profane."
É uma verdade, é de uma intensidade. Isso é ouro. É vida. É um freio que insistimos em ter. Não podemos ter na verdade. E o querer é enlouquecedor.

Gabriella Mancini disse...

Oi, Dario. Prazer em conhecer seu blog. Bj