quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mãos

Um dia, como prometêssemos a eternidade um ao outro, rimos, ombro a ombro, de pequenas coisas que não tinham muita importância, mas nos faziam felizes naquele momento. Então eu te matei.

Entramos juntos num lago, enquanto o inverno terminava. Eu sabia quão fundo você estava e não lhe disse nada. Quando você chamou por mim, eu mergulhei. E de novo você chamou, perdida na superfície fria. No entanto eu não emergi. Era escuro no fundo do lago e por mais que eu soubesse onde estava, eu não sabia para onde eu ia. Caiu a noite. A água gelou, retraindo a pele. De repente estávamos em marges distantes. Não ouvi o seu choro. Mas de onde eu estava eu chorei por nós. E por mim.

Um dia eu te matei. Mas o sangue em minhas mãos não era apenas seu. Como fosse o fim a maior prova de eternidade, eu vi que o meu próprio peito sangrava.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Menino

A mãe ajeita o xale e aperta os braços. Mais por costume do que pelo frio. Seu gesto carrega, na verdade, um tanto de saudade. Olha os quadrados de vidro separados pela madeira envelhecida da janela, passa a mão e intriga-se com o pó em seus dedos. Quanto tempo teria se passado? Olha a grama verde que desce até além de sua vista. Então se lembra: meu menino, pra donde foi meu menino?

Alembro dele dano os primero passinho. As bochecha gorda de criança. Incrive como ria pra tudo! Alembro, tomém, quando meu menino caiu. Susto dos grande. Nunca mais queria meu fio andano. Mais tinha que andá, né? E andô. Era bunito meu fio. Se o sinhô encontrá, diz pra ele vim deitá no colo da mãe dele, diz?

O menino cruzou a varanda num segundo. E correu pela grama podada, sem certeza de para onde as pernas corriam. De certo, apenas, aquilo dentro dele, quente, que sentia. Nem olhou para trás. E nem viu a benção que sua mãe lhe dava, em silêncio, pela janela. Vai cum Deus, fio, vai sê filiz. Em seu peito nunca anoitecia.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Franco

O lugar mais impensável para nos encontrarmos seria uma praia. Nunca te imaginei em uma. Porém, eu que digo tanto, seria próximo ao mar que eu não precisaria dizer nada.

Eu estaria sentado na plataforma, acompanhando o mar negro indo de encontro ao céu no horizonte que não se vê. Seria lindo se eu pressentisse a sua presença, mas eu só lhe notaria quando falasse, apontando as estrelas: São vaga-lumes, presos naquela coisa azul escura. Em meu rosto se formaria um riso franco, ao me lembrar do filme. Você se sentaria ao meu lado, olhando lá na frente, semi-serrando os olhos, fazendo de conta procurar o horizonte que eu ainda não encontrara. Então se viraria para mim e sussurraria, cheio de magia nas palavras: Va-ga-lu-mes! E seus olhos tão perto, seria como se a noite caísse sobre mim e não houvesse mais nada, além da sua boca com um riso maior que o meu. Ah, se eu soubesse, naquele momento eu lhe cantaria uma música linda. Sua mão encontraria meu ombro, seu braço as minhas costas. Ficaríamos tão perto! Eu me esqueceria do horizonte, do mar, das estrelas e dos vagalumes. Me renderia completamente à noite que você faz piscar lentamente em seus olhos.