quarta-feira, 14 de março de 2012

Despedida

Você dorme em paz. É uma paz muda de sonhos em branco. A janela deixa entrar uma luz discreta, que ilumina metade do seu rosto: é lua minguante. Eu saio do quarto pé por pé, como tivesse acabado de lhe contar uma história. O ranger da porta faz com que você se mova na cama. Já não vejo seu rosto.

Existe uma flor seca lá fora. Contorcida, como uma lembrança reticente, ela persiste no fundo do jardim. Morta. No entanto, à frente dela, o solo se rasga. As sementes que se abrem são as feridas que se fecham. E a chuva que chega morna, levanta o cheiro da terra úmida.

Antes de ir embora, passo pela sala, onde tem um abajur aceso para ninguém. Deixo sobre a mesa um poema insistente. Apago a luz à toa. A sala tem um cheiro forte de tecido velho, que eu não reconheço. Saio sem olhar de volta e, já do lado de fora, eu deixo a chave sob o tapete.

A madeira crepita enquanto o fogo toma conta de todo o pátio. Os olhos do menino brilham e o seu coração acelera. Um dia, com os olhos escuros e calmos, ele contaria sobre a sua anarquia infantil. Seu coração aceleraria outra vez, porém ele dividiria apenas a sua história, não a sua emoção.

Ando por uma estrada que me leva para qualquer lugar. A névoa deixa o horizonte invisível. A atmosfera é branca, como os versos atados aos meus dedos. Porque não importa onde eu escreva, é em minhas mãos que está a poesia. O caminho se desenha conforme os meus pés avançam. De repente o horizonte ficou para trás.

Espiou rapidamente pela janela e os olhos da mulher abriram-se assustados. Ela viu um vulto no quintal. Colocou a mão trêmula em seu peito e fez duas ou três preces, misturadas em seu nervosismo. Encolheu-se no assoalho temendo o impossível. Chorando. Lá fora, um lençol dançava no varal. Inocente.