domingo, 20 de fevereiro de 2011

Puro

Rua de terra. Os poucos veículos que ali passavam eram caminhões e tratores. Antigos como os rostos que espiavam por cima dos muros e pelas janelas de madeira. Eu caminhava sobre uma grama ferida, que separava as casas da rua. Lá longe, onde não era o fim, surgia uma manhã pura. Quase esquecida. E ainda a tempo. Foi quando eu o vi. Encostado num muro, com um grafite na mão, desenhando num pedaço de papel em seu colo. Aproximei-me sem saber ao certo o que dizer. Seus olhos se levantaram e eu vi um sorriso meu em sua boca. Ele voltou ao desenho, então me sentei ao seu lado e o observei.

As manchas de grafite em suas mãos eram como os versos nunca rimados que eu poderia lhe escrever. Com destreza ele ia formando no papel o seu desenho. Eram algumas nuvens e o sol que surgia tímido por trás delas. Ele sabia que eu estava ali, às vezes me olhava, como pudesse ver em mim um pouco daquilo que ele via no horizonte. Deixou de lado o grafite, balançou a folha e a olhou, analítico. Depois se virou pra mim e perguntou o que eu via. Olhei para o desenho, olhei para o céu, então respondi: A manhã pura! Ele sorriu novamente, me entregou o desenho e disse: Sim e ela é sua.

2 comentários:

Iza disse...

é doce, sincero... é puro como esta manhã descrita.... sua delicadeza transbordam....suas palavras desenham à quem lê....

és lindo!

Eder disse...

Foi como se eu tivesse ouvido o Cat Stevens cantando Father and Son.