segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Morte Súbita de Um Poema

Despiu-se. Deitou no chão da sala e pôs-se a declamar: 

Uma árvore antiga, de folhas escuras. Uma praia noturna. Uma flor improvável no meio do caminho. Ou um rio suave à sombra. É na natureza que eu te procuro, querendo te encontrar em todos os lugares. No entanto você não vem. 

Eu te vejo correndo antes da tempestade. Você some na esquina seguinte enquanto as janelas se fecham e as roupas são tiradas do varal. Um vento úmido e vasto varre a cidade e então você desaparece. Como pupilas que dilatam.

Você feriu o tempo. Fazendo do amanhã um ontem amargo e sem prece. Escondeu-se num lugar ordinário. Só porque não lhe vejo. E me deixou esquecido a me lembrar de você. Não existe o tempo, só a lembrança.  

Calou-se. Alcançou o telefone e esboçou uma mensagem:

Há momentos em que eu me questiono: será que eu vi o seu rosto, um dia, diante de mim, ou será que é uma lembrança inventada?

Riu-se. Virou-se de lado e murmurou:

A poesia é a doença e não a cura. 

Um comentário:

eder disse...

o poeta cava o buraco, prepara o caixão, e nem diz adeus.