sábado, 24 de novembro de 2012

Latente


A respiração é lenta. Como a falsa timidez de uma criança prestes a correr na direção de um balanço.

Porém cada pausa é como se você não fosse respirar outra vez. Então eu me contenho: eu não digo nada.

Eu me debruço na janela pra ver o pianista passar. Suave, morno e latente, como fosse uma dor nos Elísios.

A música se repete incessantemente pois a sua beleza pertence a um universo sem pausa. Universo sem tempo.

Quando acordar, eu terei saído. Eu não tenho pressa. Os meus passos estão no acorde e não na melodia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Rimas Difíceis


Ficou esquecido num canto alguém que eu conhecia.
No trem oposto, n'outra linha, eu disse adeus.
Era inverno num outro lugar quando em mim amanhecia.

Ninguém se lembra de quando sabíamos muito pouco.
Os dedos trêmulos sobre o papel são meus.
Ninguém se lembra dos versos breves, tampouco.

Eu não queria que você guardasse aquilo que sobrou.
Solte o que resta, como a fé fina dos ateus.
Do outro lado na estação diga a mim que se lembrou.

Cada um corre no vale que se ergue no meu peito.
Cena de um filme de alguém que temia a Deus.
Eu repito cada nome, quando escurece e eu me deito.

Fim. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Maria


Você não pode me dizer sobre todas as cores que eu vejo pela janela da cozinha, no fundo de casa. Porém me conta sobre histórias sobre cada tom de verde que você segura em suas mãos. Muito antes de eu repousar em seu colo, você já piscava seus olhos claros, que parecem sempre cheios de lágrimas. Elas são tristes quando eu me lembro de todas as histórias que me contou, de um tempo que não me pertence. No entanto elas são alegres quando você me fala, com orgulho, de cada um de nós que estamos ao seu lado.

Sempre que eu te vejo frente a frente, é como me inundasse um mar calmo e morno. E eu ouço a sua voz lenta fazendo uma prece tímida. A folha de oliva pousa na imensidão azul. Não existe tempo. Você está nos meus cabelos, que dançam. E a música sai de sua boca, num assovio de apenas duas notas, mas que é a calma do meu coração.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Morte Súbita de Um Poema

Despiu-se. Deitou no chão da sala e pôs-se a declamar: 

Uma árvore antiga, de folhas escuras. Uma praia noturna. Uma flor improvável no meio do caminho. Ou um rio suave à sombra. É na natureza que eu te procuro, querendo te encontrar em todos os lugares. No entanto você não vem. 

Eu te vejo correndo antes da tempestade. Você some na esquina seguinte enquanto as janelas se fecham e as roupas são tiradas do varal. Um vento úmido e vasto varre a cidade e então você desaparece. Como pupilas que dilatam.

Você feriu o tempo. Fazendo do amanhã um ontem amargo e sem prece. Escondeu-se num lugar ordinário. Só porque não lhe vejo. E me deixou esquecido a me lembrar de você. Não existe o tempo, só a lembrança.  

Calou-se. Alcançou o telefone e esboçou uma mensagem:

Há momentos em que eu me questiono: será que eu vi o seu rosto, um dia, diante de mim, ou será que é uma lembrança inventada?

Riu-se. Virou-se de lado e murmurou:

A poesia é a doença e não a cura. 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Uma tarde Bela nos uniu


Cabelos de Iemanjá.
Saias de Iansã.
Minha menina passeia na praia.
E carrega os ventos nos olhos.
Quando me fala, feita de verso e poesia,
É Oxum que está em sua boca.

Rios correm seus cabelos.
Mar no rosto quando sorri.
Sua voz é uma manhã suave.
E sua força um colosso selvagem.
Do alto da serra, nos encontramos
quando há música.

Evoé, minha irmã.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fora


Havia uma mulher e seu tricô. Que horas eram? Ela não sabia. O relógio parara e as janelas estavam fechadas. Todas as três, com seus vidros coloridos, seladas pela madeira carunchada. Nem mesmo se dava conta do tempo que fazia. Apenas ocupava-se em vestir e desvestir sua estola antiga. Para ninguém, a senhora quebrou o silêncio:

- Eu me lembro de uma criança. Ela me disse "boa noite". Eu beijei-lhe a testa e ela se foi. Isso foi há alguns minutos.

Enquanto a lã escapava de seus dedos para se enrolar na agulha, os pensamentos daquela mulher se misturavam. Antes de tanta poeira, a voz de Elizeth Cardoso era ouvida na vitrola. As janelas escancaradas. E muita dança sobre o assoalho. Era tudo tão lindo! Porém ela não sabia se era lembrança ou imaginação.

- Eu me lembro de uma criança, aqui. Levantou-me a testa para eu beijar e disse-me "boa noite". Ela se foi. E isso foi há uns 30 anos.

O novelo dançava conforme a manta nas mãos da senhora ia se formando. Parou um intante. Tirou a estola de deixou-a de lado. Olhou para as frestas da janela, parecia claro lá fora. Largou o tricô, tirou o chinelo e as grossas meias e se levantou. Caminhou com dificuldade até a porta e abriu.

- Eu disse-lhe "boa noite". E ganhei um beijo na testa. Eu acho que eu tenho que ir. Agora.

