domingo, 27 de março de 2011

Olhos Mansos

Eu a vi. Os cabelos escuros caidos com liberdade sobre os ombros. As mãos repousadas com calma em seu colo. E no rosto um sorriso pleno de quem conhecia um lugar que não acreditamos existir.

Fui até ela. Tentando caminhar tão suave quanto sua presença. Sentei-me ao seu lado e ela me abraçou demoradamente. Só pessoas como ela, pessoas que nós nunca seríamos, é que sabiam abraçar assim.

Sorri-lhe. Vi nos olhos dela os seus. Mansos. Mas os dela não eram baixos. Aonde ela está, de onde ela vem, ninguém chora. Choramos nós. Ainda aqui, ainda vulneráveis. E ainda não sabemos.

Levantou-se. Movimentava-se como uma música lenta, feita com cordas. E, assim, te fazendo tão dela! Despediu-se de mim com um movimento da cabeça e se foi. Como quem vai embora, mas não acaba.

- Diga-lhe pra que não tenha medo de me acordar. Na verdade eu nem dormi.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Serafim

Num canto da cidade que nunca fui, eu encontrei um anjo de asas quebradas. Vi tantas dores minhas em seus olhos. E mais. Olhos escuros, um olhar tímido e uma boca que sempre dizia sim. Apertei a sua mão e nos demos um sorriso muito puro. Como se nunca tivéssemos deitado nossos corpos na água e no sal.

Um flash.

De repente eu estou na cidade que eu sempre estive. De repente não estamos mais perto. De repente o anjo está caído numa cidade que não é dele, tão próximo da praia. Longe, eu quero que ele escape da onda do mar, que eu não vejo, mas sei que está lá. Como se ele tivesse caído direto nos olhos do inferno.

Um silêncio.

Certa vez me apareceu um rosto cheio de ondas. Com palavras que iam e vinham. De lugar algum. E da mesma forma que ele me tinha em uma das mãos, ele tinha o anjo na outra. Quando nos soltamos, enfim, eu caí tão longe. E o anjo tão perto. Caí com meu coração do avesso e o anjo com as asas dilaceradas. Maldito.

Um som.

Quisera eu fugir o anjo dali. Ou quem quer que fosse, das ondas de lugar algum. De todos os lugares. Queria em minhas mãos a cura pra fazer ele voar pra longe dali. Existe em nós uma marca. Uma tormenta. Porque fomos fracos. Porque somos frágeis. E um dia, como um piano vai devagar, nós não nos lembraremos.

Uma pausa.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Blume

Todas essas estrelas que eu vejo de noite, lá longe, brilham há séculos sobre esse mundo. Mas é tão mais bonito pensar que elas brilharam antes na noite dela. Menina do futuro, me conta das coisas de amanhã, com sua voz doce. Eu, ontem, sorrirei ao imaginar próxima sua calma desatenta. Um dia essa flor foi para longe, onde o dia era um pouco noite. Pois guardou consigo um pedaço do sol, mas não sabia ela que o sol estava em todos aqueles que um dia, de alguma forma, a conheceram. Aquela leveza dos pés firmes. E sem sol, faça chuva ou faça neve, a flor não ficaria.

Me diz daí o que verei no céu essa noite. Me conta que a noite tem uma cor diferente. E que o dia que a segue nos trará um céu mais azul. Ou, também, não diga nada. Sua poesia está nos pés. Nos braços. Num arco. E no carinho solto que abraça os pontos finais de suas frases. Menina do futuro, rouba a máquina do tempo e vem. Salta até nós, ontem, que te guardei um abraço bem demorado. Vem ao acaso, vem cadente, feito uma coincidência que não se explica. Todas essas estrelas que eu vejo de noite, lá longe, poderiam ser ela.