quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um Poema

- Esse poema é muito honesto. Desculpe-me se soar canalha, mas é a madrugada e o conhaque que bebo sem parar.

Foi o que ele disse quando a encontrou. Dera rosas àquela mulher, sussurrara para si o jazz que ela cantava todas as noites naquele cabaré. Escrevera poemas. E era capaz de descrever as curvas de seu corpo com um encantamento casto. Ela vestia azul escuro. Quando caminhava, era como se o mar balançasse aos seus pés. Tinha acabado mais um número. Ouvia aquele homem, do lado do palco, com uma desconfiança triste, como quem teme chorar.

- Essa última aí. Era Billie Holiday, não é?
- Era, "You've Changed".

A música o acertara em cheio. Ele não soube ver nos olhos escuros da cantora se fora obra do acaso, ou se a canção fora planejada. As pedras do vestido dela brilhavam diante dele. Estava cheio de admiração, ao mesmo tempo que tremia os lábios com as palavras que escrevera.

- O poema. Não vai dizer?
- Direi.

Desdobrou o papel e leu com voz tímida:

Anda. Segue lua.
Segue cheia.
Segue alto.
És a luz da noite!

Voa. Não mingue.
Segue e cresce.
Não se prenda.
Aqui jaz a escuridão.

Ele não perguntou o que ela achou. Os olhos úmidos daquela mulher calaram suas palavras naquele instante. Caminhou até sua mesa de sempre, na penumbra, e pediu mais um conhaque. A cantora voltou ao palco e brilhou, como haveria de ser.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tão Bela

Eu nunca vi seus olhos diante dos meus. Mas sei dos desenhos que eles fazem. Sei o que eles veem. E sei tantas coisas que não vejo.

Eu vi palavras suas diante das minhas. Esse traço de mulher bailarina que salta as palavras. As levam e as trazem de volta.

Eu vi seus passos. Lá do meu silêncio, quase sempre triste, eu vi a dança que nunca acaba. Sempre cheia de vontade e palavra.

Eu vi uma mulher com palavras de Lispector, Telles, Espanca. Tão bela, grande no desejo de suas palavras que dizem tudo.

Eu vi uma menina com palavras suas. Uma sobre as outras, me enchendo de admiração. Belinha, sob a sutileza das dores que pinta com flores.

Eu nunca vi seus olhos diante dos meus. Mas sei que isso não tarda. E que poesias virão? Não sei, mas espero poder pintá-las com suas cores.

domingo, 10 de abril de 2011

Câmera Lenta

O vídeo vai voltando em câmera lenta. De costas, ele atravessa o corredor. Os estilhaços do chão então flutuam, até formarem a janela novamente. O sangue em suas mãos some e fecham-se as feridas. Devagar a porta se abre. Ele está do lado de fora, vendo a enorme casa. E não sabe de nada.

A guitarra cruza o som do piano por um instante. Não há calma. A música vai cercando o silêncio. Por todos os lados uma lembrança. De cada um que lhe amou quando ele se esqueceu disso. A guitarra interrompe, há harmonia, e haveria de qualquer forma, ele sabe. É hora de se guardar como uma nuvem escura antes da tempestade.

Uma escadaria imensa. De cimento velho e áspero. Cada degrau sendo um passo a mais longe do chão. Longe de onde todos procuram estar. "É tão mais bonito lá de cima!". O tempo se fecha. Eu vejo uma atriz, linda e livre. Ela me diz num papel impresso antes de eu nascer:

- Nada pode mais me ferir.

Em câmera lenta, ela tem razão.