Era de dia. Chovia. A mulher andou até a calçada, séria. Até que abriu os braços. Ela ria. E como ela ria! Ela gargalhava! A sua loucura era doce. Escancarada portão À fora. Encharcada ela chorou sem se notar. Não por tristeza, tampouco alegria. Chorou como que ri sem razão. Havia muito dela dentro. E agora, enfim, havia muito dela fora.  

terça-feira, 29 de maio de 2012

Quarta-feira


- Fala, seu viado!
- Ô, boiola, que foi?
- Chega aqui em casa mais tarde, vou assar uma carninha.
- Opa, churrasco numa quarta-feira? Tá ficando rico, mesmo, heim?
- É pra comemorar que aquela merda do seu time perdeu... Perdeu pro meu!
- Hahah, pau-no-cu!
- Serião, vagabundo, chega aqui mais tarde, traga umas brejas e boas. E ainda vai tê umas vagabunda pra dá uma animada.
- Ah, vai ter a sua família?
- Vai. Traz a sua mãe, também, mas mande ela depilar o peito!
- Pode deixar, falo pra ela emprestar o prestobarba da sua mãe.
- Hahaha, falô, então, cola aqui depois, arrombado.
- Falô!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Despedida

Você dorme em paz. É uma paz muda de sonhos em branco. A janela deixa entrar uma luz discreta, que ilumina metade do seu rosto: é lua minguante. Eu saio do quarto pé por pé, como tivesse acabado de lhe contar uma história. O ranger da porta faz com que você se mova na cama. Já não vejo seu rosto.

Existe uma flor seca lá fora. Contorcida, como uma lembrança reticente, ela persiste no fundo do jardim. Morta. No entanto, à frente dela, o solo se rasga. As sementes que se abrem são as feridas que se fecham. E a chuva que chega morna, levanta o cheiro da terra úmida.

Antes de ir embora, passo pela sala, onde tem um abajur aceso para ninguém. Deixo sobre a mesa um poema insistente. Apago a luz à toa. A sala tem um cheiro forte de tecido velho, que eu não reconheço. Saio sem olhar de volta e, já do lado de fora, eu deixo a chave sob o tapete.

A madeira crepita enquanto o fogo toma conta de todo o pátio. Os olhos do menino brilham e o seu coração acelera. Um dia, com os olhos escuros e calmos, ele contaria sobre a sua anarquia infantil. Seu coração aceleraria outra vez, porém ele dividiria apenas a sua história, não a sua emoção.

Ando por uma estrada que me leva para qualquer lugar. A névoa deixa o horizonte invisível. A atmosfera é branca, como os versos atados aos meus dedos. Porque não importa onde eu escreva, é em minhas mãos que está a poesia. O caminho se desenha conforme os meus pés avançam. De repente o horizonte ficou para trás.

Espiou rapidamente pela janela e os olhos da mulher abriram-se assustados. Ela viu um vulto no quintal. Colocou a mão trêmula em seu peito e fez duas ou três preces, misturadas em seu nervosismo. Encolheu-se no assoalho temendo o impossível. Chorando. Lá fora, um lençol dançava no varal. Inocente.

domingo, 15 de janeiro de 2012

O Pássaro, a Semente e a Flor.

Eu quis lhe contar um segredo. Após eu tomar coragem e uns tantos goles de vinho, eu me virei para te encarar. Mas você já estava se levantando da mesa. Alguém lhe puxava pela mão e você ria. Os seus olhos pequenos se apertavam e sua gargalhada rouca soava fora de tom. Fora de mim. Eu tenho muitas lembranças de coisas que não aconteceram. E numa delas olhamos para o mesmo filme antigo e o nosso choro é cúmplice. Acho que as suas mãos são um pouco menores que as minhas. São elas que eu vejo colorindo a tela em preto-e-branco. Acho tão doce a forma como você se perde no mundo. A sua rebeldia é pura. O seu ateísmo é santo. E o meu segredo vai se desfazendo enquanto você se afasta. Ainda é cedo.

A ladainha ecoava por toda igreja. Os três primeiros bancos eram ocupados por senhoras que rezavam o terço. Algumas delas me olharam quando eu cheguei, mas logo voltaram à prece. Quando paro meus olhos num vitral, a sua pele macia vem à minha mente. O seu cabelo meio claro. O seu jeito meio confuso. Então me lembro do seu olhar etéreo. Da candura castanha. É como se corresse uma criança no fundo dos seus olhos. Um barulho rompe minha lembrança. É uma senhora que se sentara ao meu lado. Ela me pergunta que horas vai começar a missa. Antes de responder à senhora, eu a encaro e sorrio como você sorriria. Volto meus olhos no vitral, mas você não está mais lá. É tarde demais.

Em praça pública eu disse o seu nome em rimas invertidas para que toda a gente ouvisse. Um velho riu. Um homem ouviu, silente. E uma moça chorou. Eles não sabiam, mas as palavras que eu dizia ali, eram do poema que você tem escrito em seu peito e que nunca foi lido. Fui embora daquela praça exaurido das palavras que eu mesmo inventara. Eu fujo para dentro da noite e faço uma fogueira com os livros que não foram escritos. A madrugada corta como uma lâmina cega. E eu nunca sei quando.