quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Um Calmo Amor Prestante

A janela estava abaixada, abafando o barulho lá de fora. O velho se sentou na poltrona e olhou através do vidro. Viu um campo que começava a ter flores somente onde seus olhos deixavam de ver. Devia ser outono. No entanto não sentia a temperatura lá de fora, tão pouco lhe importava a ali de dentro. Esticou o braço sobre o piano, não se lembrava a última vez que o tocaram, pegou um porta-retrato e o trouxe junto ao peito.

Era de bronze. Tinha detalhes na moldura, tulipas, que o tempo escurecera. Segurou firme e contemplou. Estava vazio. Lembrou-se de um poema antigo. Levantou-se, caminhou até a estante com a pressa lenta de sua idade. Retirou um dos livros. A página estava marcada. Leu. Chorou devagar, com lágrimas que esquecera que possuia. Ergueu os olhos e atravessou a janela fechada, novamente. Devia ser outono, quem sabe.

2 comentários:

Eduardo Escames disse...

Me lembra um texto meu. Achei que esse texto ficou bem Eduardiano. xD Da mesma maneira que tenho os meus Dadaristas.

Chorar devagar é triste como o cair de uma folha seca.

Dario Duarte disse...

Nossa escrita se confunde. Como algumas de nossas dores.