domingo, 23 de outubro de 2011

Seu Poema Preferido

A distância não é bonita.

Sento-me numa cadeira de madeira maciça. Observo os livros apertados na estante larga, como calcificados. Em algum deles está o seu poema preferido, que eu não sei qual é. A cortina aberta deixa entrar uma luz fraca pela sala. O cômodo está amarelado. É o sol que se põe sem pressa alguma. Penso em meia dúzia de versos e em nenhuma rima.

A ciranda roda de olhos fechados.

Alguém vê meu rosto e detêm cada traço meu na memória. No entanto eu não sei quem é, pois meus olhos se prendem a outros traços, de uma pessoa que não sabe quem sou. E roda. Você sorri vagamente, como se não pudesse voltar. Eu queria ir e lhe dizer um poema, baixinho. E eu finjo que esqueço as palavras, para que você as lembre de dizer.

A realidade esconde o que eu sonhei.

Você senta ao meu lado, para vermos um filme antigo. Eu divido meu olhar entre você e a tela em preto-e-branco. Os meus dedos entre os seus, os meus olhos sobre os seus, então sorrimos. Calmos. Os instantes que são nossas vidas se cruzaram, enfim, no labirinto que é a eternidade. Depois do filme, com a cabeça em meu colo, você me diz o seu poema preferido.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Que você não vê

Eu não tenho medo da distância física.
Ela não nos impossibilita.
Eu tenho medo do tempo, que nos separa.

Essa poesia tem um porquê.
Mas ela não sabe quando.
Como um verso que não termina eu digo em inteiras palavras o que você não deve saber.

Eu acho que você tem medo de poesia.
Porém é ela que me possibilita.
Eu tenho medo do que nos separa, daquilo que você não vê.