terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um Poema Sem Eixo

Eu fecho a cortina. Ergo com toda pompa uma taça feita com o vidro mais vagabundo. Brindo só. No escuro. O vinho doce e barato desce pela minha garganta a goles grandes. Vinho doce, de menininha. Um dia eu te quis. Muito. E você sabe. Deve ter visto isso na minha cara. Porém tem uma coisa que eu não lhe disse nem com palavras, nem com olhares e gestos:

Um dia eu caí de um sonho torto que se desfez. E você me deu um sorriso curto, sob um olhar longo. Então ali você me salvou. Como um herói anônimo, mas ao contrário. Disso eu tenho certeza que você não sabe. E talvez por isso eu ainda tenha aqui comigo tantas palavras para você.

Sento-me no sofá e fito a parede. Vultos passam disformes. Mas são apenas os carros lá fora. Lembro de ontem, enquanto chovia, que coubemos sob um mesmo guarda-chuva. Hoje eu passo todos os dias por aquela rua. Mas é sempre de dia, quando você não estaria lá. O vinho acaba na taça. Jogo-a longe, no entanto não é raiva. É apenas como se eu estivesse dentro de um filme. Antigo, como aqueles que gostamos. E passo a beber direto da garrafa.

Cambaleante, vou até um pedaço de papel e leio um pensamento jogado: "temo que hoje seja tarde demais para ontem". Rio. Eu tenho um poema sem eixo.