quinta-feira, 10 de março de 2011

Serafim

Num canto da cidade que nunca fui, eu encontrei um anjo de asas quebradas. Vi tantas dores minhas em seus olhos. E mais. Olhos escuros, um olhar tímido e uma boca que sempre dizia sim. Apertei a sua mão e nos demos um sorriso muito puro. Como se nunca tivéssemos deitado nossos corpos na água e no sal.

Um flash.

De repente eu estou na cidade que eu sempre estive. De repente não estamos mais perto. De repente o anjo está caído numa cidade que não é dele, tão próximo da praia. Longe, eu quero que ele escape da onda do mar, que eu não vejo, mas sei que está lá. Como se ele tivesse caído direto nos olhos do inferno.

Um silêncio.

Certa vez me apareceu um rosto cheio de ondas. Com palavras que iam e vinham. De lugar algum. E da mesma forma que ele me tinha em uma das mãos, ele tinha o anjo na outra. Quando nos soltamos, enfim, eu caí tão longe. E o anjo tão perto. Caí com meu coração do avesso e o anjo com as asas dilaceradas. Maldito.

Um som.

Quisera eu fugir o anjo dali. Ou quem quer que fosse, das ondas de lugar algum. De todos os lugares. Queria em minhas mãos a cura pra fazer ele voar pra longe dali. Existe em nós uma marca. Uma tormenta. Porque fomos fracos. Porque somos frágeis. E um dia, como um piano vai devagar, nós não nos lembraremos.

Uma pausa.

4 comentários:

Mariana disse...

Somos fracos e frágeis, mas é justamente por sermos assim que anseamos pela beleza e pela perfeição em tudo que fazemos e sentimos.
Você escreve tão bem que me fez ter vontade de escrever!

Belinha ☆ ♪ ઇ‍ઉ disse...

Dario... quanta palavra linda!!!

inspira inspiração!

B disse...

Que texto maravilhoso. Que expressão, que sintonia consigo mesmo, com as palavras, com a escrita, os sentimentos. Tudo. É maravilhoso ler você.

Rebi disse...

Você inspira.