domingo, 15 de janeiro de 2012

O Pássaro, a Semente e a Flor.

Eu quis lhe contar um segredo. Após eu tomar coragem e uns tantos goles de vinho, eu me virei para te encarar. Mas você já estava se levantando da mesa. Alguém lhe puxava pela mão e você ria. Os seus olhos pequenos se apertavam e sua gargalhada rouca soava fora de tom. Fora de mim. Eu tenho muitas lembranças de coisas que não aconteceram. E numa delas olhamos para o mesmo filme antigo e o nosso choro é cúmplice. Acho que as suas mãos são um pouco menores que as minhas. São elas que eu vejo colorindo a tela em preto-e-branco. Acho tão doce a forma como você se perde no mundo. A sua rebeldia é pura. O seu ateísmo é santo. E o meu segredo vai se desfazendo enquanto você se afasta. Ainda é cedo.

A ladainha ecoava por toda igreja. Os três primeiros bancos eram ocupados por senhoras que rezavam o terço. Algumas delas me olharam quando eu cheguei, mas logo voltaram à prece. Quando paro meus olhos num vitral, a sua pele macia vem à minha mente. O seu cabelo meio claro. O seu jeito meio confuso. Então me lembro do seu olhar etéreo. Da candura castanha. É como se corresse uma criança no fundo dos seus olhos. Um barulho rompe minha lembrança. É uma senhora que se sentara ao meu lado. Ela me pergunta que horas vai começar a missa. Antes de responder à senhora, eu a encaro e sorrio como você sorriria. Volto meus olhos no vitral, mas você não está mais lá. É tarde demais.

Em praça pública eu disse o seu nome em rimas invertidas para que toda a gente ouvisse. Um velho riu. Um homem ouviu, silente. E uma moça chorou. Eles não sabiam, mas as palavras que eu dizia ali, eram do poema que você tem escrito em seu peito e que nunca foi lido. Fui embora daquela praça exaurido das palavras que eu mesmo inventara. Eu fujo para dentro da noite e faço uma fogueira com os livros que não foram escritos. A madrugada corta como uma lâmina cega. E eu nunca sei quando.

9 comentários:

Shmravis disse...

Wonderful.

Kaique Oliveira disse...

Adorei! :D

Cris Andrade & Fabio Bernardino disse...

Sentia falta das tuas palavras. Das tuas "claricices" muito além de citações do Twitter. Pq os textos são clarices nos sentidos de reflexos da autora e iluminação dos sentimentos. Sinto falta das tuas palavras como sinto das minhas próprias. Mas as tuas, presumo, são mais bonitas. E ainda insisto (mania antiga de primeiros posts) que possa saber quem é o outro, tão docemente retratado...

Eder disse...

e demora uma primavera.

Bru disse...

Eu gosto de reconhecer seus amores :)
Pelo menos, brincar disso.

Shey disse...

Li, reli e saboreei...suas palavras são refrescantes, meu amigo!

Gian Garcia disse...

Imersão. É o que acontece quando leio seus textos. Imersão.

Filipe Macedo disse...

Que bonito, falou com o coração ... isso é o que mais importa.


Bons ventos Dario, foi um presente ler seu texto.

Darlan disse...

ótimo isso. vi cada imagem nesse texto calmo, suave. coisa bonita de ler. ah, sorrisos com olhos apertados sempre me encantam.